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#Resenha: Devoradores de Estrelas — Quando a Amizade Salva Dois Mundos

Filme · Ficção Científica · 2026 Direção: Phil Lord e Christopher Miller | Roteiro: Drew Goddard | Elenco: Ryan Gosling, Sandra Hüller, Lionel Boyce, Ken Leung, Milana Vayntrub | Baseado no romance Devoradores de Estrelas, de Andy Weir (2021), publicado no Brasil pela Editora Suma


Um Herói Que Não Queria Ser Herói

Existe um tipo de história que parece simples à primeira vista e vai se revelando densa à medida que você mergulha nela. Devoradores de Estrelas é exatamente isso: uma premissa clássica — ameaça alienígena, herói improvável, missão aparentemente impossível — executada com uma criatividade e um cuidado que a tornam algo especial.

O ponto de partida já é excelente: cientistas descobrem que o Sol está morrendo. Pequenas manchas escuras surgem na superfície do astro, e a radiação solar começa a diminuir de forma inexplicável. A investigação revela algo perturbador — uma bactéria alienígena, batizada de Astrophage, está se alimentando do Sol. O contágio já alcançou Mercúrio, e em poucas décadas a Terra enfrentaria uma nova Era do Gelo. A espécie humana, como de costume, está com o relógio na mão e pouquíssimo tempo sobrando.

A solução encontrada pelos cientistas passa por um nome improvável: Ryland Grace, um ex-pesquisador desacreditado que agora dá aulas de ciências para crianças do ensino fundamental. Grace tem teorias heterodoxas sobre formas de vida não baseadas em carbono — exatamente o tipo de pensamento lateral que a situação exige. Ryan Gosling entrega uma performance afinada, construindo um personagem que carrega a derrota no olhar sem perder o bom humor — um homem que o mundo empurrou para o canto e que, no fundo, ainda tem algo a provar.


A Missão e o Homem

A estrutura narrativa do filme é inteligente. A história é contada em duas linhas temporais que se alternam: o presente, dentro da nave, com Grace recuperando a memória aos poucos; e o passado, mostrando como ele foi recrutado — e “convencido”, de forma bastante compulsória, a embarcar na missão. Sim, nosso herói foi basicamente sequestrado para salvar o mundo. Não é todo dia que a humanidade recorre ao rapto científico como estratégia de sobrevivência.

Essa estrutura funciona muito bem porque mantém o espectador sempre querendo saber mais, conectando os pontos de uma trama que, apesar de densa em conceitos científicos, nunca se torna hermética. O roteiro de Drew Goddard — o mesmo responsável pela adaptação de Perdido em Marte, também de Andy Weir — demonstra a mesma habilidade de transformar ciência em entretenimento sem simplificar demais nem afastar o espectador leigo.


Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

⚠️ A Partir Daqui, Há Spoilers

A grande virada do filme acontece quando Grace, já o único sobrevivente da missão, chega à estrela Tau Ceti — a única não contaminada pelo Astrophage em toda a galáxia — e descobre que não está sozinho. Uma nave alienígena chegou com o mesmo propósito: salvar sua própria espécie.

O ser que emerge dessa nave é Rocky. E Rocky é, sem exagero, um dos personagens mais carismáticos que o cinema de ficção científica produziu nos últimos anos. Parece uma aranha de pedra, comunica-se por meio de sons musicais e tem uma curiosidade intelectual e uma abertura ao outro que envergonhariam muita gente da nossa espécie. Quando ele invade a nave do Grace para explorar tudo e reclama da bagunça com uma indignação que dispensa tradução, a plateia já está apaixonada.

A amizade entre os dois cresce de forma orgânica e convincente. Há um medinho inicial, a barreira da comunicação, os mal-entendidos inevitáveis. Mas Phil Lord e Christopher Miller — a dupla por trás do Aranhaverso — conduzem essa relação com uma leveza e uma precisão notáveis. O que poderia ser um exercício intelectual sobre comunicação interestelar torna-se algo genuinamente emocionante.

A mensagem do filme não está escrita em letras garrafais, mas está lá, clara e bonita: amizade verdadeira não conhece fronteiras — nem de espécie, nem de planeta. Grace não teria sobrevivido sem Rocky. Rocky não teria cumprido sua missão sem Grace. Dois seres de mundos completamente diferentes, que confiaram suas vidas um ao outro sem hesitar. É o tipo de coisa que faz bem ao coração.

Vale ainda destacar um detalhe intelectualmente honesto do roteiro: a teoria de Grace sobre vida não orgânica — aquela que o tornara um pária científico — acaba sendo derrubada pela própria missão. O Astrophage, quando finalmente analisado de perto, é formado por água e carbono. Grace estava errado. E ele aceita isso. Há uma lição silenciosa aí sobre a natureza da ciência: não é infalível, e seu maior valor está exatamente na disposição de rever hipóteses diante da evidência.


O Que Funciona (Quase Tudo)

A narrativa é exemplarmente construída. Cada cena conecta-se à seguinte sem deixar pontas soltas; cada elemento introduzido tem seu propósito. As sequências de tensão — e há várias — funcionam de verdade. Em mais de um momento o espectador se vê torcendo desesperadamente para que nem Grace nem Rocky morram, o que é uma conquista e tanto considerando que Rocky — sem rosto, sem expressões convencionais — existe graças a uma mistura artesanal de marionetes e efeitos digitais que chegou a confundir até a própria equipe de produção.

Se há algo que poderia ser questionado, é a velocidade com que a comunicação entre os dois é estabelecida. O processo é acelerado demais para ser realista — mas era necessário para que o filme andasse. Com uma duração que já chegou a quase quatro horas na edição bruta, a dupla Lord-Miller precisou fazer escolhas, e essa foi uma delas. É um sacrifício compreensível.


Vale Ler o Livro Também

Devoradores de Estrelas é uma adaptação do romance homônimo publicado em 2021 por Andy Weir — o mesmo autor de Perdido em Marte — e lançado no Brasil pela Editora Suma. Quem, como eu, conhece o trabalho anterior de Weir sabe que ele tem um talento particular para transformar ciência dura em narrativa acessível e apaixonante. O filme de Perdido em Marte era muito bom; o livro, um pouco melhor — mais cerebral, mais detalhado, mais mergulhado na lógica científica que é a marca registrada do autor.

Ainda não li Devoradores de Estrelas, mas ele já está na minha fila de leitura — numa pilha que, se caísse sobre alguém, exigiria a presença do SAMU. O filme foi publicidade excelente para o livro, e isso, por si só, já diz muito.


Conclusão

Devoradores de Estrelas é o filme que o gênero da ficção científica precisava: inteligente sem ser pretensioso, emocionante sem ser manipulador, otimista sem ser ingênuo. É uma história sobre ciência, sobre humildade intelectual e, acima de tudo, sobre o poder transformador da amizade. Sai-se do cinema com aquele calorzinho no peito que só as boas histórias proporcionam — e com a fé na humanidade um pouco mais intacta do que quando se entrou.

Recomendado para qualquer um que aprecie ficção científica bem feita, personagens bem construídos e a prova cabal de que uma aranha de pedra pode ser o melhor amigo que um professor desacreditado já teve.


Nota do Vini: 10/10 🤩

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