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[Resenha] A Ilha Misteriosa — Jules Verne

Há obras que resistem ao tempo não pela leveza com que foram concebidas, mas pelo peso admirável de sua substância. A Ilha Misteriosa, do imortal Jules Verne, pertence com toda a justiça a essa categoria privilegiada — aquela em que o escritor não se contenta em entreter o leitor, mas empenha-se, com notável afinco, em instruí-lo, emocioná-lo e, se me é permitido o termo, edificá-lo. Publicada originalmente entre os anos de 1874 e 1875 nas páginas do Magasin d’Éducation et de Récréation, esta obra representa, no entender do signatário destas linhas, uma das mais completas realizações do gênero que se convencionou chamar de romance científico — e que os ingleses, com sua costumeira economia vocabular, designariam por science fiction.

Não é sem algum pesar que devo registrar, antes de prosseguir, o incidente lamentável que precedeu a presente leitura. O subscritor desta resenha teve a infelicidade de adquirir, em uma dessas feiras de volumes que proliferam pelos corredores dos estabelecimentos comerciais modernos, uma edição cujo texto se apresentava, como hoje se diz com eufemismo pouco convincente, “adaptado”. Ora, que autoridade possuiria qualquer editor contemporâneo para intervir na prosa de um mestre cujo talento a própria posteridade se encarregou de consagrar? A questão é, nos permitamos ser diretos, de resposta constrangedora. Felizmente, a situação foi prontamente remediada com a aquisição de uma edição integral e digna — e é sobre este texto, na íntegra e na sua glória, que versarão as considerações que se seguem.


A Fuga e o Naufrágio

A história tem início em plena Guerra Civil Americana. Gedeon Spilett, jornalista; Nab, ex-escravo liberto e de fidelidade inabalável ao seu patrão; o engenheiro Cyrus Smith; Bonadventure Pencrof, marinheiro experimentado; Harbert Brown, jovem protegido de Pencrof; e o cão Top fogem de Richmond em um aeróstato, com o tempo já a virar. O que começa como uma fuga desesperada transforma-se, sob a fúria de um furacão no Pacífico Sul, em naufrágio aéreo. O grupo chega a um recife, e dali a uma ilha grande e generosa em vegetação, fauna e água doce — mas Cyrus Smith e Top se separaram dos demais e ninguém sabe se estão vivos.

Verne estabelece desde os primeiros capítulos a composição deliberada do grupo: o jornalista que observa e narra, o marinheiro que navega e constrói, o engenheiro que pensa e resolve, o jovem que aprende e admira, o ex-escravo que serve com devoção. Cada personagem ocupa seu posto como peça de um mecanismo relojoeiro, e o autor não faz segredo dessa engenharia. O leitor mais exigente poderá objetar a conveniência excessiva dessa arrumação — e não estará de todo errado. Porém, a prosa é tão saborosa, a narrativa se desenrola com tanta elegância e sem pressa, que o esquematismo é prontamente perdoado. Quando a cadência solene de Verne descreve a ilha como um naturalista em expedição científica, o leitor de bom gosto rende-se e deixa-se levar.

Vale registrar que a edição “adaptada” que motivou o incidente narrado na abertura desta resenha suprimia, entre outras coisas, as referências de fé presentes no texto original. Cortar essas passagens não é simplificar — é amputar uma dimensão inteira do autor e da época. Verne era católico praticante, e isso transpira em sua obra de maneiras que o leitor desatento pode não perceber à primeira vista. Não é pregação — é cosmovisão. A natureza em Verne não é um cenário neutro; é uma criação ordenada, passível de ser compreendida pelo engenho humano precisamente porque foi feita por uma inteligência superior. Retirar isso é produzir um Verne asséptico e moderno — tecnicamente legível, espiritualmente vazio.


O Mandato Adâmico e a Civilização Reconstruída

Reunido o grupo — Cyrus Smith retorna misteriosamente, sem ferimentos que expliquem sua sobrevivência, acompanhado do fiel Top —, começa o que poderíamos chamar de Gênesis em miniatura. Os colonos reconstroem a civilização humana etapa por etapa, com uma fidelidade à sequência histórica que dificilmente será acidental num autor de fé católica e cultura bíblica sólida: abrigo, fogo, caça, cerâmica e, finalmente, metalurgia. O próprio Verne cita Tubalcaim — “mestre de toda obra de cobre e ferro”, conforme Gênesis 4:22 — no momento exato em que seus personagens iniciam sua Era da Metalurgia. Não é ornamento literário; é declaração de cosmovisão.

Igualmente revelador é o momento em que os colonos sobem ao cume do vulcão, confirmam que estão numa ilha e começam a batizá-la: o Lago Grant, o Monte Franklin, o Rio da Misericórdia, a própria Ilha Lincoln. Ao ler essa cena, ocorreu a este resenhista uma analogia que não conseguiu mais afastar: Adão nomeando os animais no Éden. A tradição exegética reformada há muito observa que nomear, no contexto hebraico, é mais do que rotular — é exercer autoridade e atribuir função, é o ato do mordomo que reconhece o lugar de cada criatura dentro da ordem estabelecida por Deus. Quando os colonos de Lincoln batizam cada acidente geográfico da ilha, não estão apenas decorando um mapa: estão exercendo o domínio que lhes foi conferido, transformando território selvagem em lar. É dominium em miniatura — e Verne o narra com uma naturalidade que sugere ser essa, para ele, a coisa mais normal do mundo.

Nesse processo de reconstrução civilizacional, destaca-se a figura do engenheiro Cyrus Smith — o MacGyver original, com quase século e meio de anterioridade sobre o personagem televisivo. Com dois vidros de relógio, Smith improvisa uma lente e acende fogo. Com nitroglicerina artesanal, abre um escoadouro no leito do lago. Com cálculos matemáticos e memória, determina a posição geográfica da ilha com precisão notável. A diferença em relação ao seu sucessor televisivo é que Smith opera sem fitas adesivas nem explosões convenientes — apenas física, química e uma fé inabalável na racionalidade de um universo criado para ser compreendido.


A Ilha que Cuida

Seria, porém, injusto reduzir A Ilha Misteriosa a um romance de sobrevivência técnica. Desde os primeiros capítulos, o leitor atento percebe um padrão que transcende a coincidência: a ilha provê. Os colonos precisam de abrigo — e encontram cavernas formadas por erosão, perfeitamente dimensionadas. Precisam de fogo — e Smith resolve com dois vidros de relógio. Lamentam a falta de animais de tração — e um casal de onagros surge nas proximidades. Resgatam um baú do mar que contém, com precisão perturbadora, exatamente o que lhes faltava: ferramentas, armas, instrumentos de navegação, roupas, livros e uma Bíblia.

Essa última adição não é decorativa. Em um domingo, os colonos abrem a Bíblia aleatoriamente e encontram Mateus 7:8 — “Aquele que pedir, receberá, e aquele que procurar, achará.” Palavras que, naquele contexto, não são apenas conforto espiritual: são chave interpretativa. Verne, o católico praticante, pisca para o leitor de fé e diz, sem palavras: sim, você está lendo certo.

Os mistérios se acumulam com uma generosidade que logo ultrapassa o acaso. Uma criatura invisível salva o cão Top de um dugongo e desaparece nas profundezas. Uma fogueira ilumina o caminho dos náufragos numa noite de tempestade — mas ninguém a acendeu. Um torpedo destrói o navio pirata no momento exato em que tudo parecia perdido. Um medicamento específico aparece sobre a mesa do jantar quando Harbert está às portas da morte. A ilha não é apenas generosa. Ela responde. Age com propósito, com conhecimento das necessidades do grupo e com um timing que desafia qualquer explicação estatística.

O leitor familiarizado com a televisão do século XXI reconhecerá, com um sorriso, os elementos: uma ilha misteriosa no Pacífico, náufragos que encontram exatamente o que precisam, uma presença invisível que age nos bastidores, um animal que parece saber mais do que deveria. A Ilha Misteriosa é, com toda a justiça, a Lost do século XIX — com a vantagem considerável de ter um final que faz sentido.


A Redenção de Ayrton

Entre todos os personagens do romance, nenhum percorre um arco tão completo quanto Ayrton. Encontrado na ilha Tabor em estado de absoluta selvageria — anos de isolamento haviam apagado nele os traços da humanidade civilizada —, ele é resgatado pelos colonos não por utilidade, mas por obrigação moral. Todos eles, sem exceção, são cristãos que reconhecem suas falhas mas agem conforme o que creem. E o que creem os obriga a tentar recuperar a alma perdida de um homem, independentemente do custo ou da conveniência.

Essa atitude, é preciso dizê-lo, já não é natural no século XXI. Hoje, o debate seria interminável. Haveria questões sobre autonomia individual, sobre impor valores culturais, sobre quem somos nós para decidir o que é “humano” o suficiente. Os colonos de Lincoln não têm essa paralisia — porque partem de uma antropologia clara. O homem foi feito à imagem de Deus, essa imagem foi obscurecida pelo isolamento e pela selvageria, e resgatá-la é obrigação de quem a reconhece. C.S. Lewis observou que, quando se vai na direção errada, voltar é progresso. Os colonos de Verne sabem disso instintivamente — e o progressismo contemporâneo, paradoxalmente, perdeu essa intuição ao destruir virtudes reais em nome de virtudes performáticas.

O processo de reintegração de Ayrton guarda, de forma que Verne provavelmente não planejou conscientemente, uma semelhança estrutural com a domesticação do orangotango Mestre Jup — em ambos os casos, a civilização funciona como processo de recuperação de uma humanidade plena, obscurecida pelo isolamento ou pela selvageria. A diferença é que Ayrton, ao contrário de Jup, tem história, culpa e consciência. Quando por fim conta seus crimes — a tentativa de motim, as mentiras ao lorde escocês, o degredo merecido — ele acredita, com sinceridade, não merecer lugar entre os justos.

O perdão que recebe é narrado sem melodrama e sem didatismo, com a naturalidade de quem pratica o Evangelho sem precisar anunciá-lo. Ayrton volta — e o confirma da única maneira que importa: nadando sozinho, numa noite escura, até um navio cheio de criminosos, para proteger aqueles que lhe deram uma segunda chance.


Capitão Nemo e a Graça Comum

A revelação do benfeitor misterioso é um dos grandes momentos de universo compartilhado da história da literatura. Durante centenas de páginas, Verne construiu uma presença invisível, generosa e aparentemente onisciente — e a revelou como um ser humano de carne e osso: o Capitão Nemo, ancião moribundo, cujo submarino Nautilus repousa numa caverna subterrânea da ilha, e cuja história apenas uma fração foi contada em 20.000 Léguas Submarinas.

A revelação de Nemo tem ainda uma dimensão que merece registro separado: ela é, provavelmente, um dos primeiros e mais elegantes exemplos de universo compartilhado na história da literatura ocidental. O leitor que chegou a A Ilha Misteriosa depois de 20.000 Léguas Submarinas experimenta um prazer específico e insubstituível — o de reconhecer, numa obra distinta, um personagem que já conhece, mais velho, transformado pelo tempo, mas inconfundível. Verne não inventou o conceito — Homero já entrelaçava personagens e geografias entre a Ilíada e a Odisseia séculos antes de Cristo —, mas foi um dos primeiros a fazê-lo de forma deliberada na literatura moderna, construindo pontes entre romances publicados em anos diferentes para leitores que precisariam se lembrar de uma obra para reconhecer plenamente a outra. Este resenhista, confessa, experimentou ao deparar-se com Nemo a mesma sensação que sentiu ao descobrir, nas páginas de Asimov, que R. Daneel Olivaw havia sido o condutor silencioso da humanidade durante milênios: a deliciosa vertigem de perceber que o universo era maior do que parecia, e que alguém o havia planejado com antecedência e capricho.

A ilha Lincoln não foi uma coincidência. O naufrágio não foi um acidente. Nemo estava lá, e os colonos foram parar exatamente onde havia alguém capaz de cuidar deles.

Aqui o leitor poderá objetar: “Mas Vini, você disse que era Deus quem os socorria, e no final era um homem.” A objeção, com o devido respeito, revela uma compreensão estreita da Providência. A pergunta correta não é quem acendeu a fogueira ou quem disparou o torpedo — mas quem fez os náufragos aportarem exatamente na ilha que abrigava o Capitão Nemo com todos os recursos que eles precisariam para sobreviver?

Os estudiosos da teologia reformada têm um nome para isso: graça comum. Não é a graça salvífica, reservada aos eleitos — é a graça que sustenta a criação, que distribui competência, conhecimento e generosidade entre crentes e não crentes, que age através de pessoas, de ciência e de circunstâncias aparentemente fortuitas. Nemo não era um santo — era um homem com uma história complexa de crimes e arrependimentos. Mas foi através dele, e da sua extraordinária competência técnica, que a Providência cuidou dos colonos de Lincoln. Deus não precisou suspender as leis da física para fazê-lo. Apenas posicionou as peças com a antecedência necessária.

O próprio Nemo compreende algo disso ao final. Ele não apenas os ajudou enquanto vivia — de seu leito de morte, vendo que os colonos não terminariam o navio a tempo, foi com o Nautilus até a ilha Tabor e deixou uma mensagem para o Duncan, iate do lorde escocês, garantindo o resgate que selaria a sobrevivência do grupo. Foi seu último ato, e talvez o mais belo: uma graça que se estendeu além da morte.


Um Verne Subestimado

Confesso que, ao iniciar esta leitura, não sabia quase nada sobre A Ilha Misteriosa. Não é o romance mais célebre de Verne — esse título pertence, com justiça, a 20.000 Léguas Submarinas e à Volta ao Mundo em 80 Dias. E essa obscuridade relativa revela-se, ao cabo da leitura, uma das maiores injustiças da história literária.

Porque este é, argumentarei sem hesitação, o romance mais completo de Jules Verne. Tem a aventura dos melhores, a ciência dos mais rigorosos, a humanidade dos mais generosos e a fé dos mais honestos. Tem personagens que crescem, uma trama que surpreende, mistérios que se resolvem com elegância e um final que honra tudo o que foi construído. Um Verne mediano — se tal coisa existe — ainda supera boa parte dos best-sellers contemporâneos. A Ilha Misteriosa não é Verne mediano. É Verne no seu melhor, escrevendo o livro que talvez ele mesmo não soubesse que era o seu maior.

Nota do Vini: 10/10 🤩

Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br

Se você também passou anos sem saber que esta obra existia, não perca mais tempo — Jules Verne deixou um tesouro escondido no Pacífico Sul, e ele está esperando por você. Leu A Ilha Misteriosa? Já conhecia o universo compartilhado verniano? Conta nos comentários — e se quiser mais resenhas de clássicos da ficção científica que merecem mais atenção do que recebem, nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog. 🏝️📖

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