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[Resenha] Coyote vs. Acme — Um filme para crianças feito para adultos

Título original: Coyote vs. Acme Direção: Dave Green Ano: 2026 Categoria: Filme (comédia híbrida live-action/animação)

Introdução

Assisti ontem o Coyote vs. Acme, e fiquei admirado ao ver o nome de James Gunn nos créditos, como produtor. Por quê? Porque o filme é ótimo, leve e divertido, e uma homenagem fiel e respeitosa aos desenhos clássicos que nós, que crescemos nos anos 1970, 80 e 90, passávamos nossas manhãs assistindo.

Ele é apenas um dos responsáveis pela história, não roteirizou nem dirigiu, e talvez por isso temas como racismo e imigração ilegal não tenham dominado a narrativa, nem tivemos trocas de etnia ou gênero só para forjar um elenco mais “diverso”. Aliás, com o perdão do trocadilho, o que teve mesmo foi diversão! 😁

Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

Sinopse

O filme começa com a típica cena do Willy Coiote tentando capturar o Papaléguas, e mais uma vez seus planos mirabolantes dão errado porque os incríveis produtos Acme não funcionam como o esperado. Vemos o Coiote se recolher, triste e solitário, para sua caverna, atulhada com as sobras de milhares de planos fracassados (aqui, confesso, lembrei do Cebolinha e seus planos infalíveis que também sempre dão errado). A cena é comovente, e a gente até sente pena do Coiote, a eterna vítima de um Papaléguas não só mais rápido, mas também mais esperto.

Enquanto pensa no próximo plano, com a barriga roncando pela ideia de um Papaléguas assado, Willy vê uma propaganda na TV: um advogado promete resolver problemas com produtos defeituosos da Acme. Ele então parte para a cidade contratar esse advogado.

Mas quando conhece Kevin Avery (Will Forte), fica decepcionado: Avery é um preguiçoso oportunista, especializado em acordos de baixo valor, sem interesse em um caso grande como esse. Ele coloca o Willy para fora, mas sua sobrinha e estagiária, Paige Avery (Lana Condor), idealista, resgata as provas — milhares de produtos defeituosos — e as insere no sistema judiciário. Pronto: a ação está iniciada.

O advogado figurão da Acme, Buddy Crane (John Cena, ótimo como sempre — ele tem um timing perfeito para comédia), é ex-colega de faculdade de Avery. Ao ver a intimação, ele liga na hora e oferece um acordo de 10 mil dólares, que Avery quer aceitar. Mas Willy se recusa: ele quer ir a julgamento.

Avery se desespera — nunca foi a julgamento — mas o jeito é trabalhar. Precisam de uma testemunha, e Willy indica o Papaléguas. A cena da tentativa de entregar a intimação a ele é hilária, com planos no mesmo estilo maluco do próprio Willy, e obviamente sem sucesso.

Enquanto isso, na Acme, Buddy também manda sua equipe tentar capturar o Papaléguas — de novo sem sucesso, de novo com ótimas piadas.

Durante a investigação, Avery e sua equipe descobrem que há algo muito errado na Acme. Uma dica do Pernalonga os leva à Vovó, casada há décadas com o principal engenheiro da Acme, o Dr. Peter Lorre — também um “toon” — que está desaparecido. Aos poucos, descobrem o Projeto Sísifo: um plano da Acme para explorar os desenhos animados, fornecendo-lhes propositadamente produtos defeituosos e usando os dados coletados para desenvolver produtos melhores para os humanos. Frangolino, dono da Acme, sabe de tudo — e Dr. Lorre foi silenciado (trancado em um buraco portátil Acme) justamente por tentar expor o esquema.

Avery quer desistir da investigação, mas Willy não deixa — ele nunca desistiu de pegar o Papaléguas, e não vai desistir agora. Fiel ao personagem clássico, ele não fala, só mostra plaquinhas — o que rende uma das melhores piadas do filme, quando Avery pergunta por que ele não se explica melhor e Willy responde com uma placa dizendo que o número de placas é limitado. Os dois acabam criando uma amizade genuína, abalada quando Avery descobre que, por trás de tudo, Willy ainda planeja pegar o Papaléguas dentro do próprio tribunal.

No julgamento, Avery percebe que o plano incluía dividir a refeição de “Papaléguas assado” com o novo amigo, e assim se empenha no caso. Ele argumenta que a Acme explora os toons e que, mesmo praticamente imortais, eles sentem dor e sofrem. Frangolino contra-argumenta que o sofrimento serve a um bem maior: produtos melhores para os humanos.

De repente, o Papaléguas invade o tribunal para testemunhar. Respondendo por “beep-beep” a perguntas de sim ou não, confirma tudo que Willy sofreu com os produtos defeituosos — e, em código Morse, diz que sente falta dele e pergunta se ele não vai voltar. Comovido, Willy desiste do plano de capturá-lo ali mesmo, ainda que a armadilha já estivesse pronta.

Apesar dos bons argumentos, a Acme vence o caso no tribunal — mas não sem antes Willy acionar a armadilha ali mesmo, por pura piada e nostalgia. Depois, a opinião pública se volta contra a empresa, centenas de outros toons entram com ações também com o Avery, e, algum tempo depois, Buddy e Frangolino acabam presos pela polícia. O Dr. Lorre é libertado do buraco portátil e volta para casa, e Willy retorna, feliz, aos seus planos mirabolantes para pegar o Papaléguas.

Análise

Como eu disse no início, o filme se apoia totalmente na nostalgia de quem cresceu assistindo a esses desenhos nos anos 1970, 80 e 90 — e não decepciona. Todas as piadas funcionam, como os humanos usando objetos típicos de desenho animado no dia a dia. A ideia de fazer a Acme fornecer produtos tanto para toons quanto para humanos é uma grande sacada de worldbuilding: celulares, computadores, carros, praticamente toda a tecnologia desse universo é da marca Acme.

O Projeto Sísifo também é um acerto de roteiro. A referência mitológica — o titã condenado a rolar eternamente a mesma pedra — funciona como metáfora dupla: descreve tanto a exploração cínica que a Acme faz dos toons quanto, de forma mais poética, a própria condição do Coyote, eternamente condenado a repetir a perseguição ao Papaléguas sem nunca alcançá-lo. É um raro momento em que o filme aprofunda o pastelão sem perder a leveza.

O dilema ético levantado no tribunal — sofrimento “aceitável” em nome de um bem maior — é tratado com humor, mas não deixa de tocar em algo real. O paralelo que me veio à cabeça foi o dos testes em animais: uma prática hoje em desuso na maior parte do mundo, mas que, infelizmente, ainda persiste em algumas áreas. A Acme como uma grande metáfora desse tipo de justificativa é mais interessante do que o filme parece perceber que é — e ainda bem que não tenta se aprofundar demais nisso, mantendo o tom de comédia familiar.

O elenco humano funciona bem, com destaque para John Cena, que segue provando ter timing cômico impecável, e para a dinâmica de amizade construída entre Avery e o próprio Willy — que, sem nunca falar uma palavra, ainda assim carrega peso emocional genuíno nas cenas certas. Vale também um destaque para Lana Condor como Paige: eu não conhecia a atriz, mas ela está muito bem no papel, simpática e talentosa, e dá à personagem o entusiasmo idealista que empurra a trama adiante logo no início.

E, por fim, o mais importante, na minha opinião — o que garante o sucesso do filme: os personagens são rigorosamente os mesmos que víamos nos desenhos. Mesmas personalidades, mesmas características físicas, mesmas reações exageradas. Fidelidade ao material original não é só uma questão de respeito ao fã — aqui, ela também vende.

Conclusão

Apesar de feito pensando nos adultos que cresceram assistindo a esses desenhos no século passado, as crianças de hoje também se divertem. É um filme leve, simples, mas com ótimas ideias, e garante risadas do início ao fim. A sacada de transformar a Acme em uma espécie de Apple do universo Looney Tunes — uma única marca dominando toda a tecnologia do dia a dia, de toons e humanos — é um daqueles toques de worldbuilding que elevam uma comédia pastelão a algo mais inteligente do que aparenta. Recomendo especialmente para quem cresceu no fantástico mundo dos desenhos clássicos, mas funciona bem também como programa em família.

Nota do Vini: 9/10 😄


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