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[Resenha] Leviatã Desperta — O Universo que a Ficção Científica Merecia

Leviatã Desperta - capa

Título: Leviatã Desperta (Leviathan Wakes) Autor: James S. A. Corey Ano: 2011 Série: The Expanse, vol. 1 Categoria: Livro / Ficção Científica


A Humanidade Como Ela Provavelmente Seria

Existe um tipo de ficção científica que não precisa de aliens exóticos nem de saltos quânticos para ser fascinante. Basta pegar o ser humano como ele é — com toda a sua mesquinharia, ambição, lealdade e capacidade de improviso — e jogá-lo num cenário onde o espaço é real, as distâncias doem e os recursos são finitos. Leviatã Desperta, primeiro volume da série The Expanse, faz exatamente isso, e faz muito bem.

O livro é assinado por James S. A. Corey, pseudônimo da dupla formada por Daniel Abraham e Ty Franck. A colaboração funciona: o resultado é uma narrativa coesa, com voz uniforme e um equilíbrio invejável entre worldbuilding e drama humano.


Um Sistema Solar de Verdade

O maior trunfo de Leviatã Desperta é o seu cenário. A humanidade colonizou Marte, que conquistou a independência da Terra e se tornou uma potência militar por direito próprio. Ambas as potências exploram o Cinturão de Asteroides — a vasta faixa de rocha e gelo entre Marte e Júpiter —, extraindo os recursos que sustentam a civilização. E é aqui que mora o conflito mais interessante do livro: os Cinturinos.

Esses trabalhadores do espaço profundo são humanos adaptados às condições extremas do Cinturão — microgravidade constante, ar racionado, água recirculada. Altos, magros, com corpos que não suportariam a gravidade da Terra, eles desenvolveram sua própria cultura, seu próprio sotaque e sua própria identidade política. Não são cidadãos de Marte nem da Terra. São explorados por ambos. E estão fartos.

A construção desse universo é ao mesmo tempo fantástica e crível. James Corey descreve os cenários, o cotidiano das estações espaciais, a física brutal das viagens interplanetárias com um nível de detalhe que permite ao leitor visualizar cada ambiente com precisão. Não há tecnologia mágica aqui: as naves demoram semanas para chegar a qualquer lugar, a aceleração esmaga os tripulantes, e o vácuo não perdoa erros.


Dois Protagonistas, Dois Mundos

A narrativa alterna entre dois pontos de vista que, inicialmente, parecem não ter relação alguma.

James Holden é o imediato de uma nave mineral do Cinturão — um idealista norte-americano que acredita que a verdade sempre deve ser dita, independente das consequências. Quando sua nave é destruída num ataque misterioso, Holden e seus sobreviventes assumem o controle de uma nave de guerra marciana, a Rocinante, e se veem no centro de uma conspiração que pode incendiar o sistema solar.

Miller é um detetive da estação Ceres, contratado para encontrar uma jovem desaparecida chamada Julie Mao. Ele é o perfeito detetive pulp transplantado para o século XXIII: cínico, prático, movido por uma moralidade tão particular que não cabe nos regulamentos. Quem aprecia o Capitão Picard no holodeck com seu personagem de ficção científica, o Dixon Hill, vai reconhecer imediatamente o DNA de Miller. Ele é aquele arquétipo, e funciona muito bem neste cenário.

A dinâmica mais rica do livro, porém, está entre Holden e sua imediata e eventual companheira, Naomi Nagata. Cinturina de nascimento e engenheira-chefe da Rocinante, Naomi é a voz da razão prática num universo que insiste em ser irracional. A relação entre os dois — como capitão e imediata, e depois como casal — é construída com cumplicidade e respeito genuínos. Há uma cena em particular, após um ato de violência que divide opiniões, em que é Naomi quem esclarece para Holden que dois pontos de vista opostos podem ser igualmente legítimos. É o tipo de cena que eleva um bom livro a algo memorável.

Os demais membros da tripulação da Rocinante — o piloto Alex e o mecânico Amos Burton — são competentes, mas ficam um tanto à sombra dos três protagonistas principais. Curiosamente, quem assistiu à adaptação para a televisão vai notar que a série investe mais nesses personagens, especialmente no Amos, cuja lealdade feroz e perspectiva pragmática de mundo ganham muito mais destaque nas telas.


Sobre a Adaptação

A série da Amazon, exibida entre 2015 e 2022, é uma das melhores adaptações de ficção científica já produzidas para a televisão. Vale muito a pena, especialmente para quem quer ter uma dimensão visual do universo construído no livro. A principal diferença perceptível na primeira temporada está na dinâmica entre Miller e a tripulação da Rocinante: no livro, as trajetórias se cruzam de forma mais orgânica e gradual; na série, a interação é condensada e dramatizada de maneira ligeiramente diferente.


Uma Palavra Sobre Forma e Conteúdo

É impossível resenhar Leviatã Desperta sem mencionar um aspecto que pesa na avaliação: a linguagem. O livro faz uso excessivo de palavrões — a ponto de aparecerem na própria capa da edição brasileira. A história é adulta em seus temas e situações, e ninguém esperaria de outra forma. Mas o volume de palavrões vai muito além do que o drama exigiria, tornando o livro inacessível a um público mais jovem sem nenhum ganho narrativo real. É uma escolha estilística que empobrece, e não enriquece, a experiência de leitura.


Conclusão

Leviatã Desperta é ficção científica da melhor qualidade: especulativa sem ser ingênua, humana sem ser sentimental. O worldbuilding é excepcional, os personagens principais são tridimensionais e a tensão política entre Terra, Marte e o Cinturão cria um pano de fundo rico o suficiente para sustentar uma série inteira — o que, de fato, aconteceu. O livro recomenda-se a qualquer amante do gênero que aprecie uma space opera pé no chão, sem FTL, sem teletransporte e sem soluções fáceis.

A editora Aleph publicou o primeiro volume com esmero, mas infelizmente ainda não trouxe as continuações para o português. Para quem não consegue parar no primeiro livro — e quem conseguir tem mais força de vontade do que eu —, a série completa de nove volumes está disponível em inglês. O investimento vale cada página.

Nota do Vini: 8/10 😊


Vinícius Aragão Costa escreve sobre ficção científica, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br

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