{"id":862,"date":"2026-06-30T19:00:00","date_gmt":"2026-06-30T22:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/?p=862"},"modified":"2026-06-26T18:49:27","modified_gmt":"2026-06-26T21:49:27","slug":"hereges-de-duna-frank-herbert","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/resenhas\/hereges-de-duna-frank-herbert\/","title":{"rendered":"[Resenha] Hereges de Duna \u2014 Frank Herbert"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-medium\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"209\" height=\"300\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-capa-209x300.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-864\" srcset=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-capa-209x300.jpeg 209w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-capa.jpeg 695w\" sizes=\"auto, (max-width: 209px) 100vw, 209px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Autor:<\/strong> Frank Herbert<br><strong>Editora:<\/strong> Aleph<br><strong>Ano de publica\u00e7\u00e3o:<\/strong> 1984<br><strong>Categoria:<\/strong> Fic\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica \u2014 Romance<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um tijolo para rumina\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem duas categorias de leitura na fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A primeira \u00e9 a leitura de digest\u00e3o: o livro flui, os personagens s\u00e3o imediatos, o universo se revela junto com o leitor de forma org\u00e2nica. <em>Leviat\u00e3 Desperta<\/em>, de James S. A. Corey, \u00e9 um exemplo perfeito \u2014 voc\u00ea l\u00ea satisfeito p\u00e1gina a p\u00e1gina, como quem come um prato bem temperado. A segunda categoria \u00e9 a leitura de rumina\u00e7\u00e3o: o livro te lan\u00e7a num universo que j\u00e1 existe e espera que voc\u00ea se localize. Voc\u00ea l\u00ea, processa, dorme, e na manh\u00e3 seguinte alguma coisa clicou. <em>Hereges de Duna<\/em> pertence com toda a convic\u00e7\u00e3o \u00e0 segunda categoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O quinto volume da saga criada por Frank Herbert avan\u00e7a mais mil anos ap\u00f3s os eventos de <em>O Imperador Deus de Duna<\/em>. Arrakis agora se chama Rakis, e o para\u00edso id\u00edlico constru\u00eddo por Leto II est\u00e1 sendo lentamente retomado pelo deserto. Uma menina chamada Sheeana surge com o poder inexplic\u00e1vel de controlar os vermes da areia. Enquanto isso, uma guerra fria entre as Bene Gesserit e os Bene Tleilax ferve em c\u00e2mera lenta, enquanto uma amea\u00e7a muito maior \u2014 as Matres Honradas \u2014 se aproxima pelas bordas da hist\u00f3ria quase sem ser vista. \u00c9 muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, em muitos mundos, com muitos agentes. Tenha paci\u00eancia. Vale a pena.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"366\" height=\"210\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/BgAj.gif\" alt=\"Cuidado: alerta de spoiler!\" class=\"wp-image-34\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cuidado: alerta de spoiler!<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O universo mais rico da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma das grandes alegrias de <em>Hereges<\/em> \u00e9 perceber, mais uma vez, o quanto Herbert construiu. Cada grupo, cada cultura, cada organiza\u00e7\u00e3o tem sua hist\u00f3ria pr\u00f3pria, seus rituais, sua l\u00f3gica interna. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a grandiosidade do cen\u00e1rio \u2014 \u00e9 a consist\u00eancia dos detalhes. Um simples ch\u00e1 da tarde entre Bene Gesserit carrega s\u00e9culos de condicionamento e significado. Os Bene Tleilax t\u00eam sua religi\u00e3o oculta, seus segredos milenares, sua est\u00e9tica perturbadora que vai de m\u00f3veis org\u00e2nicos vivos \u2014 as <em>c\u00e3odeiras<\/em>, cadeiras literalmente feitas de animais \u2014 at\u00e9 revela\u00e7\u00f5es muito mais sombrias sobre a origem de suas tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse volume, a saga se expande geograficamente de forma in\u00e9dita. Gammu, que resulta ser a antiga Caladan dos Atreides. Rakis, o deserto que volta. V\u00e1rios mundos interligados por intrigas, espionagem e negocia\u00e7\u00f5es que lembram, mais do que qualquer outro volume da s\u00e9rie, a <em>Funda\u00e7\u00e3o<\/em> de Isaac Asimov. H\u00e1 a mesma sensa\u00e7\u00e3o de for\u00e7as invis\u00edveis movendo a hist\u00f3ria em escala de s\u00e9culos, a mesma estrutura de elites que acreditam controlar o futuro \u2014 e que o futuro sempre surpreende. A diferen\u00e7a \u00e9 que Asimov confia na racionalidade humana; Herbert desconfia profundamente dela.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"474\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-imagem-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-866\" srcset=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-imagem-2.png 1024w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-imagem-2-300x139.png 300w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-imagem-2-768x356.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Humanos como computadores \u2014 e a pris\u00e3o disso<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Jihad Butleriana, que proibiu as m\u00e1quinas pensantes mil\u00eanios antes dos eventos da s\u00e9rie, foi motivada pelo medo de que computadores escravizassem a humanidade. <em>Hereges de Duna<\/em> revela, nas entrelinhas, o resultado dessa escolha: a humanidade escravizou a si mesma com muito mais efici\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os Mentats <em>s\u00e3o<\/em> computadores \u2014 processadores humanos de informa\u00e7\u00e3o treinados desde a inf\u00e2ncia para uma fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. As Bene Gesserit <em>s\u00e3o<\/em> processadoras de dados gen\u00e9ticos e sociais, condicionadas para servir a um Programa que transcende qualquer indiv\u00edduo. Os Navegadores da Guilda do Espa\u00e7o <em>s\u00e3o<\/em> calculadoras de rotas, fisicamente irreconhec\u00edveis como humanos ap\u00f3s d\u00e9cadas de imers\u00e3o na especiaria. O Comandante Teg, quando submetido ao interrogat\u00f3rio com drogas que deveria destru\u00ed-lo, n\u00e3o \u00e9 anulado \u2014 \u00e9 transformado, desbloqueando capacidades latentes de velocidade e percep\u00e7\u00e3o sobre-humanas que o tornam uma arma sem paralelo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada especializa\u00e7\u00e3o resolve um problema e cria uma pris\u00e3o. E o mais perturbador: nenhum deles reconhece a pris\u00e3o como tal. O Mentat acha que sua racionalidade \u00e9 liberdade. A Bene Gesserit acha que sua disciplina \u00e9 poder. Herbert est\u00e1 dizendo que qualquer sociedade que reduz pessoas a fun\u00e7\u00f5es \u2014 com sil\u00edcio ou com condicionamento humano \u2014 chega ao mesmo lugar. A ferramenta muda; a desumaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 id\u00eantica.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O corpo como instrumento \u2014 e o que isso revela<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Hereges de Duna<\/em> cont\u00e9m uma das revela\u00e7\u00f5es mais perturbadoras de toda a saga: os tanques axlotl, que pareciam tecnologia avan\u00e7ada de clonagem Tleilaxu, s\u00e3o na verdade mulheres Bene Tleilax em estado de hiberna\u00e7\u00e3o profunda, reduzidas a \u00fateros biol\u00f3gicos. O que parecia avan\u00e7o cient\u00edfico \u00e9 instrumentaliza\u00e7\u00e3o do corpo feminino levada ao extremo absoluto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O paralelo com as Bene Gesserit \u00e9 imediato. Ambas as organiza\u00e7\u00f5es tratam o corpo humano como ve\u00edculo gen\u00e9tico a ser manipulado para fins que consideram superiores ao indiv\u00edduo. As Bene Gesserit fazem sele\u00e7\u00e3o artificial de caracter\u00edsticas humanas com a frieza de criadores de cavalos de ra\u00e7a \u2014 e planejam cruzamentos envolvendo suas pr\u00f3prias membros sem qualquer hesita\u00e7\u00e3o. Para elas, o objetivo \u00e9 maior do que qualquer pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem l\u00ea essa dimens\u00e3o do livro com Paulo em mente \u2014 especialmente 1 Cor\u00edntios 6 \u2014 vai encontrar um contraste filos\u00f3fico poderoso. O ap\u00f3stolo defende que Cristo veio salvar n\u00e3o s\u00f3 nossas almas, mas tamb\u00e9m nossos corpos, que s\u00e3o propriedade de Deus cedida para nosso uso. A esperan\u00e7a crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 a fuga do corpo, mas a ressurrei\u00e7\u00e3o corporal \u2014 corpos glorificados, permanentes, eternamente relevantes. Para as Bene Gesserit e os Bene Tleilax, o pensamento \u00e9 o inverso: o que importa \u00e9 o material dispon\u00edvel agora, manipul\u00e1vel agora, descart\u00e1vel quando necess\u00e1rio. A quest\u00e3o da vida ap\u00f3s a morte simplesmente n\u00e3o entra nos c\u00e1lculos de nenhuma das duas organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesma premissa superficial \u2014 o corpo importa \u2014 antropologias completamente invertidas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Religi\u00e3o sincera, institui\u00e7\u00e3o corrupta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Hereges<\/em> intensifica algo que percorre toda a saga desde o in\u00edcio: a religi\u00e3o como ferramenta de manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O v\u00e1cuo deixado pela morte do Imperador Deus criou uma disputa ativa pela narrativa religiosa \u2014 quem controla o que as pessoas acreditam controla popula\u00e7\u00f5es inteiras. Os sacerdotes de Rakis preservam uma f\u00e9. As Bene Gesserit cultivam mitos deliberadamente. Os Bene Tleilax t\u00eam sua pr\u00f3pria religi\u00e3o secreta que ningu\u00e9m fora do grupo conhece completamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas h\u00e1 uma distin\u00e7\u00e3o importante que Herbert mant\u00e9m com precis\u00e3o cir\u00fargica: as institui\u00e7\u00f5es religiosas s\u00e3o corruptas e manipuladoras, mas o sobrenatural em si \u00e9 real. A preconi\u00e7\u00e3o existe. A mem\u00f3ria ancestral das Bene Gesserit existe. Os poderes de Sheeana sobre os vermes existem. Teg se transforma em algo que nenhuma biologia explica satisfatoriamente. E a quest\u00e3o dos ghola \u2014 clones com mem\u00f3rias do original \u2014 levanta uma pergunta que o materialismo n\u00e3o consegue responder: se o material gen\u00e9tico \u00e9 id\u00eantico, o que carrega as mem\u00f3rias? Herbert n\u00e3o responde diretamente, mas a resposta impl\u00edcita \u00e9 clara: h\u00e1 uma continuidade que transcende o f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pov\u00e3o que segue os l\u00edderes religiosos de Rakis n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanuo \u2014 \u00e9 sincero. A f\u00e9 deles \u00e9 genu\u00edna, mesmo que a institui\u00e7\u00e3o que a abriga seja corrupta. As grandes manipula\u00e7\u00f5es religiosas da hist\u00f3ria humana funcionaram exatamente por isso: a sinceridade do crente \u00e9 real, e portanto explor\u00e1vel. Herbert entendeu isso com a lucidez de quem estudou hist\u00f3ria das religi\u00f5es a s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"392\" src=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-imagem-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-867\" srcset=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-imagem-1.png 1024w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-imagem-1-300x115.png 300w, https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Hereges-de-Duna-Frank-Herbert-imagem-1-768x294.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O verme finalmente assusta<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma cena em <em>Hereges de Duna<\/em> que faz o leitor perceber que, at\u00e9 aqui, nunca levou o Shai-Hulud completamente a s\u00e9rio. Sheeana convoca um verme diante das Bene Gesserit, e Herbert descreve a criatura se aproximando \u2014 a bocarra imensa, a fornalha no ventre, o peso geol\u00f3gico do monstro que poderia engolir o grupo inteiro sem sequer desacelerar. \u00c9 aterrorizante de um jeito que nenhum filme conseguiu reproduzir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os filmes \u2014 inclusive a adapta\u00e7\u00e3o magistral de Denis Villeneuve \u2014 mostram o verme como algo que pode ser cavalgado, controlado, usado. Grandioso, sim, mas gerenci\u00e1vel. Herbert aqui lembra que a criatura \u00e9 uma for\u00e7a da natureza que <em>tolera<\/em> a presen\u00e7a humana por raz\u00f5es que ela mesma n\u00e3o comunica. Isso \u00e9 diferente. E \u00e9 por isso que uma das Bene Gesserit hesita diante de Sheeana \u2014 a menina que controla o incontrol\u00e1vel pode ser Shai-Hulud, o sagrado eterno, ou Shaitan, o advers\u00e1rio. Poder suficiente transcende as categorias morais humanas. \u00c9 uma ideia inquietante, e Herbert a entrega com toda a for\u00e7a que merece.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um final que \u00e9 um come\u00e7o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Hereges de Duna<\/em> termina de forma deliberadamente incompleta. As hist\u00f3rias convergem em Rakis \u2014 Teg comandando a defesa do templo, Sheeana pilotando um verme (Herbert usa exatamente essa palavra), as Reverendas Madres escapando em uma n\u00e3o-nave com o ghola e a menina. As Matres Honradas, a amea\u00e7a real que pairou sobre o livro inteiro quase fora de cena, finalmente se revelam como as verdadeiras vil\u00e3s \u2014 e o desfecho fica para <em>Herdeiras de Duna<\/em>, o volume seguinte e \u00faltimo escrito por Herbert antes de sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O final parece corrido porque \u00e9 corrido: h\u00e1 mais hist\u00f3ria do que p\u00e1ginas restantes. \u00c9 uma escolha narrativa que pode frustrar quem esperava resolu\u00e7\u00e3o. Mas <em>Hereges<\/em> nunca prometeu resolu\u00e7\u00e3o \u2014 prometeu o tabuleiro mais complexo da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica em movimento, e entregou exatamente isso.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Conclus\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Hereges de Duna<\/em> \u00e9 o volume mais pol\u00edtico e o mais amadurecido da saga. \u00c9 tamb\u00e9m o mais dif\u00edcil \u2014 n\u00e3o por falha do autor, mas por exig\u00eancia deliberada do leitor. Herbert construiu um universo que n\u00e3o para para te explicar nada, e o quinto livro assume que voc\u00ea acompanhou os quatro anteriores com aten\u00e7\u00e3o. Quem entra nesse ritmo de rumina\u00e7\u00e3o vai encontrar reflex\u00f5es sobre poder, religi\u00e3o, corpo, alma, livre-arb\u00edtrio e a natureza humana que pouqu\u00edssimas obras de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ousam fazer. Quem espera a fluidez de uma <em>space opera<\/em> convencional vai se perder nas primeiras cem p\u00e1ginas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um livro que exige muito e devolve mais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nota do Vini: 9\/10 \ud83d\ude04<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vin\u00edcius Arag\u00e3o Costa escreve sobre fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ei, voc\u00ea chegou at\u00e9 aqui \u2014 isso j\u00e1 te qualifica como leitor de rumina\u00e7\u00e3o! Se curtiu a resenha, compartilha com aquele amigo que ainda acha que Duna \u00e9 s\u00f3 areia e vermes. E se discorda da nota, os coment\u00e1rios est\u00e3o abertos \u2014 pode vir, mas vem fundamentado!<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Hereges de Duna, mil anos ap\u00f3s a queda de Leto II, Arrakis se chama Rakis e o deserto retoma o que foi para\u00edso. Sheeana surge controlando vermes da areia, Bene Gesserit e Bene Tleilax travam uma guerra fria de s\u00e9culos, e Herbert entrega o volume mais &#8220;Funda\u00e7\u00e3o&#8221; de toda a saga \u2014 denso, exigente, e absolutamente recompensador.<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/resenhas\/hereges-de-duna-frank-herbert\/\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\">[Resenha] Hereges de Duna \u2014 Frank Herbert<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":869,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[124,121,125,131],"class_list":["post-862","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-resenhas","tag-duna","tag-ficcao-cientifica","tag-frank-herbert","tag-literatura","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/862","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=862"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/862\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":872,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/862\/revisions\/872"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/869"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=862"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=862"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=862"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}