{"id":1053,"date":"2026-09-22T19:00:00","date_gmt":"2026-09-22T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/?p=1053"},"modified":"2026-09-22T18:39:04","modified_gmt":"2026-09-22T21:39:04","slug":"o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-e-um-cemiterio-silencioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/artigos\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-e-um-cemiterio-silencioso\/","title":{"rendered":"[Artigo] O Mundo Sem Guerra Fria N\u00e3o \u00e9 uma Utopia \u2014 \u00e9 um Cemit\u00e9rio Silencioso"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma cena, em um epis\u00f3dio da segunda temporada de Dark Matter (Apple TV+), que eu sei que foi escrita para ser sedutora. Jason Dessen e Daniela vivem, com o filho Charlie, num mundo alternativo que os dois descrevem como perfeito: n\u00e3o houve as duas Guerras Mundiais, n\u00e3o houve Guerra Fria, e o desenvolvimento tecnol\u00f3gico seguiu um ritmo t\u00e3o mais lento que em 2026 esse mundo mal est\u00e1 lan\u00e7ando seu primeiro computador pessoal, com uma base tecnol\u00f3gica equivalente \u00e0 dos anos 1970 do nosso mundo real. Sem internet, sem celular, as pessoas se olham nos olhos, conversam de verdade, vivem \u2014 segundo Jason e Daniela \u2014 melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma leitura comum, e eu entendo o apelo emocional dela. Mas \u00e9 tamb\u00e9m, na minha opini\u00e3o, uma leitura pregui\u00e7osa, porque trata a corrida tecnol\u00f3gica do s\u00e9culo XX como se ela tivesse produzido basicamente uma coisa \u2014 computadores \u2014 quando na verdade produziu uma reconfigura\u00e7\u00e3o completa da capacidade humana de manter gente viva. Tirar a Guerra Fria da equa\u00e7\u00e3o n\u00e3o tira um smartphone da m\u00e3o de um adolescente entediado. Tira, silenciosamente, uma fatia enorme da popula\u00e7\u00e3o mundial que hoje simplesmente existe porque sobreviveu \u00e0 inf\u00e2ncia, a uma cirurgia, a uma safra ruim ou a uma epidemia. Vamos fazer essa conta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Que a Corrida Armamentista Realmente Comprou<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando pensamos em &#8220;tecnologia da Guerra Fria&#8221;, o reflexo autom\u00e1tico \u00e9 o computador, o sat\u00e9lite, o m\u00edssil. Mas o efeito mais profundo da competi\u00e7\u00e3o entre blocos n\u00e3o foi armamentista \u2014 foi biol\u00f3gico e agr\u00edcola, e ele come\u00e7ou muito antes de qualquer microchip.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Revolu\u00e7\u00e3o Verde \u2014 o pacote de sementes de alto rendimento, fertilizantes sint\u00e9ticos em escala industrial e mecaniza\u00e7\u00e3o agr\u00edcola que multiplicou a produtividade de lavouras inteiras entre os anos 1950 e 1970 \u2014 n\u00e3o foi financiada por acaso. Foi financiada, em grande parte pela Funda\u00e7\u00e3o Rockefeller e depois por ag\u00eancias governamentais americanas, como resposta direta ao medo de que a fome no mundo em desenvolvimento empurrasse popula\u00e7\u00f5es inteiras para o comunismo. Sem essa press\u00e3o geopol\u00edtica espec\u00edfica, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o estrutural para que o mesmo investimento aconte\u00e7a no mesmo ritmo \u2014 e sem ele, a curva de produtividade agr\u00edcola que sustentou o crescimento populacional real do s\u00e9culo XX simplesmente n\u00e3o existe da mesma forma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale registrar, com o orgulho que a informa\u00e7\u00e3o merece, que boa parte desse cap\u00edtulo teve protagonismo brasileiro. A Embrapa, criada em 1973, desenvolveu justamente nesse per\u00edodo as t\u00e9cnicas de corre\u00e7\u00e3o de solo \u2014 calagem, aduba\u00e7\u00e3o fosfatada, cultivares tropicais adaptadas \u2014 que transformaram o Cerrado, at\u00e9 ent\u00e3o considerado impr\u00f3prio para agricultura por sua acidez e toxidez de alum\u00ednio, numa das fronteiras agr\u00edcolas mais produtivas do planeta. Sem o mesmo pacote de ci\u00eancia agron\u00f4mica global germinando naquele per\u00edodo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o mundo que perde a Revolu\u00e7\u00e3o Verde: o Brasil perde justamente a tecnologia que o transformaria, d\u00e9cadas depois, em pot\u00eancia agr\u00edcola mundial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mesmo vale para a medicina. A produ\u00e7\u00e3o industrial de penicilina em larga escala foi um subproduto direto do esfor\u00e7o de guerra \u2014 antes da Segunda Guerra, era um composto de laborat\u00f3rio interessante, mas invi\u00e1vel em quantidade; a guerra transformou sua fabrica\u00e7\u00e3o em prioridade nacional, e o que sobrou desse aparato industrial abasteceu hospitais civis pelas d\u00e9cadas seguintes. A erradica\u00e7\u00e3o global da var\u00edola, coordenada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade entre 1967 e 1980, foi um dos rar\u00edssimos projetos em que Estados Unidos e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica cooperaram ativamente \u2014 motivados, em boa parte, por prest\u00edgio geopol\u00edtico dentro da pr\u00f3pria Guerra Fria. E a meteorologia por sat\u00e9lite, que hoje permite prever uma seca ou um furac\u00e3o com semanas de anteced\u00eancia e mobilizar ajuda humanit\u00e1ria antes da cat\u00e1strofe, \u00e9 heran\u00e7a direta da corrida espacial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num mundo sem essas press\u00f5es, a matem\u00e1tica aplicada, a bioqu\u00edmica, a log\u00edstica e a agropecu\u00e1ria n\u00e3o desaparecem \u2014 mas avan\u00e7am num ritmo muito mais lento, org\u00e2nico, sem o acelerador artificial que duas superpot\u00eancias competindo por prest\u00edgio civilizat\u00f3rio proporcionaram. E \u00e9 exatamente esse acelerador, n\u00e3o o computador pessoal, que explica a maior parte da diferen\u00e7a entre o mundo de Jason e Daniela e o nosso.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"538\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-imagem-1-1024x538.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1057\" srcset=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-imagem-1-1024x538.png 1024w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-imagem-1-300x158.png 300w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-imagem-1-768x403.png 768w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-imagem-1.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Conta Demogr\u00e1fica Que Ningu\u00e9m no Epis\u00f3dio Faz<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui est\u00e1 o ponto que, na minha opini\u00e3o, o roteiro simplesmente n\u00e3o enfrenta: que tipo de popula\u00e7\u00e3o esse mundo realmente teria em 2026?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 supor que, sem os avan\u00e7os culturais que historicamente acompanharam a queda da taxa de natalidade \u2014 urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada, escolariza\u00e7\u00e3o feminina em massa, a p\u00edlula anticoncepcional (lan\u00e7ada em 1960 no mundo real, junto com d\u00e9cadas de mudan\u00e7a de costumes) \u2014, esse mundo teria uma natalidade um pouco mais alta que a nossa. Isso \u00e9 razo\u00e1vel: sem esses fatores espec\u00edficos, fam\u00edlias maiores continuam sendo a norma social por mais tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o outro lado da equa\u00e7\u00e3o pesa muito mais. Sem antibi\u00f3ticos de amplo espectro produzidos em escala industrial, sem campanhas de vacina\u00e7\u00e3o coordenadas internacionalmente, sem a Revolu\u00e7\u00e3o Verde sustentando a produtividade agr\u00edcola per capita, a mortalidade nesse mundo n\u00e3o seria menor que a nossa \u2014 seria muito maior. Estamos falando de mortalidade infantil em n\u00edveis que o mundo real j\u00e1 superou h\u00e1 d\u00e9cadas, de doen\u00e7as infecciosas voltando a ser a principal causa de morte, de fome localizada recorrente mesmo sem guerra alguma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado l\u00edquido dessas duas for\u00e7as n\u00e3o \u00e9 um mundo superpovoado, sufocado por gente demais e recursos de menos. \u00c9 o oposto: um mundo estruturalmente mais vazio e mais fr\u00e1gil que o nosso, porque a mortalidade elevada corr\u00f3i o excedente de nascimentos antes que ele se converta em crescimento populacional real. \u00c9, essencialmente, uma sociedade presa num regime demogr\u00e1fico pr\u00e9-transi\u00e7\u00e3o \u2014 o tipo de equil\u00edbrio populacional que o mundo real j\u00e1 havia superado por volta de 1950, s\u00f3 que esticado por mais 76 anos. Expectativa de vida na faixa dos 45 aos 55 anos, n\u00e3o dos 75 aos 85. Mortalidade infantil de um em cada cinco ou seis nascimentos, n\u00e3o de poucos em mil. Esse \u00e9 o pre\u00e7o real, silencioso, que nenhum personagem menciona quando elogia a paz desse mundo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dois Mundos Poss\u00edveis Para 2026<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale a pena imaginar como essa trajet\u00f3ria poderia se desdobrar de duas formas bem diferentes at\u00e9 chegar em 2026.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No cen\u00e1rio mais otimista<\/strong>, a aus\u00eancia das duas Guerras Mundiais preserva gera\u00e7\u00f5es inteiras de cientistas, engenheiros e recursos que, no mundo real, foram consumidos em destrui\u00e7\u00e3o. O avan\u00e7o \u00e9 mais lento \u2014 sem o acelerador da competi\u00e7\u00e3o entre blocos \u2014, mas tamb\u00e9m mais constante, sem os hiatos catastr\u00f3ficos que duas guerras mundiais impuseram \u00e0 pesquisa civil. Saneamento b\u00e1sico e a compreens\u00e3o da teoria dos germes, conhecimento que j\u00e1 existia desde o final do s\u00e9culo XIX, continuam se espalhando de forma org\u00e2nica pelas cidades em crescimento. Institui\u00e7\u00f5es internacionais de coopera\u00e7\u00e3o crescem aos poucos, sem precisar nascer das cinzas de um conflito global, talvez parecidas com uma Liga das Na\u00e7\u00f5es que nunca colapsou. Nesse cen\u00e1rio, a popula\u00e7\u00e3o mundial em 2026 provavelmente estaria entre 6 e 7 bilh\u00f5es de pessoas \u2014 menor que a nossa, mas crescendo de forma est\u00e1vel, com uma mortalidade alta em rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es atuais, por\u00e9m em queda lenta e constante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No cen\u00e1rio pessimista<\/strong>, a mesma aus\u00eancia de coordena\u00e7\u00e3o internacional em larga escala \u2014 a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade real nasceu, n\u00e3o por coincid\u00eancia, em 1948, do rescaldo institucional da Segunda Guerra \u2014 significa que epidemias n\u00e3o encontram resposta r\u00e1pida. Surtos em escala compar\u00e1vel \u00e0 gripe espanhola de 1918 se repetem periodicamente ao longo do s\u00e9culo, sem uma plataforma de vacina\u00e7\u00e3o capaz de conter a propaga\u00e7\u00e3o global. A fome permanece c\u00edclica e localizada, porque a produtividade agr\u00edcola por hectare nunca deu o salto que a Revolu\u00e7\u00e3o Verde real proporcionou. E os imp\u00e9rios coloniais europeus \u2014 cujo colapso hist\u00f3rico foi, em grande parte, consequ\u00eancia direta do esgotamento econ\u00f4mico e militar causado pela Segunda Guerra \u2014 permanecem intactos por muito mais tempo, continuando a extrair recursos e m\u00e3o de obra da \u00c1frica e da \u00c1sia sem o contrapeso da descoloniza\u00e7\u00e3o real. Nesse cen\u00e1rio, a popula\u00e7\u00e3o mundial oscila entre 4 e 5 bilh\u00f5es de pessoas, presa em ciclos quase malthusianos de crescimento e colapso, gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhum dos dois cen\u00e1rios \u00e9 a utopia pac\u00edfica que Jason e Daniela descrevem. Um \u00e9 mais est\u00e1vel e ainda assim mais pobre e mais mortal que o nosso mundo; o outro \u00e9 abertamente catastr\u00f3fico. Em nenhum dos dois a aus\u00eancia de smartphones \u00e9 o tra\u00e7o definidor da experi\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O Que Jason e Daniela N\u00e3o Est\u00e3o Vendo<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m uma cegueira mais sutil nessa fantasia, e ela tem a ver com quem, exatamente, est\u00e1 satisfeito com esse mundo &#8220;perfeito&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Boa parte do avan\u00e7o em direitos civis e direitos das mulheres no mundo real n\u00e3o aconteceu apesar das guerras \u2014 aconteceu, em parte, por causa delas. Foi a mobiliza\u00e7\u00e3o industrial da Segunda Guerra que levou milh\u00f5es de mulheres americanas e europeias para f\u00e1bricas e postos de trabalho antes reservados a homens, criando um precedente social que n\u00e3o voltou atr\u00e1s por completo depois. Foi a integra\u00e7\u00e3o racial nas for\u00e7as armadas dos Estados Unidos, d\u00e9cadas antes da integra\u00e7\u00e3o civil, que abriu uma das primeiras brechas vis\u00edveis contra a segrega\u00e7\u00e3o institucionalizada. Sem essas rupturas espec\u00edficas, \u00e9 bem mais prov\u00e1vel que as estruturas sociais de 2026 nesse mundo alternativo sejam mais r\u00edgidas, n\u00e3o mais humanas \u2014 que a s\u00e9rie, convenientemente, n\u00e3o mostrou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E h\u00e1 a quest\u00e3o colonial, que o epis\u00f3dio simplesmente n\u00e3o menciona. A descoloniza\u00e7\u00e3o real da \u00c1frica e de boa parte da \u00c1sia, ao longo das d\u00e9cadas de 1950 a 1970, foi impulsionada em grande medida pelo esgotamento das pot\u00eancias europeias no p\u00f3s-guerra \u2014 Gr\u00e3-Bretanha e Fran\u00e7a simplesmente n\u00e3o tinham mais recursos nem legitimidade para sustentar seus imp\u00e9rios. Sem esse esgotamento, \u00e9 razo\u00e1vel supor que dom\u00ednios coloniais inteiros permaneceriam sob controle europeu por muito mais tempo, com tudo que isso implica em termos de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, repress\u00e3o pol\u00edtica e mortalidade evit\u00e1vel em popula\u00e7\u00f5es que nunca aparecem na tela quando Jason fala sobre como o mundo dele \u00e9 mais pac\u00edfico. &#8220;Paz&#8221; para quem, exatamente?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"739\" height=\"415\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-imagem-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1058\" srcset=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-imagem-2.jpg 739w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-imagem-2-300x168.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 739px) 100vw, 739px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Hipocrisia Seletiva da Nostalgia<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o argumento que mais me incomoda nessa fantasia \u00e9 o mais pessoal, e \u00e9 tamb\u00e9m o mais f\u00e1cil de verificar sem precisar de nenhuma estat\u00edstica de demografia hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha filha est\u00e1 morando na B\u00e9lgica. Todos os dias \u2014 todos, sem exagero \u2014 eu e minha esposa conversamos com ela por videochamada. Vemos o rosto dela, ouvimos a voz dela em tempo real, atravessando um oceano inteiro, por um custo que \u00e9, na pr\u00e1tica, quase zero: dilu\u00eddo dentro da mesma conta de internet que j\u00e1 pagar\u00edamos de qualquer forma. Nos anos 1970 reais, uma liga\u00e7\u00e3o internacional daquela dist\u00e2ncia era um evento. Precisava ser agendada, era cronometrada no rel\u00f3gio pelo custo por minuto, reservada para emerg\u00eancias, anivers\u00e1rios, poucas datas especiais no ano. No mundo &#8220;perfeito&#8221; de Jason e Daniela, com sua tecnologia equivalente aos anos 1970, essa seria exatamente a realidade de qualquer fam\u00edlia separada por um oceano: sil\u00eancio na maior parte do tempo, interrompido por poucas liga\u00e7\u00f5es car\u00edssimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pessoas que romantizam &#8220;conversar olho no olho, sem tela&#8221; quase sempre esquecem convenientemente que a tela, nesse caso espec\u00edfico, n\u00e3o substitui o contato humano \u2014 ela \u00e9 o que sobra quando o abra\u00e7o f\u00edsico n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Um mundo sem internet n\u00e3o devolve \u00e0s fam\u00edlias separadas por dist\u00e2ncia mais intera\u00e7\u00e3o pessoal. Devolve menos. A nostalgia tecnof\u00f3bica costuma ser seletiva assim: f\u00e1cil de defender em abstrato, bem mais dif\u00edcil de defender quando colocada ao lado de uma videochamada real com algu\u00e9m que voc\u00ea ama e n\u00e3o pode abra\u00e7ar hoje.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tecnologia n\u00e3o criou o imediatismo humano \u2014 ela s\u00f3 deu a ele fibra \u00f3ptica e alto-falante. Um coment\u00e1rio na escola dominical, dias atr\u00e1s, resumiu esse ponto melhor do que qualquer estat\u00edstica deste texto: J\u00f3 esperou dez anos para recuperar tudo o que havia perdido. Dez anos. Quantos de n\u00f3s, hoje, teriam paci\u00eancia para esperar tanto? A resposta honesta \u00e9: praticamente ningu\u00e9m. Mas essa impaci\u00eancia n\u00e3o nasceu com o smartphone \u2014 ela \u00e9 parte da nossa natureza ca\u00edda, a mesma que J\u00f3 enfrentou mil\u00eanios antes de qualquer cabo atravessar o oceano. O que mudou n\u00e3o foi o car\u00e1ter humano; foi a escala. A internet, como qualquer tecnologia, n\u00e3o inventa v\u00edcios nem virtudes \u2014 apenas acelera e amplia o que j\u00e1 estava l\u00e1. Fomos n\u00f3s que criamos essa velocidade toda, de prop\u00f3sito, porque quer\u00edamos viver mais r\u00e1pido; n\u00e3o foi ela que nos imp\u00f4s isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jason e Daniela erram n\u00e3o apenas por subestimarem o custo hist\u00f3rico de abrir m\u00e3o dessa tecnologia \u2014 os n\u00fameros acima j\u00e1 mostram isso. Erram por um motivo mais b\u00e1sico: acreditam que trocar o smartphone por sil\u00eancio devolveria \u00e0 humanidade uma inoc\u00eancia que ela nunca teve. Podemos, e devemos, usar essa velocidade e esse alcance para o bem em vez do mal \u2014 \u00e9 um chamado real, n\u00e3o um detalhe piedoso ao final de um texto. Mas a culpa pelos males do mundo moderno n\u00e3o est\u00e1 no cabo de fibra \u00f3ptica. Est\u00e1 em n\u00f3s, como sempre esteve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vin\u00edcius Arag\u00e3o Costa escreve sobre fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e hist\u00f3ria alternativa em saladejustica.com.br<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200bE voc\u00ea, ficaria satisfeito vivendo no mundo &#8220;perfeito&#8221; do Jason e da Daniela \u2014 sem internet, mas tamb\u00e9m sem metade das pessoas que voc\u00ea ama vivas hoje? Deixa sua opini\u00e3o nos coment\u00e1rios, especialmente se discordar de mim (prometo n\u00e3o ficar ofendido&#8230; muito). Nos encontre no\u00a0<a href=\"https:\/\/x.com\/salajusticablog\">X<\/a>\u00a0em @salajusticablog, no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/saladejusticablog\">Instagram<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/saladejusticablog\">Facebook<\/a>\u00a0em @saladejusticablog.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u200b<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O casal de Dark Matter acha que vive no mundo perfeito: sem guerras mundiais, sem Guerra Fria, sem internet. Mas antes de aplaudir essa &#8220;utopia&#8221;, eu fiz as contas \u2014 e o resultado \u00e9 bem mais sombrio do que parece. Um mergulho especulativo em demografia, hist\u00f3ria alternativa e no que a gente realmente compra com a tecnologia que tanto critica.<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/artigos\/o-mundo-sem-guerra-fria-nao-e-uma-utopia-e-um-cemiterio-silencioso\/\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\">[Artigo] O Mundo Sem Guerra Fria N\u00e3o \u00e9 uma Utopia \u2014 \u00e9 um Cemit\u00e9rio Silencioso<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1056,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[119],"tags":[121,127,144],"class_list":["post-1053","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","tag-ficcao-cientifica","tag-series","tag-utopia","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1053"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1059,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1053\/revisions\/1059"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1056"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1053"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1053"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1053"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}