{"id":1014,"date":"2026-09-01T19:00:00","date_gmt":"2026-09-01T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/?p=1014"},"modified":"2026-09-01T17:32:26","modified_gmt":"2026-09-01T20:32:26","slug":"a-ilha-misteriosa-jules-verne","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/resenhas\/a-ilha-misteriosa-jules-verne\/","title":{"rendered":"[Resenha] A Ilha Misteriosa \u2014 Jules Verne"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-medium\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"213\" height=\"300\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/91upkokp5L._SL1500__SJYVD5R-213x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1015\" srcset=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/91upkokp5L._SL1500__SJYVD5R-213x300.jpg 213w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/91upkokp5L._SL1500__SJYVD5R-728x1024.jpg 728w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/91upkokp5L._SL1500__SJYVD5R-768x1080.jpg 768w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/91upkokp5L._SL1500__SJYVD5R.jpg 1066w\" sizes=\"auto, (max-width: 213px) 100vw, 213px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 obras que resistem ao tempo n\u00e3o pela leveza com que foram concebidas, mas pelo peso admir\u00e1vel de sua subst\u00e2ncia. <em>A Ilha Misteriosa<\/em>, do imortal Jules Verne, pertence com toda a justi\u00e7a a essa categoria privilegiada \u2014 aquela em que o escritor n\u00e3o se contenta em entreter o leitor, mas empenha-se, com not\u00e1vel afinco, em instru\u00ed-lo, emocion\u00e1-lo e, se me \u00e9 permitido o termo, edific\u00e1-lo. Publicada originalmente entre os anos de 1874 e 1875 nas p\u00e1ginas do <em>Magasin d&#8217;\u00c9ducation et de R\u00e9cr\u00e9ation<\/em>, esta obra representa, no entender do signat\u00e1rio destas linhas, uma das mais completas realiza\u00e7\u00f5es do g\u00eanero que se convencionou chamar de romance cient\u00edfico \u2014 e que os ingleses, com sua costumeira economia vocabular, designariam por <em>science fiction<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 sem algum pesar que devo registrar, antes de prosseguir, o incidente lament\u00e1vel que precedeu a presente leitura. O subscritor desta resenha teve a infelicidade de adquirir, em uma dessas feiras de volumes que proliferam pelos corredores dos estabelecimentos comerciais modernos, uma edi\u00e7\u00e3o cujo texto se apresentava, como hoje se diz com eufemismo pouco convincente, &#8220;adaptado&#8221;. Ora, que autoridade possuiria qualquer editor contempor\u00e2neo para intervir na prosa de um mestre cujo talento a pr\u00f3pria posteridade se encarregou de consagrar? A quest\u00e3o \u00e9, nos permitamos ser diretos, de resposta constrangedora. Felizmente, a situa\u00e7\u00e3o foi prontamente remediada com a aquisi\u00e7\u00e3o de uma edi\u00e7\u00e3o integral e digna \u2014 e \u00e9 sobre este texto, na \u00edntegra e na sua gl\u00f3ria, que versar\u00e3o as considera\u00e7\u00f5es que se seguem.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Fuga e o Naufr\u00e1gio<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria tem in\u00edcio em plena Guerra Civil Americana. Gedeon Spilett, jornalista; Nab, ex-escravo liberto e de fidelidade inabal\u00e1vel ao seu patr\u00e3o; o engenheiro Cyrus Smith; Bonadventure Pencrof, marinheiro experimentado; Harbert Brown, jovem protegido de Pencrof; e o c\u00e3o Top fogem de Richmond em um aer\u00f3stato, com o tempo j\u00e1 a virar. O que come\u00e7a como uma fuga desesperada transforma-se, sob a f\u00faria de um furac\u00e3o no Pac\u00edfico Sul, em naufr\u00e1gio a\u00e9reo. O grupo chega a um recife, e dali a uma ilha grande e generosa em vegeta\u00e7\u00e3o, fauna e \u00e1gua doce \u2014 mas Cyrus Smith e Top se separaram dos demais e ningu\u00e9m sabe se est\u00e3o vivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Verne estabelece desde os primeiros cap\u00edtulos a composi\u00e7\u00e3o deliberada do grupo: o jornalista que observa e narra, o marinheiro que navega e constr\u00f3i, o engenheiro que pensa e resolve, o jovem que aprende e admira, o ex-escravo que serve com devo\u00e7\u00e3o. Cada personagem ocupa seu posto como pe\u00e7a de um mecanismo relojoeiro, e o autor n\u00e3o faz segredo dessa engenharia. O leitor mais exigente poder\u00e1 objetar a conveni\u00eancia excessiva dessa arruma\u00e7\u00e3o \u2014 e n\u00e3o estar\u00e1 de todo errado. Por\u00e9m, a prosa \u00e9 t\u00e3o saborosa, a narrativa se desenrola com tanta eleg\u00e2ncia e sem pressa, que o esquematismo \u00e9 prontamente perdoado. Quando a cad\u00eancia solene de Verne descreve a ilha como um naturalista em expedi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, o leitor de bom gosto rende-se e deixa-se levar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale registrar que a edi\u00e7\u00e3o &#8220;adaptada&#8221; que motivou o incidente narrado na abertura desta resenha suprimia, entre outras coisas, as refer\u00eancias de f\u00e9 presentes no texto original. Cortar essas passagens n\u00e3o \u00e9 simplificar \u2014 \u00e9 amputar uma dimens\u00e3o inteira do autor e da \u00e9poca. Verne era cat\u00f3lico praticante, e isso transpira em sua obra de maneiras que o leitor desatento pode n\u00e3o perceber \u00e0 primeira vista. N\u00e3o \u00e9 prega\u00e7\u00e3o \u2014 \u00e9 cosmovis\u00e3o. A natureza em Verne n\u00e3o \u00e9 um cen\u00e1rio neutro; \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o ordenada, pass\u00edvel de ser compreendida pelo engenho humano precisamente porque foi feita por uma intelig\u00eancia superior. Retirar isso \u00e9 produzir um Verne ass\u00e9ptico e moderno \u2014 tecnicamente leg\u00edvel, espiritualmente vazio.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-1-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1018\" srcset=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-1.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Mandato Ad\u00e2mico e a Civiliza\u00e7\u00e3o Reconstru\u00edda<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reunido o grupo \u2014 Cyrus Smith retorna misteriosamente, sem ferimentos que expliquem sua sobreviv\u00eancia, acompanhado do fiel Top \u2014, come\u00e7a o que poder\u00edamos chamar de G\u00eanesis em miniatura. Os colonos reconstroem a civiliza\u00e7\u00e3o humana etapa por etapa, com uma fidelidade \u00e0 sequ\u00eancia hist\u00f3rica que dificilmente ser\u00e1 acidental num autor de f\u00e9 cat\u00f3lica e cultura b\u00edblica s\u00f3lida: abrigo, fogo, ca\u00e7a, cer\u00e2mica e, finalmente, metalurgia. O pr\u00f3prio Verne cita Tubalcaim \u2014 &#8220;mestre de toda obra de cobre e ferro&#8221;, conforme G\u00eanesis 4:22 \u2014 no momento exato em que seus personagens iniciam sua Era da Metalurgia. N\u00e3o \u00e9 ornamento liter\u00e1rio; \u00e9 declara\u00e7\u00e3o de cosmovis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Igualmente revelador \u00e9 o momento em que os colonos sobem ao cume do vulc\u00e3o, confirmam que est\u00e3o numa ilha e come\u00e7am a batiz\u00e1-la: o Lago Grant, o Monte Franklin, o Rio da Miseric\u00f3rdia, a pr\u00f3pria Ilha Lincoln. Ao ler essa cena, ocorreu a este resenhista uma analogia que n\u00e3o conseguiu mais afastar: Ad\u00e3o nomeando os animais no \u00c9den. A tradi\u00e7\u00e3o exeg\u00e9tica reformada h\u00e1 muito observa que nomear, no contexto hebraico, \u00e9 mais do que rotular \u2014 \u00e9 exercer autoridade e atribuir fun\u00e7\u00e3o, \u00e9 o ato do mordomo que reconhece o lugar de cada criatura dentro da ordem estabelecida por Deus. Quando os colonos de Lincoln batizam cada acidente geogr\u00e1fico da ilha, n\u00e3o est\u00e3o apenas decorando um mapa: est\u00e3o exercendo o dom\u00ednio que lhes foi conferido, transformando territ\u00f3rio selvagem em lar. \u00c9 <em>dominium<\/em> em miniatura \u2014 e Verne o narra com uma naturalidade que sugere ser essa, para ele, a coisa mais normal do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse processo de reconstru\u00e7\u00e3o civilizacional, destaca-se a figura do engenheiro Cyrus Smith \u2014 o MacGyver original, com quase s\u00e9culo e meio de anterioridade sobre o personagem televisivo. Com dois vidros de rel\u00f3gio, Smith improvisa uma lente e acende fogo. Com nitroglicerina artesanal, abre um escoadouro no leito do lago. Com c\u00e1lculos matem\u00e1ticos e mem\u00f3ria, determina a posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da ilha com precis\u00e3o not\u00e1vel. A diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao seu sucessor televisivo \u00e9 que Smith opera sem fitas adesivas nem explos\u00f5es convenientes \u2014 apenas f\u00edsica, qu\u00edmica e uma f\u00e9 inabal\u00e1vel na racionalidade de um universo criado para ser compreendido.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Ilha que Cuida<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria, por\u00e9m, injusto reduzir <em>A Ilha Misteriosa<\/em> a um romance de sobreviv\u00eancia t\u00e9cnica. Desde os primeiros cap\u00edtulos, o leitor atento percebe um padr\u00e3o que transcende a coincid\u00eancia: a ilha prov\u00ea. Os colonos precisam de abrigo \u2014 e encontram cavernas formadas por eros\u00e3o, perfeitamente dimensionadas. Precisam de fogo \u2014 e Smith resolve com dois vidros de rel\u00f3gio. Lamentam a falta de animais de tra\u00e7\u00e3o \u2014 e um casal de onagros surge nas proximidades. Resgatam um ba\u00fa do mar que cont\u00e9m, com precis\u00e3o perturbadora, exatamente o que lhes faltava: ferramentas, armas, instrumentos de navega\u00e7\u00e3o, roupas, livros e uma B\u00edblia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00faltima adi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 decorativa. Em um domingo, os colonos abrem a B\u00edblia aleatoriamente e encontram Mateus 7:8 \u2014 <em>&#8220;Aquele que pedir, receber\u00e1, e aquele que procurar, achar\u00e1.&#8221;<\/em> Palavras que, naquele contexto, n\u00e3o s\u00e3o apenas conforto espiritual: s\u00e3o chave interpretativa. Verne, o cat\u00f3lico praticante, pisca para o leitor de f\u00e9 e diz, sem palavras: <em>sim, voc\u00ea est\u00e1 lendo certo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os mist\u00e9rios se acumulam com uma generosidade que logo ultrapassa o acaso. Uma criatura invis\u00edvel salva o c\u00e3o Top de um dugongo e desaparece nas profundezas. Uma fogueira ilumina o caminho dos n\u00e1ufragos numa noite de tempestade \u2014 mas ningu\u00e9m a acendeu. Um torpedo destr\u00f3i o navio pirata no momento exato em que tudo parecia perdido. Um medicamento espec\u00edfico aparece sobre a mesa do jantar quando Harbert est\u00e1 \u00e0s portas da morte. A ilha n\u00e3o \u00e9 apenas generosa. Ela <em>responde<\/em>. Age com prop\u00f3sito, com conhecimento das necessidades do grupo e com um timing que desafia qualquer explica\u00e7\u00e3o estat\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O leitor familiarizado com a televis\u00e3o do s\u00e9culo XXI reconhecer\u00e1, com um sorriso, os elementos: uma ilha misteriosa no Pac\u00edfico, n\u00e1ufragos que encontram exatamente o que precisam, uma presen\u00e7a invis\u00edvel que age nos bastidores, um animal que parece saber mais do que deveria. <em>A Ilha Misteriosa<\/em> \u00e9, com toda a justi\u00e7a, a <em>Lost<\/em> do s\u00e9culo XIX \u2014 com a vantagem consider\u00e1vel de ter um final que faz sentido.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Reden\u00e7\u00e3o de Ayrton<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre todos os personagens do romance, nenhum percorre um arco t\u00e3o completo quanto Ayrton. Encontrado na ilha Tabor em estado de absoluta selvageria \u2014 anos de isolamento haviam apagado nele os tra\u00e7os da humanidade civilizada \u2014, ele \u00e9 resgatado pelos colonos n\u00e3o por utilidade, mas por obriga\u00e7\u00e3o moral. Todos eles, sem exce\u00e7\u00e3o, s\u00e3o crist\u00e3os que reconhecem suas falhas mas agem conforme o que creem. E o que creem os obriga a tentar recuperar a alma perdida de um homem, independentemente do custo ou da conveni\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa atitude, \u00e9 preciso diz\u00ea-lo, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 natural no s\u00e9culo XXI. Hoje, o debate seria intermin\u00e1vel. Haveria quest\u00f5es sobre autonomia individual, sobre impor valores culturais, sobre quem somos n\u00f3s para decidir o que \u00e9 &#8220;humano&#8221; o suficiente. Os colonos de Lincoln n\u00e3o t\u00eam essa paralisia \u2014 porque partem de uma antropologia clara. O homem foi feito \u00e0 imagem de Deus, essa imagem foi obscurecida pelo isolamento e pela selvageria, e resgat\u00e1-la \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o de quem a reconhece. C.S. Lewis observou que, quando se vai na dire\u00e7\u00e3o errada, voltar \u00e9 progresso. Os colonos de Verne sabem disso instintivamente \u2014 e o progressismo contempor\u00e2neo, paradoxalmente, perdeu essa intui\u00e7\u00e3o ao destruir virtudes reais em nome de virtudes perform\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo de reintegra\u00e7\u00e3o de Ayrton guarda, de forma que Verne provavelmente n\u00e3o planejou conscientemente, uma semelhan\u00e7a estrutural com a domestica\u00e7\u00e3o do orangotango Mestre Jup \u2014 em ambos os casos, a civiliza\u00e7\u00e3o funciona como processo de recupera\u00e7\u00e3o de uma humanidade plena, obscurecida pelo isolamento ou pela selvageria. A diferen\u00e7a \u00e9 que Ayrton, ao contr\u00e1rio de Jup, tem hist\u00f3ria, culpa e consci\u00eancia. Quando por fim conta seus crimes \u2014 a tentativa de motim, as mentiras ao lorde escoc\u00eas, o degredo merecido \u2014 ele acredita, com sinceridade, n\u00e3o merecer lugar entre os justos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O perd\u00e3o que recebe \u00e9 narrado sem melodrama e sem didatismo, com a naturalidade de quem pratica o Evangelho sem precisar anunci\u00e1-lo. Ayrton volta \u2014 e o confirma da \u00fanica maneira que importa: nadando sozinho, numa noite escura, at\u00e9 um navio cheio de criminosos, para proteger aqueles que lhe deram uma segunda chance.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-2-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1020\" srcset=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Resenha-A-Ilha-Misteriosa-Jules-Verne-imagem-2.jpg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Capit\u00e3o Nemo e a Gra\u00e7a Comum<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revela\u00e7\u00e3o do benfeitor misterioso \u00e9 um dos grandes momentos de universo compartilhado da hist\u00f3ria da literatura. Durante centenas de p\u00e1ginas, Verne construiu uma presen\u00e7a invis\u00edvel, generosa e aparentemente onisciente \u2014 e a revelou como um ser humano de carne e osso: o Capit\u00e3o Nemo, anci\u00e3o moribundo, cujo submarino Nautilus repousa numa caverna subterr\u00e2nea da ilha, e cuja hist\u00f3ria apenas uma fra\u00e7\u00e3o foi contada em <em>20.000 L\u00e9guas Submarinas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revela\u00e7\u00e3o de Nemo tem ainda uma dimens\u00e3o que merece registro separado: ela \u00e9, provavelmente, um dos primeiros e mais elegantes exemplos de universo compartilhado na hist\u00f3ria da literatura ocidental. O leitor que chegou a <em>A Ilha Misteriosa<\/em> depois de <em>20.000 L\u00e9guas Submarinas<\/em> experimenta um prazer espec\u00edfico e insubstitu\u00edvel \u2014 o de reconhecer, numa obra distinta, um personagem que j\u00e1 conhece, mais velho, transformado pelo tempo, mas inconfund\u00edvel. Verne n\u00e3o inventou o conceito \u2014 Homero j\u00e1 entrela\u00e7ava personagens e geografias entre a <em>Il\u00edada<\/em> e a <em>Odisseia<\/em> s\u00e9culos antes de Cristo \u2014, mas foi um dos primeiros a faz\u00ea-lo de forma deliberada na literatura moderna, construindo pontes entre romances publicados em anos diferentes para leitores que precisariam se lembrar de uma obra para reconhecer plenamente a outra. Este resenhista, confessa, experimentou ao deparar-se com Nemo a mesma sensa\u00e7\u00e3o que sentiu ao descobrir, nas p\u00e1ginas de Asimov, que R. Daneel Olivaw havia sido o condutor silencioso da humanidade durante mil\u00eanios: a deliciosa vertigem de perceber que o universo era maior do que parecia, e que algu\u00e9m o havia planejado com anteced\u00eancia e capricho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ilha Lincoln n\u00e3o foi uma coincid\u00eancia. O naufr\u00e1gio n\u00e3o foi um acidente. Nemo estava l\u00e1, e os colonos foram parar exatamente onde havia algu\u00e9m capaz de cuidar deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui o leitor poder\u00e1 objetar: <em>&#8220;Mas Vini, voc\u00ea disse que era Deus quem os socorria, e no final era um homem.&#8221;<\/em> A obje\u00e7\u00e3o, com o devido respeito, revela uma compreens\u00e3o estreita da Provid\u00eancia. A pergunta correta n\u00e3o \u00e9 <em>quem<\/em> acendeu a fogueira ou <em>quem<\/em> disparou o torpedo \u2014 mas <em>quem<\/em> fez os n\u00e1ufragos aportarem exatamente na ilha que abrigava o Capit\u00e3o Nemo com todos os recursos que eles precisariam para sobreviver?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os estudiosos da teologia reformada t\u00eam um nome para isso: gra\u00e7a comum. N\u00e3o \u00e9 a gra\u00e7a salv\u00edfica, reservada aos eleitos \u2014 \u00e9 a gra\u00e7a que sustenta a cria\u00e7\u00e3o, que distribui compet\u00eancia, conhecimento e generosidade entre crentes e n\u00e3o crentes, que age atrav\u00e9s de pessoas, de ci\u00eancia e de circunst\u00e2ncias aparentemente fortuitas. Nemo n\u00e3o era um santo \u2014 era um homem com uma hist\u00f3ria complexa de crimes e arrependimentos. Mas foi atrav\u00e9s dele, e da sua extraordin\u00e1ria compet\u00eancia t\u00e9cnica, que a Provid\u00eancia cuidou dos colonos de Lincoln. Deus n\u00e3o precisou suspender as leis da f\u00edsica para faz\u00ea-lo. Apenas posicionou as pe\u00e7as com a anteced\u00eancia necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pr\u00f3prio Nemo compreende algo disso ao final. Ele n\u00e3o apenas os ajudou enquanto vivia \u2014 de seu leito de morte, vendo que os colonos n\u00e3o terminariam o navio a tempo, foi com o Nautilus at\u00e9 a ilha Tabor e deixou uma mensagem para o <em>Duncan<\/em>, iate do lorde escoc\u00eas, garantindo o resgate que selaria a sobreviv\u00eancia do grupo. Foi seu \u00faltimo ato, e talvez o mais belo: uma gra\u00e7a que se estendeu al\u00e9m da morte.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um Verne Subestimado<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confesso que, ao iniciar esta leitura, n\u00e3o sabia quase nada sobre <em>A Ilha Misteriosa<\/em>. N\u00e3o \u00e9 o romance mais c\u00e9lebre de Verne \u2014 esse t\u00edtulo pertence, com justi\u00e7a, a <em>20.000 L\u00e9guas Submarinas<\/em> e \u00e0 <em>Volta ao Mundo em 80 Dias<\/em>. E essa obscuridade relativa revela-se, ao cabo da leitura, uma das maiores injusti\u00e7as da hist\u00f3ria liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque este \u00e9, argumentarei sem hesita\u00e7\u00e3o, o romance mais completo de Jules Verne. Tem a aventura dos melhores, a ci\u00eancia dos mais rigorosos, a humanidade dos mais generosos e a f\u00e9 dos mais honestos. Tem personagens que crescem, uma trama que surpreende, mist\u00e9rios que se resolvem com eleg\u00e2ncia e um final que honra tudo o que foi constru\u00eddo. Um Verne mediano \u2014 se tal coisa existe \u2014 ainda supera boa parte dos <em>best-sellers<\/em> contempor\u00e2neos. <em>A Ilha Misteriosa<\/em> n\u00e3o \u00e9 Verne mediano. \u00c9 Verne no seu melhor, escrevendo o livro que talvez ele mesmo n\u00e3o soubesse que era o seu maior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nota do Vini: 10\/10 \ud83e\udd29<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vin\u00edcius Arag\u00e3o Costa escreve sobre s\u00e9ries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea tamb\u00e9m passou anos sem saber que esta obra existia, n\u00e3o perca mais tempo \u2014 Jules Verne deixou um tesouro escondido no Pac\u00edfico Sul, e ele est\u00e1 esperando por voc\u00ea. Leu <em>A Ilha Misteriosa<\/em>? J\u00e1 conhecia o universo compartilhado verniano? Conta nos coment\u00e1rios \u2014 e se quiser mais resenhas de cl\u00e1ssicos da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que merecem mais aten\u00e7\u00e3o do que recebem, nos encontre no <a href=\"https:\/\/x.com\/salajusticablog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">X em @salajusticablog<\/a>, no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/saladejusticablog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Instagram<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/saladejusticablog\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Facebook em @saladejusticablog<\/a>. \ud83c\udfdd\ufe0f\ud83d\udcd6<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1874, Jules Verne publicou aquele que \u00e9, na opini\u00e3o deste resenhista, o seu romance mais completo \u2014 e um dos mais subestimados da literatura cient\u00edfica. A Ilha Misteriosa \u00e9 aventura, ci\u00eancia, f\u00e9 e mist\u00e9rio em doses generosas, narrados com a eleg\u00e2ncia de um mestre que sabia exatamente o que estava fazendo. Uma leitura que surpreende, instrui e edifica \u2014 e que prova que um Verne mediano, se tal coisa existe, ainda supera boa parte dos best-sellers contempor\u00e2neos.<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/resenhas\/a-ilha-misteriosa-jules-verne\/\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\">[Resenha] A Ilha Misteriosa \u2014 Jules Verne<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1016,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[121,141,131],"class_list":["post-1014","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-resenhas","tag-ficcao-cientifica","tag-jules-verne","tag-literatura","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1014","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1014"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1014\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1026,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1014\/revisions\/1026"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}