{"id":911,"date":"2026-07-25T09:00:00","date_gmt":"2026-07-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/?p=911"},"modified":"2026-07-25T16:52:52","modified_gmt":"2026-07-25T19:52:52","slug":"redencao-ato-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/contos\/redencao-ato-1\/","title":{"rendered":"[Conto] Reden\u00e7\u00e3o \u2013 Ato 1"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\ud83c\udfb6 Para ler ouvindo: Batman: The Dark Knight Returns (Original Motion Picture Soundtrack)<\/em><br><em>Recomenda\u00e7\u00e3o et\u00e1ria: 16 anos<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ato 1 \u2014 O Andarilho<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A chuva ca\u00eda sobre Novarca h\u00e1 tr\u00eas dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o era a chuva limpa de antes da Guerra dos C\u00e9us \u2014 essa tinha um cheiro met\u00e1lico, quase mineral, como se a atmosfera ainda n\u00e3o tivesse esquecido o que atravessara. As cal\u00e7adas rachadas da Rua do Mercado acumulavam po\u00e7as cor de ferrugem, e os moradores que ainda insistiam em viver no centro da cidade aprenderam a n\u00e3o olhar para o c\u00e9u quando chovia. Era mais f\u00e1cil assim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren Sol\u00eds estava varrendo a entrada da sua loja quando o viu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela tinha sessenta e tr\u00eas anos, havia perdido o marido na queda da Muralha Norte, e mantinha entre as prateleiras empoeiradas do seu estabelecimento a maior cole\u00e7\u00e3o de livros proibidos de todo o distrito. N\u00e3o era uma rebelde por voca\u00e7\u00e3o \u2014 era uma guardi\u00e3 por teimosia. Havia uma diferen\u00e7a, ela costumava dizer, embora n\u00e3o fosse capaz de explic\u00e1-la direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O andarilho vinha pela rua como se a chuva n\u00e3o existisse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o era que ele estivesse seco \u2014 estava encharcado como qualquer outro. Era a postura. A maioria das pessoas caminhava curvada sob o temporal, encolhida, como se pudesse se tornar menor do que a tempestade. Ele caminhava ereto, sem pressa, os olhos fixos na dire\u00e7\u00e3o em que seguia. Era alto, mais alto do que parecia \u00e0 dist\u00e2ncia, com uma mochila desgastada nas costas e roupas que j\u00e1 tinham sido de outras cores antes de se tornarem aquele cinza indefinido de quem viaja h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren n\u00e3o saberia dizer o que a fez parar de varrer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez fosse a postura. Talvez fosse o jeito como ele olhava para os pr\u00e9dios em ru\u00ednas com uma express\u00e3o que n\u00e3o era de curiosidade nem de indiferen\u00e7a \u2014 era de algo que ela demoraria dias para nomear. Reconhecimento. Como algu\u00e9m que volta a um lugar que destruiu e n\u00e3o sabe se tem direito de lament\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele parou em frente \u00e0 loja.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Voc\u00ea vende livros \u2014 disse. N\u00e3o era uma pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Vendo rem\u00e9dios \u2014 respondeu Maren, sem largar a vassoura. \u2014 Os livros s\u00e3o para leitura pessoal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era a resposta padr\u00e3o. Qualquer fiscal do Conselho de Reconstru\u00e7\u00e3o saberia que era mentira, mas os fiscais tinham aprendido a n\u00e3o visitar o bloco dela desde que a velha Joana Ferreira, tr\u00eas lojas adiante, come\u00e7ara a manter um c\u00e3o de guarda com um temperamento notavelmente seletivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O andarilho olhou para ela por um momento. Depois, quase imperceptivelmente, o canto da boca se moveu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Posso entrar?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro da loja, cheirava a papel velho e a algo que Maren identificava como o perfume espec\u00edfico de hist\u00f3rias guardadas por tempo demais. As prateleiras iam at\u00e9 o teto, tortas e improvisadas, cada cent\u00edmetro ocupado. Na vitrine, exposta com a discri\u00e7\u00e3o calculada de quem sabe o que pode e o que n\u00e3o pode mostrar, havia apenas uma fileira de manuais t\u00e9cnicos e um dicion\u00e1rio encadernado em couro sint\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os livros de verdade ficavam nos fundos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O andarilho seguiu Maren em sil\u00eancio pelo corredor estreito. Ela observava o reflexo dele nas janelas laterais \u2014 um h\u00e1bito antigo, de quando ainda havia raz\u00f5es mais imediatas para desconfiar de estranhos. Ele n\u00e3o tocava em nada. Apenas olhava, com aquela express\u00e3o que ela ainda n\u00e3o conseguia nomear direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos fundos, as prateleiras mudavam de car\u00e1ter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui estavam os volumes que o Conselho de Reconstru\u00e7\u00e3o classificava como <em>material de evas\u00e3o hist\u00f3rica<\/em> \u2014 a linguagem burocr\u00e1tica para qualquer coisa que lembrasse \u00e0s pessoas que o mundo j\u00e1 havia sido diferente. Graphic novels encapadas em pl\u00e1stico transparente, com lombadas desbotadas e cantos amassados. Cole\u00e7\u00f5es encadernadas com capas ilustradas. Edi\u00e7\u00f5es de luxo que sobreviveram \u00e0 queima de bibliotecas de doze anos atr\u00e1s porque algu\u00e9m, em algum momento, havia achado que valiam o risco.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O andarilho parou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estava diante de uma prateleira espec\u00edfica. Maren n\u00e3o precisou ver o t\u00edtulo para saber qual era \u2014 ela sabia cada livro daquela se\u00e7\u00e3o de cor, sabia qual deles fazia as pessoas pararem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Solum: A Saga Completa.<\/em> Volume \u00fanico, edi\u00e7\u00e3o do trig\u00e9simo anivers\u00e1rio, capa dura com acabamento em relevo dourado. A figura na capa se erguia contra um c\u00e9u azul que j\u00e1 n\u00e3o existia mais, os bra\u00e7os abertos, o rosto voltado para a luz com uma express\u00e3o que os artistas de antes da guerra sabiam capturar e os de depois haviam esquecido como se fazia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esperan\u00e7a sem ingenuidade. For\u00e7a sem arrog\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O andarilho ficou parado por um tempo longo demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Voc\u00ea o conheceu? \u2014 perguntou Maren, sem saber bem por que perguntava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Sim \u2014 respondeu o andarilho, a voz baixa. \u2014 N\u00f3s nos encontramos uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele estendeu a m\u00e3o e tocou a lombada do livro com a ponta dos dedos \u2014 n\u00e3o para pegar, apenas para tocar \u2014 com um cuidado que parecia excessivo para um estranho diante de uma rel\u00edquia qualquer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren observou a m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o havia cicatrizes, o que era incomum para algu\u00e9m que claramente havia sobrevivido a coisas. As m\u00e3os de quem viveu a reconstru\u00e7\u00e3o carregavam marcas \u2014 de trabalho, de escassez, de viol\u00eancia ocasional. As dele eram lisas. Quase perfeitas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela engoliu o pensamento antes que ele se formasse completamente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Fragmentos<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Come\u00e7o pelo come\u00e7o, porque \u00e9 a \u00fanica forma honesta de fazer isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o vim para este universo por vontade pr\u00f3pria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O Asas de Couro do meu mundo \u2014 o homem sem poderes que se recusava a aceitar que havia coisas al\u00e9m da sua capacidade de controlar \u2014 descobriu o que eu era antes que eu percebesse que ele sabia. N\u00e3o sei at\u00e9 hoje como. Ele era assim: paciente como uma armadilha, silencioso como uma conclus\u00e3o. Quando agiu, foi r\u00e1pido demais para que eu reagisse. Usou algo que havia constru\u00eddo especificamente para mim \u2014 uma arma que eu n\u00e3o sabia que existia, que fez de mim, por alguns instantes, uma coisa muito pr\u00f3xima de um homem comum.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Esses instantes foram suficientes.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A passagem que ele abriu n\u00e3o era para me matar. Era pior. Era para me colocar num lugar onde eu n\u00e3o pudesse fazer mal ao mundo que ele protegia \u2014 e a mais ningu\u00e9m.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ca\u00ed neste universo sem refer\u00eancias, sem aliados, sem nada al\u00e9m do que sempre tive \u2014 o poder, e a certeza de que o poder me dava raz\u00e3o. Encontrei um mundo cheio de seres como eu haveria podido ser. Her\u00f3is. E onde deveria ter encontrado cautela, encontrei fome. Uma raiva que n\u00e3o era bem raiva, mas que eu n\u00e3o sabia chamar de outra coisa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Acredito que ele pretendia me enviar para um universo desabitado. Ele tinha em m\u00e3os o poder para acabar com tudo, fraco como eu estava, mas escolheu apenas me condenar a uma solit\u00e1ria perp\u00e9tua. Mal sabia ele que estaria, em vez disso, condenando um mundo muito semelhante ao dele \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Me preparei por meses.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o fui um destruidor ca\u00f3tico \u2014 fui met\u00f3dico. Recrutei cada vil\u00e3o que este mundo havia produzido e descartado, cada ser que carregava poder e ressentimento em medidas iguais. Organizei. Dividi o mundo em setores e designei oficiais para cada um \u2014 seres que representariam minha vontade onde houvesse grupos de her\u00f3is resistindo. Em cada continente, em cada cidade que tivesse algu\u00e9m capaz de opor resist\u00eancia, havia algu\u00e9m meu chegando primeiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Para mim reservei apenas tr\u00eas confrontos. As contrapartes dos her\u00f3is que me derrotaram no meu universo \u2014 uma conta a ser ajustada, acreditei na \u00e9poca, com a vers\u00e3o do mundo que me havia expulsado.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E reservei o Solum para o fim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Porque o Solum era o que tudo aquilo havia sido constru\u00eddo para enfrentar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele voltou no dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E no outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren aprendeu que ele se chamava Cal \u2014 apenas Cal, sem sobrenome, o que n\u00e3o era incomum numa \u00e9poca em que muita gente havia descartado a segunda metade do nome junto com tudo o mais que n\u00e3o servia para o novo mundo. Aprendeu que ele n\u00e3o ficava num lugar fixo, que dormia onde havia espa\u00e7o, que n\u00e3o parecia precisar de muito. Aprendeu que ele escutava mais do que falava, mas que quando falava, valia a pena ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aprendeu, tamb\u00e9m, que algo nele atra\u00eda as pessoas como um campo gravitacional silencioso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou pequeno. Uma briga no mercado, dois homens do Conselho pressionando uma fam\u00edlia por impostos atrasados. Cal apareceu entre eles sem pressa, disse algumas palavras em voz baixa, e os homens do Conselho foram embora. Ningu\u00e9m entendeu exatamente o que havia sido dito. Mas foram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois, o desabamento no Setor Leste. Um bloco residencial que o Conselho havia declarado est\u00e1vel apesar das fissuras vis\u00edveis na estrutura \u2014 porque est\u00e1vel, no vocabul\u00e1rio do Conselho, significava <em>est\u00e1vel o suficiente para n\u00e3o ser responsabilidade nossa<\/em>. Quando o teto do segundo andar cedeu sobre tr\u00eas fam\u00edlias, Cal estava a dois quarteir\u00f5es de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o que as pessoas disseram depois. <em>Estava a dois quarteir\u00f5es.<\/em> <em>Chegou r\u00e1pido demais.<\/em> <em>Levantou a viga sozinho, voc\u00ea viu? Uma viga daquelas, sozinho.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren ouviu os relatos com o cuidado de quem sabe o peso que as palavras carregam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7aram a aparecer na sua loja \u2014 pessoas que queriam saber. Pessoas que haviam guardado os livros em lugares secretos e agora os traziam \u00e0 tona com m\u00e3os que tremiam levemente, como se o ato de segurar aquelas capas coloridas fosse ao mesmo tempo sagrado e assustador. Queriam comparar. Queriam encontrar nos tra\u00e7os impressos em papel a confirma\u00e7\u00e3o do que queriam acreditar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 \u00c9 ele \u2014 disse uma mulher de meia-idade, segurando um exemplar avulso com capa plastificada, o dedo pousado sobre o rosto na ilustra\u00e7\u00e3o. \u2014 Olha o queixo. \u00c9 igualzinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Todos os queixos s\u00e3o parecidos \u2014 disse Maren.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o acredita?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren acreditava em coisas verific\u00e1veis. Acreditava que os livros preservavam mem\u00f3ria e que mem\u00f3ria era poder. Acreditava que o Conselho de Reconstru\u00e7\u00e3o havia constru\u00eddo sua autoridade sobre o vazio deixado pelos her\u00f3is, e que qualquer coisa que perturbasse esse vazio seria respondida com viol\u00eancia proporcional ao tamanho da perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acreditava, tamb\u00e9m, que havia algo errado com Cal que ela ainda n\u00e3o conseguia articular.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Fragmentos<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O Solum foi o \u00faltimo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o por estrat\u00e9gia \u2014 por inevitabilidade. Tudo o mais havia sido prepara\u00e7\u00e3o. Os meses de planejamento, os oficiais espalhados pelos continentes, os tr\u00eas confrontos que reservei para mim \u2014 tudo convergia para aquele momento. Para aquele homem. Para o que quer que ele fosse, porque homem n\u00e3o era exatamente, assim como eu n\u00e3o era.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Lutamos por um tempo que n\u00e3o sei medir. N\u00e3o porque ele fosse mais forte \u2014 n\u00e3o era, ou pelo menos n\u00e3o o suficiente. Mas porque ele lutava de um jeito que me perturbava. Cada vez que eu o derrubava e me preparava para o golpe final, algo me detinha. N\u00e3o fraqueza \u2014 conhe\u00e7o minha for\u00e7a, nunca a ignorei. Era outra coisa.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Era o jeito como ele olhava para mim enquanto ca\u00eda, exausto e sangrando, sem \u00f3dio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Com pesar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Como se eu fosse algo que ele lamentasse, n\u00e3o algo que ele temesse. Como se, por baixo de tudo que eu havia feito \u2014 os meses de planejamento, as cidades, a guerra inteira \u2014 ele ainda enxergasse alguma coisa que eu n\u00e3o conseguia ver em mim mesmo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>No fim, quando o resultado estava claro e ele n\u00e3o tinha mais como continuar, me aproximei. A arma que havia tomado do Asas de Couro deste universo depois de derrot\u00e1-lo \u2014 constru\u00edda com o mesmo princ\u00edpio daquela que o meu havia usado contra mim, mas aperfei\u00e7oada com o conhecimento de quem me havia estudado por meses \u2014 estava na minha m\u00e3o. Eu a havia usado para chegar at\u00e9 ali. Agora n\u00e3o precisava mais dela.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Estava pronto para dizer o que havia planejado dizer desde o come\u00e7o: que este mundo era meu, que eu governaria com a m\u00e3o de ferro que nenhum Asas de Couro de nenhum universo conseguiria dobrar, que a era dos her\u00f3is havia terminado e uma nova ordem come\u00e7aria.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Disse tudo isso.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ele me olhou. N\u00e3o com raiva. N\u00e3o com desespero. Com aquela express\u00e3o \u2014 e disse, com a voz cansada de quem n\u00e3o tem mais nada a perder al\u00e9m da verdade:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2014 Que\u2026 mundo\u2026 ? Olhe\u2026 ao redor. Voc\u00ea\u2026 o destruiu\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E morreu.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Fiquei parado sobre os escombros por um tempo. Depois usei minha vis\u00e3o telesc\u00f3pica at\u00e9 milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia \u2014 varri tudo em volta, at\u00e9 onde era poss\u00edvel ver.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Morte. Destrui\u00e7\u00e3o. Cidades que haviam sido cidades. Pessoas que haviam sido pessoas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Venci tudo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o tinha nada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquela noite, depois que a loja fechou, Maren abriu o volume grande.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o era a primeira vez \u2014 ela o havia lido inteiro pelo menos quatro vezes, o que para uma mulher que lidava com livros proibidos era menos pesquisa e mais devo\u00e7\u00e3o. Mas desta vez ela foi direto para a se\u00e7\u00e3o que evitava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A Guerra dos C\u00e9us.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os artistas haviam capturado aquilo com uma honestidade que ainda do\u00eda. N\u00e3o havia glorifica\u00e7\u00e3o nas p\u00e1ginas \u2014 havia devasta\u00e7\u00e3o documentada com o rigor de quem sabe que est\u00e1 registrando o fim de uma era. Cidades abertas como frutas. Her\u00f3is caindo. E no centro de tudo, enfrentando-se em pain\u00e9is que ocupavam p\u00e1ginas inteiras, os dois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Solum e seu espelho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren havia pensado muitas vezes sobre o que separava os dois nas ilustra\u00e7\u00f5es. O vil\u00e3o usava as mesmas cores invertidas \u2014 o azul virava preto, o vermelho virava um carmesim escuro. Mas n\u00e3o era isso que os distinguia. Era a express\u00e3o. Solum olhava para o advers\u00e1rio com algo que os roteiristas haviam chamado de <em>pesar<\/em> \u2014 n\u00e3o \u00f3dio, n\u00e3o determina\u00e7\u00e3o pura, mas a tristeza espec\u00edfica de quem enfrenta o que poderia ter sido outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O outro olhava com fome.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren fechou o livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ficou sentada no escuro por um longo tempo, com a m\u00e3o sobre a capa, pensando no jeito como Cal havia tocado a lombada. No cuidado excessivo. Na express\u00e3o que ela finalmente havia conseguido nomear.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o era reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era culpa.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Fragmentos<\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vaguei pelo mundo por um tempo que o calend\u00e1rio n\u00e3o mede.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vi cada consequ\u00eancia do que havia feito \u2014 n\u00e3o como mem\u00f3ria, mas como presen\u00e7a constante, a clareza cruel de quem n\u00e3o pode fechar os olhos para o que os olhos alcan\u00e7am. Vi as cidades. Vi as fam\u00edlias. Vi as crian\u00e7as que n\u00e3o tinham feito nada al\u00e9m de nascer no universo errado \u2014 no universo que eu havia escolhido como campo de batalha para uma guerra que n\u00e3o era delas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vi o rosto do Solum caindo. Vi a express\u00e3o que eu n\u00e3o havia conseguido entender na hora.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Entendi, no sil\u00eancio entre os escombros que viraram t\u00famulos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Ele n\u00e3o lamentava a derrota. Lamentava o que eu poderia ter sido. Porque ele sabia \u2014 assim como o Asas de Couro do meu universo sabia, assim como todos eles sabiam de formas que eu me recusei a ver \u2014 que eu era exatamente como eles. Mesma origem. Mesmo poder. Outra escolha.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Comecei a pensar no que significa ser um monstro que sabe o que \u00e9.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Depois, depois de muito tempo, comecei a pensar se havia outra coisa que um monstro poderia se tornar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o absolvi\u00e7\u00e3o \u2014 isso eu sabia que n\u00e3o existia, e n\u00e3o era o que eu queria. Era outra coisa: menor, mais honesta, mais dif\u00edcil. A possibilidade de fazer diferente. N\u00e3o para apagar o que havia sido feito, mas porque o que havia sido feito n\u00e3o poderia ser a \u00faltima palavra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Voltei.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>N\u00e3o ao meu universo \u2014 n\u00e3o havia nada para voltar. Voltei a este. Ao \u00fanico lugar onde o peso que carrego tem um endere\u00e7o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cal voltou \u00e0 loja numa manh\u00e3 sem chuva \u2014 a primeira em duas semanas \u2014 com o c\u00e9u branqueado pelo tipo de luz difusa que era o m\u00e1ximo que Novarca conseguia oferecer agora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren estava organizando uma entrega nos fundos quando ouviu a campainha. Quando chegou ao balc\u00e3o, ele j\u00e1 estava dentro, parado no meio da loja, olhando para as prateleiras da frente com as m\u00e3os nos bolsos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Voc\u00ea sabe \u2014 disse ele, sem se virar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o era uma pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren colocou a caixa que carregava sobre o balc\u00e3o com cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 H\u00e1 tr\u00eas dias \u2014 respondeu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Vai me denunciar? \u2014 perguntou ele. A voz era neutra, como algu\u00e9m que faz a pergunta porque precisa saber a resposta, n\u00e3o porque tivesse medo dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Para quem? \u2014 disse Maren. \u2014 Ao Conselho? \u2014 Ela fez um gesto vago na dire\u00e7\u00e3o da rua. \u2014 Eles t\u00eam medo do que as pessoas acham que voc\u00ea \u00e9. Se souberem o que voc\u00ea realmente \u00e9, o medo vai ser maior ainda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cal se virou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Era a primeira vez que Maren o olhava diretamente sabendo o que sabia, e foi diferente. N\u00e3o porque ele parecesse diferente \u2014 parecia exatamente igual. Era ela que havia mudado o filtro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Por que voltou? \u2014 perguntou ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele ficou em sil\u00eancio por um momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Vi o que fiz \u2014 disse por fim. \u2014 Fiquei tempo suficiente para ver cada consequ\u00eancia, cada ramifica\u00e7\u00e3o. \u2014 Pausa. \u2014 N\u00e3o h\u00e1 como desfazer. Sei disso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Mas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Preciso saber se h\u00e1 como fazer diferente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren olhou para ele por um tempo longo. Depois se virou, foi at\u00e9 a prateleira dos fundos, e voltou com o volume grande \u2014 <em>Solum: A Saga Completa<\/em>, capa dura, acabamento dourado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Colocou sobre o balc\u00e3o entre os dois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cal olhou para o livro sem tocar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Eu n\u00e3o sou ele \u2014 disse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 N\u00e3o \u2014 concordou Maren. \u2014 Voc\u00ea \u00e9 outra coisa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela abriu o volume na \u00faltima p\u00e1gina ilustrada \u2014 n\u00e3o o \u00e9pico final da batalha, mas a pen\u00faltima cena, que os leitores \u00e0s vezes pulavam porque era menos espetacular. Solum de costas para o leitor, olhando para uma cidade devastada, os ombros ligeiramente curvados. Sozinho. A legenda dizia apenas: <em>E ainda assim.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Os livros n\u00e3o guardam os her\u00f3is porque eles eram perfeitos \u2014 disse Maren, com a m\u00e3o sobre a p\u00e1gina. \u2014 Guardam porque eles tentavam. Mesmo quando tinham tudo para n\u00e3o tentar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cal olhou para a ilustra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois olhou para ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Voc\u00ea guarda livros proibidos numa cidade controlada por um Conselho que elimina dissidentes \u2014 disse ele. \u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2014 Porque algu\u00e9m precisa lembrar que o mundo j\u00e1 foi diferente \u2014 respondeu Maren. \u2014 Para que possa ser diferente de novo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sil\u00eancio que se seguiu n\u00e3o era vazio. Era o tipo de sil\u00eancio que acontece quando duas pessoas chegam ao mesmo ponto por caminhos opostos e percebem, com alguma surpresa, que o ponto existe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 fora, algu\u00e9m gritou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o um grito de briga \u2014 um grito agudo, de p\u00e2nico. Depois outro. Depois o som inconfund\u00edvel de estrutura cedendo, o gemido met\u00e1lico que Novarca havia aprendido a reconhecer como prel\u00fadio de desabamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cal j\u00e1 estava na porta antes que Maren terminasse de se virar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela o viu atravessar a rua, a mochila abandonada na entrada da loja, a postura aquela mesma \u2014 ereta, sem pressa, os olhos fixos no que precisava ser feito. As pessoas na cal\u00e7ada recuavam instintivamente, abrindo caminho sem saber por qu\u00ea, como se alguma coisa muito antiga e muito fundamental em cada ser humano ainda reconhecesse aquele andar espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Maren foi at\u00e9 a porta e ficou parada na soleira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">L\u00e1 no fundo da rua, onde a estrutura do antigo banco havia finalmente cedido, uma figura erguia vigas de concreto com as m\u00e3os e as colocava de lado com o cuidado espec\u00edfico de quem foi destruidor o suficiente para saber exatamente quanto for\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria para <em>n\u00e3o<\/em> destruir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o havia esperan\u00e7a no rosto dele \u2014 ela estava longe demais para ver o rosto. Mas havia a a\u00e7\u00e3o. Havia o fato simples e sem ornamento de um ser capaz de passar ao largo, que havia passado ao largo por anos e anos, que havia feito coisas imperdo\u00e1veis neste e em outros mundos, erguendo escombros com as m\u00e3os e procurando, com met\u00f3dica urg\u00eancia, algu\u00e9m que ainda pudesse ser salvo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E ainda assim<\/em>, pensou Maren.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela voltou para dentro, foi at\u00e9 a prateleira, e abriu um caderno que guardava atr\u00e1s dos volumes de dicion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou a escrever.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Fim do Ato 1<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Vin\u00edcius Arag\u00e3o Costa escreve sobre s\u00e9ries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Novarca n\u00e3o tem mais her\u00f3is. Tem livros proibidos, fiscais do Conselho, e um andarilho que ergue vigas com as m\u00e3os e toca lombadas de livros com cuidado demais. Maren percebeu que havia algo errado com ele. Voc\u00ea tamb\u00e9m vai perceber \u2014 mas s\u00f3 vai entender no ato 4. Bem-vindo a Reden\u00e7\u00e3o. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um andarilho chega a Novarca numa tarde de chuva. Caminha ereto quando todos se curvam, ergue vigas que nenhum homem deveria conseguir segurar, e toca a lombada de um livro proibido com um cuidado excessivo para um estranho diante de uma rel\u00edquia qualquer. Maren Sol\u00eds, guardi\u00e3 de livros numa cidade que proibiu a mem\u00f3ria, percebe que h\u00e1 algo errado com ele \u2014 algo que ela demora dias para nomear. O primeiro ato de Reden\u00e7\u00e3o apresenta o mundo quebrado que sobrou depois da Guerra dos C\u00e9us, e o homem misterioso que voltou para ele.<\/p>\n<div class=\"more-link-wrapper\"><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/contos\/redencao-ato-1\/\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\">[Conto] Reden\u00e7\u00e3o \u2013 Ato 1<\/span><\/a><\/div>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":912,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[132],"tags":[121],"class_list":["post-911","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-contos","tag-ficcao-cientifica","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/911","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=911"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/911\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":915,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/911\/revisions\/915"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/912"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=911"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=911"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/saladejustica.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=911"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}