
Série: For All Mankind Temporada: 5 Plataforma: Apple TV+ Criadores: Ronald D. Moore, Matt Wolpert e Ben Nedivi Ano: 2026 Categoria: Série
Uma Corrida Que Nunca Terminou — e Agora Virou Guerra
Quando For All Mankind estreou em 2019, a proposta era sedutora e simples: e se a União Soviética tivesse chegado primeiro à Lua em 1969, e a corrida espacial nunca tivesse terminado? Sete anos e cinco temporadas depois, a série evoluiu muito além do seu ponto de partida. A pergunta original já foi respondida há muito tempo. Agora, For All Mankind está fazendo perguntas maiores — sobre soberania, sobre automação, sobre o que os seres humanos fazem quando levam seus melhores sonhos para o espaço e insistem em levar também seus piores instintos.
A quinta temporada, ambientada no ano de 2012 da linha do tempo alternativa da série, é possivelmente a melhor de todas. É também a mais densa, a mais política e a mais corajosa na disposição de romper corações — inclusive o do espectador que, há cinco temporadas, insiste em torcer para a família Baldwin.

O Mundo em 2012 — Mas Não o Nosso
Um dos recursos mais inteligentes desta temporada é a série de mini documentários lançados pela Apple TV+ em paralelo com os episódios, cobrindo o período entre 2004 e 2012 e comparando os acontecimentos da linha do tempo alternativa com os da nossa realidade. É conteúdo de valor agregado feito do jeito certo: não é material promocional, é uma extensão genuína do worldbuilding que revela, por exemplo, que a aliança M-6 — o conselho que governa a exploração de Marte — foi inspirada no G7 real. Assim como o G7 é um clube de nações ricas que definem as regras da economia global com pouca consulta aos de fora, o M-6 é um clube de potências espaciais que define as regras do planeta vermelho. E, como no mundo real, os excluídos decidiram montar o próprio clube.
Entra em cena a NEI — Nações Espaciais Independentes, a coalizão formada por Brasil, China, Paquistão e outros países que ficaram de fora da mesa principal. A presença brasileira é destacada com esmero: textos em português aparecem nos painéis da base da NEI em Marte, e uma cena icônica mostra o presidente Lula assinando os tratados que tornam o Brasil um player espacial relevante nesse universo alternativo. É ficção científica, claro — no mundo real, a probabilidade de vermos isso acontecer sem que o dinheiro público vire mais um ralo patrocinado por governos notoriamente criativos na arte de desperdiçar recursos é, digamos, baixa. Mas a série usa essa premissa de forma inteligente, e a NEI acaba sendo um dos elementos mais interessantes da temporada, especialmente quando sua posição de terceira via se torna decisiva no conflito que domina a temporada.
A Guerra Que Ninguém Queria — e Todos Causaram
O coração da quinta temporada é o confronto entre os colonos de Marte e as potências da Terra. O estopim imediato é o projeto de automação da extração de irídio — a commodity que sustenta a economia marciana —, que ameaça eliminar os empregos dos trabalhadores da colônia. O conflito, no entanto, é muito mais profundo: é a velha luta dos colonizados contra os que ficaram na metrópole. Os marcianos querem representação política no M-6. Querem decidir seu próprio futuro. Querem, em suma, independência.
A série constrói esse arco com inteligência ao longo dos episódios. Os amotinados tomam o centro de comando de Vale Feliz, fazem reféns — incluindo o próprio governador —, e lançam um ultimato: fim da automação e uma cadeira no conselho do M-6. A resposta americana é o clássico e previsível “não negociamos com terroristas”, seguida de um bloqueio de suprimentos. A sabotagem das estufas marcianas — que destrói de uma vez a colheita e os depósitos de suprimentos armazenados logo abaixo, numa conveniente coincidência que soa como o único deslize narrativo da temporada — aperta ainda mais o cerco.
E então, quando parecia que não havia saída, a M-6 manda uma nave de guerra. Uma nave enorme, com conveses giratórios e tropas treinadas para combate espacial — claramente construída muito antes do motim, o que levanta questões sombrias sobre as reais intenções das potências terrestres em relação a Marte. Os fuzileiros espaciais invadem Vale Feliz. A primeira guerra interplanetária da história começa.
A resolução — uma mudança de governo na União Soviética que força um cessar-fogo — pode parecer apressada para quem esperava um finale mais catártico. E há alguma razão nessa crítica: a série montou uma situação que parecia não ter saída viável, e a saída encontrada chega de fora, sem que os personagens principais precisem resolver o nó por conta própria. Mas há algo honesto nessa escolha também: guerras raramente terminam por heroísmo individual. Terminam quando alguém poderoso decide que não vale mais a pena. As cenas em off que encerram o conflito sugerem que Marte caminha para uma autonomia gradual — história para a sexta e última temporada contar.

Adeus, Ed Baldwin
Não há como falar da quinta temporada sem falar da morte do almirante Edward Baldwin. Joel Kinnaman carregou esse personagem por cinco temporadas e o envelheceu de forma crível e comovente — mas a maquiagem de envelhecimento, recurso sempre arriscado, nunca convenceu completamente. Ed Harris teria sido uma escolha mais feliz para o Ed Baldwin dos anos finais: aquela dureza cansada, aquele peso de homem que já viu demais, seria natural nele de um jeito que nenhuma camada de látex consegue reproduzir.
Mas o arco do personagem é inegavelmente poderoso, e a morte dele — de câncer, velhinho, em Marte — é ao mesmo tempo justa e cruel. Ed Baldwin nunca venceu. Perdeu a corrida para a Lua. Perdeu a corrida para Marte. Foi traído pela esposa que amava. Foi julgado em absentia e condenado. Morreu de câncer antes de ver a filha confirmar vida extraterrestre em Titã — a maior descoberta da história humana, acontecendo sem ele.
É tentador chamar isso de anticlimático. E é, num sentido convencional. Mas há uma leitura mais generosa que a série sustenta: Ed não era um herói destinado a vencer. Era uma testemunha. Esteve presente em cada momento decisivo da história da exploração espacial sem nunca ser o momento decisivo. A colônia marciana existe, em parte, por causa do que ele plantou — mesmo que ele nunca tenha colhido. E, ao contrário do que o amargor crescente ao longo das temporadas poderia sugerir, ele nunca desistiu. Ficou mais cínico, mais difícil, menos dado a sorrisos do que o Ed da primeira temporada — mas esteve sempre lá. Até o fim.
É uma das caracterizações mais corajosas e honestas que a televisão produziu nos últimos anos. A maioria dos roteiros não tem estômago para isso.
Kelly em Titã — e a Maior Vitória da Família
Se Ed Baldwin morreu sem ver a vitória, sua filha Kelly pode estar prestes a conquistar a maior de todas. A missão a Titã, lua de Saturno, é o contraponto esperançoso ao conflito marciano — e a temporada a conduz com paciência e tensão crescente.
Kelly Baldwin sabota a própria nave para forçar o pouso em Titã quando o comandante da missão hesita após a tragédia soviética. Moralmente ambíguo, narrativamente empolgante. E a bomba que ela carrega — o segredo da sabotagem — fica suspensa como uma espada de Dâmocles durante toda a segunda metade da temporada.
A confirmação de vida microbiana em Titã, para piorar, não é vida baseada em carbono. O que significa que a vida pode ter surgido de forma completamente independente, com química diferente — e que, provavelmente, o universo está cheio dela. É o tipo de descoberta que reescreve tudo. E Kelly Baldwin — neta do homem que perdeu tudo — está lá para fazê-la.
O finale deixa sua sobrevivência em aberto: sem oxigênio suficiente para os três tripulantes voltarem à nave, Kelly fica para trás. Mas uma nave soviética, aquela cuja tripulação morreu tentando pousar em Titã, se reativa misteriosamente ao fundo. A câmera se afasta até a órbita de Saturno. O Senhor dos Anéis, impassível e magnífico, enquadra a cena. É uma das imagens mais bonitas que a série já produziu.
A temporada final tem muito a responder. E agora tem razões de sobra para que o espectador apareça.
O Socialismo Sob a Lupa
Uma ressalva que acompanhou as temporadas anteriores — a sensação de que a série romantizava os avanços soviéticos, como se o comunismo fosse um modelo espacialmente superior — se dissipa de vez na quinta temporada. A série sempre mostrou o custo humano do “sucesso” soviético, mas agora o faz com ainda mais clareza.
Margo Madison passou anos num Gulag. A Morozova, ex-KGB, saiu de lá chantageando o carcereiro e voltou ao poder usando as mesmas ferramentas que a aprisionaram. Lee Jung-Gil desertou da Coreia do Norte por saber que, se voltasse, seria perseguido e provavelmente morto pelo seu próprio governo. O socialismo nesse universo alternativo pode ter chegado a Marte — mas chegou sobre os ombros dos mesmos mecanismos de opressão que conhecemos no mundo real.
A série faz uma crítica sofisticada justamente por não ser panfletária. Não diz que o comunismo é mau. Mostra como ele funciona, e deixa o espectador tirar suas próprias conclusões.
E o finale confirma a tese central da série, que esta temporada articula com mais força do que nunca: as pessoas primeiro competem. Mas quando o objetivo é nobre o suficiente, acabam se unindo. A cooperação entre Aleida, Dev e os soviéticos para encerrar a guerra — passando por cima de fronteiras, rivalidades e décadas de desconfiança — é a melhor versão dessa ideia que a série já produziu.

Conclusão
For All Mankind chegou à sua penúltima temporada mais forte do que nunca. A quinta temporada equilibra política, ação, drama familiar e ficção científica hard com uma habilidade que poucas séries conseguem sustentar por tanto tempo. Tem seus deslizes — a resolução do conflito marciano chega de fora, e a destruição simultânea das estufas e dos depósitos soa conveniente demais — mas são tropeços menores numa corrida bem conduzida.
Para os fãs de longa data, a temporada reserva ainda um momento silencioso e arrepiante: Avery Jarrett, uma das soldados da invasão, assume no finale o sobrenome Stevens. Dois filhos de Marte que cresceram juntos, separados pela guerra que os adultos construíram ao redor deles — e um nome que carrega o peso de um dos maiores sacrifícios que a série já mostrou. Quem acompanha desde o começo sabe exatamente quanto esse sobrenome custou.
A série ainda vai responder: Kelly sobrevive? Marte conquista independência? O que é aquela nave soviética se reativando em Titã? E o que significa, para a humanidade e para a fé de quem assiste, descobrir que não estamos sozinhos no universo — e que a vida pode ser algo muito mais estranho e mais vasto do que imaginávamos?
A sexta e última temporada tem muito trabalho pela frente. E, depois desta, há razão de sobra para confiar que ela está à altura.
Nota do Vini: 9/10 😄
Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, ficção científica e cultura geek em saladejustica.com.br. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.
Já assistiu For All Mankind? Se você ainda não entrou nessa nave, aviso: é difícil sair. E se já está a bordo, conta nos comentários — você acha que Kelly Baldwin sobrevive, ou a família vai terminar a série com o placar ainda mais desfavorável?
