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[Resenha] DC/Marvel: Superman/Spider-Man #1 (2026)

DC/Marvel: Superman/Spider-Man #1 (2026) - capa

Roteiro: Mark Waid Arte: Jorge Jiménez Editoras: DC Comics / Marvel Comics Publicação: 2026 Categoria: Quadrinhos — Crossover


Uma Herança Pesada de Carregar

Existe uma categoria especial de quadrinho que carrega, além de suas próprias páginas, o peso afetivo de toda uma geração de leitores. O primeiro encontro entre Superman e Homem-Aranha, publicado originalmente nos anos 1970 e relançado no Brasil pela Editora Abril em 1993, é um desses marcos. Para quem cresceu folheando aquelas páginas — talvez sem nem saber que crossovers entre as duas grandes editoras eram possíveis —, qualquer novo encontro entre os dois maiores heróis do universo dos quadrinhos chega com uma expectativa que beira o injusto.

O relançamento de 1993 trouxe quatro crossovers históricos: o primeiro e o segundo Super-Homem e Homem-Aranha, X-Men e Novos Titãs, e Batman e Hulk — este último com a cena inesquecível do Batman nocauteando o Hulk, que é simplesmente impagável. O melhor dos quatro é o primeiro Super-Homem e Homem-Aranha, e o único que decepciona é o segundo. Os outros dois se sustentam bem. Mas o rei absoluto do gênero, não só pela escala das equipes, mas pela qualidade da história, é Liga da Justiça e Vingadores. Quando o anúncio de novos crossovers para 2026 chegou, a primeira esperança foi a de um relançamento dessa obra — desta vez, espera-se, numa edição definitiva à sua altura. Quem não comprou o encadernado quando foi lançado vai ter que abrir a carteira com mais determinação desta vez.

Os crossovers de 2026 começaram com Deadpool/Batman — pela Marvel — e Batman/Deadpool — pela DC. Ambos muito bons; o da DC, um degrau acima, como de costume. As edições também trazem mini crossovers adicionais, com destaque para Asa Noturna e a Wolverine Laura Kinney.

É nessa condição de herdeiro de uma tradição ilustre que Superman/Spider-Man #1 se apresenta, carregando o peso de tudo isso nas costas.


Dois Mundos, Uma Redação

A premissa é das mais felizes: Clark Kent e Peter Parker trabalham lado a lado na redação do Planeta Diário, como se simplesmente pertencessem ao mesmo universo, sem explicações, sem portais interdimensionais, sem crises cósmicas de introdução. Essa solução narrativa, além de elegante, gera situações com potencial cômico genuíno, algo que o próprio crossover original soube explorar muito bem.

A história é simples: os dois repórteres recebem uma pauta do Perry White, começam a investigar e descobrem que o Dr. Octopus está tramando algo envolvendo kriptonita. O Superman é afetado por uma arma que espalhou um “raio de kriptonita”, e logo o Brainiac entra em cena como o verdadeiro arquiteto da ameaça. A dupla se divide — Superman vai atrás do Brainiac em sua nave, enquanto o Homem-Aranha invade o laboratório secreto do Dr. Octopus.

A virada é previsível: os vilões trocam de adversário. O Superman, enfraquecido pela kriptonita, ainda assim despacha um Dr. Octopus reforçado com relativa facilidade, enquanto o Aranha pena para conter o Brainiac — que, no final, ainda derruba um prédio inteiro sobre o herói. O desfecho tem seus méritos: enquanto o Superman tenta impedir que a nave caindo destrua a cidade, o Aranha está soterrado sob os escombros do laboratório. Com o Homem de Aço enfraquecido demais para agir, é o Homem-Aranha quem precisa erguer o peso impossível, repetindo uma das cenas mais icônicas de sua história, para então desligar a arma. O apoio moral do Superman via rádio, enquanto o Aranha sangra sob o concreto, é o melhor momento emocional da edição.


O Problema Não É a Simplicidade

Superman/Spider-Man #1 não falha por ser simples. Crossovers não precisam de enredos épicos para funcionar — precisam de personagens bem escritos interagindo de forma convincente. E é exatamente aí que a edição deixa a desejar.

Mark Waid, roteirista habitualmente acima da média, parece ter ficado intimidado pela responsabilidade do material. As soluções dos conflitos são óbvias e chegam depressa demais, e a interação entre Superman e Homem-Aranha — que deveria ser o coração da história — fica aquém do que 24 páginas permitiriam, se bem aproveitadas. Curiosamente, são exatamente 24 páginas, e a sensação é de que faltou espaço, ou faltou coragem para preencher o espaço que havia.

A arte de Jorge Jiménez também merece uma ressalva: o traço tende ao caricato em momentos que pediriam mais peso e solidez. É possível que seja uma questão de preferência pessoal — afinal, é difícil não comparar com os traços clássicos de Ross Andru, Neal Adams e John Romita que definiram o encontro original —, mas o estilo escolhido não favorece a grandiosidade que o encontro entre os dois maiores heróis dos quadrinhos merece.


Os Mini Crossovers Salvam a Edição

A edição acompanha algumas histórias curtas que, no conjunto, superam a história principal em criatividade. O destaque vai para o encontro entre Superboy — da época em que atuava com a Legião dos Super-Heróis — e o Homem-Aranha 2099, com participação do Batman do Futuro. A semelhança visual entre esses dois heróis futuristas (o Batman e o Aranha, para ficar claro) é, de fato, algo que passa despercebido com facilidade — e o crossover a explora com inteligência.

Mas o mini crossover mais inventivo é o que apresenta Jonathan Kent e Ben Parker. A arte mostra o encontro dos dois pais adotivos mais importantes dos quadrinhos em suas versões jovens, enquanto, no texto, Clark e Peter conversam sobre os legados que receberam deles — sem imaginar que os dois homens que moldaram seus destinos um dia se cruzaram. É uma sacada narrativa que confirma: fingir que todos vivem no mesmo universo é, mesmo, a melhor solução.


Conclusão

Superman/Spider-Man #1 é um crossover que cumpre o básico sem alcançar o extraordinário. A história não tem falhas graves — tem falhas de ambição. Para um encontro desta magnitude, “não é ruim” soa como uma condenação velada. A expectativa era de uma obra à altura do legado. O que chegou foi uma edição simpática, com momentos genuinamente bons nos mini crossovers, mas que deixa o leitor com a sensação de que ficou muito dinheiro na mesa.

Recomendada para fãs dos dois personagens e colecionadores do evento crossover DC/Marvel de 2026. Não é o ponto de entrada que o encontro entre os dois maiores heróis dos quadrinhos merecia ser.


Nota do Vini: 6/10 🙂

Não é ruim — mas a expectativa era de 9 ou 10.

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