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[Resenha] Crise Infinita: Quando o Multiverso Cobra a Conta

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Obra: Grandes Eventos DC: Crise Infinita (Infinite Crisis) Roteiro: Geoff Johns Arte: Phil Jimenez, George Pérez, Ivan Reis, Jerry Ordway Editora: DC Comics (edição brasileira: Panini Comics) Categoria: Quadrinhos / HQ — Evento


Introdução

Há obras que a memória trata com injustiça. Crise Infinita é uma delas — ao menos no meu caso. Li a história quando a Panini lançou a edição original no Brasil, e ela foi se apagando com o tempo, misturada na minha cabeça com outros eventos da DC. Quando peguei o encadernado desta vez, confesso que estava me preparando para reler a Crise Final — aquela história do Grant Morrison que, com todo o respeito ao talento inegável do escritor, eu acho genuinamente chata e confusa. (Opinião polêmica? Talvez. Mas o blog tem esse nome por algum motivo.)

Bastaram as primeiras páginas para me fazer lembrar: não, esta é outra Crise. E eu gosto desta.

Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

Sinopse

Crise Infinita é a sequência direta de Crise nas Infinitas Terras (1985–1986), o evento seminal que colapsou o multiverso DC em um único universo consolidado. Vinte anos depois — tanto no mundo editorial quanto na ficção —, as consequências daquele sacrifício começam a cobrar o preço.

O Superman da Terra-2, que se sacrificou junto com outros heróis para permitir a criação da nova Terra unificada, retorna — e não está satisfeito com o que vê. Em sua jornada, ele encontra a Poderosa, revelando que ela é na verdade a Supergirl da Terra-2, sobrevivente da Crise original. Ao explicar à jovem o que aconteceu com o multiverso, o Superman percorre a história recente da DC com olhos de quem esperava mais: a promissora era dos heróis redesenhados por John Byrne, George Pérez e a dupla DeMatteis/Giffen na Liga da Justiça… seguida por uma sequência de quedas. A Morte do Superman. A Queda do Morcego. O assassinato do Besouro Azul por Maxwell Lord. A execução de Maxwell Lord pela Mulher-Maravilha. O veredicto do velho herói é duro: esses heróis se perderam. E, portanto, não mereciam ter sido preservados.

Por trás de tudo, a história revela seus verdadeiros antagonistas: Alexander Luthor Jr., da Terra-3 — a Terra onde os papéis de heróis e vilões são invertidos, tornando sua traição uma ironia quase perfeita — e o Superboy Primordial. Juntos, eles manipularam eventos nos bastidores desde o início, com Alexander construindo uma máquina colossal a partir do cadáver do Anti-Monitor, alimentada pelas energias dos sobreviventes da Crise original, com o objetivo de restaurar o multiverso.

Quando a máquina finalmente funciona e a Terra-2 é recriada, o preço é imediato: Lois Lane, a esposa do Superman da Terra-2, morre. O velho herói, que sustentou toda sua cruzada na esperança de salvar a mulher amada, perde o controle. Os dois Supermans se enfrentam — até que a chegada da Mulher-Maravilha acalma os ânimos e os une em torno do problema maior: o horizonte agora fervilha com infinitas Terras surgindo simultaneamente.

Os heróis se dividem em múltiplas frentes. Os Titãs e a Sociedade da Justiça tentam deter o Superboy Primordial — e são massacrados. O Superboy descontrolado deixa um rastro de mortes e mutilações que é simultaneamente trágico e perturbador. Não pude deixar de me lembrar do episódio do Bob Esponja em que ele encontra o cinto encolhedor do Homem Sereia e sai encolhendo todo mundo na Fenda do Biquíni — a diferença é que o Superboy Primordial não está nem um pouco arrependido.

Os três Flashes — Wally West, Jay Garrick e Bart Allen — conseguem capturar o Superboy Primordial e arrastá-lo para dentro da Força de Aceleração, aprisionando-o lá. Apenas Jay retorna. A Força desaparece.

Com o Superboy temporariamente neutralizado, os heróis concentram forças contra Alexander Luthor Jr. — mas o Superboy escapa mais poderoso do que antes, exigindo que Alexander encontre e forje a Terra Primordial como a Terra perfeita. É o Asa Noturna quem pede ao Superboy Conner — o Conner Kent, o clone — que desmantele a máquina de Alexander. O Superboy Primordial intervém. A luta é brutal e termina com o sacrifício de Conner Kent: ele destrói a máquina ao custo da própria vida.

A destruição da máquina funde todas as Terras existentes em uma só: a Nova Terra. Mas a crise não termina aí — a Sociedade de Vilões montada por Alexander, que se passava pelo verdadeiro Lex Luthor, aproveita o caos para atacar. E o Superboy Primordial, enlouquecido, decide atacar Oa para resetar o universo inteiro. Ele é detido pelos dois Supermans — e o Superman da Terra-2, em seu sacrifício final, garante que o Superboy fique preso em Oa.

Com os vilões derrotados, os mortos enterrados e os ossos quebrados no processo de se curar, a história do Universo DC recomeça — de novo, e desta vez com um lampejo de otimismo. Superman volta a ter sido Superboy. Diana volta a ter fundado a Liga da Justiça. O assassino dos Wayne volta a ter sido identificado e preso. A continuidade foi ajustada, a essência reafirmada. A ameaça do Superboy Primordial, porém, ainda paira no horizonte.


Análise

O que funciona muito bem

A história acerta logo de saída ao reconectar o leitor com a Crise original de forma orgânica. Não é uma referência nostálgica gratuita — é uma continuação narrativa com consequências reais. Geoff Johns entende o peso daquele evento e usa esse legado com inteligência.

Um dos momentos mais poderosos da história é exatamente a sequência em que o Superman da Terra-2 apresenta à Poderosa o dossiê de fracassos dos heróis da nova Terra. Há algo de profético nessa cena — e o incômodo que ela provoca é intencional. O velho Superman está errado em suas conclusões e em suas intenções, mas há uma verdade inegável enterrada no seu argumento: heróis que deixam de agir como heróis deixam, em alguma medida, de ser heróis.

Geoff Johns usa o antagonista para dizer algo que a DC precisava ouvir em 2005 — e que continua pertinente hoje. A era que culminou na Crise Infinita foi marcada por histórias que privilegiavam as falhas, os traumas e as contradições dos heróis em detrimento do heroísmo em si. A execução de Maxwell Lord pela Mulher-Maravilha é o exemplo perfeito: justificável dentro da lógica da situação, mas profundamente reveladora de um momento em que os personagens estavam sendo escritos para agir como pessoas reais em vez de como heróis. E pessoas reais, convenhamos, já temos de sobra no telejornal.

O problema não é retratar heróis com falhas — isso é, aliás, o que os torna interessantes. O problema é quando as falhas passam a guiar as histórias no lugar do heroísmo, quando o arco narrativo padrão se torna “herói erra, herói sofre, herói talvez aprenda”. Queremos ver heróis que vencem porque estão do lado da Verdade e da Justiça. A grandeza de personagens como Superman não está na ausência de dificuldades, mas na recusa em se deixar dobrar por elas — na essência que permanece intacta independentemente da pressão.

A Crise Infinita tem o mérito de nomear esse problema. Se o Renascimento (Rebirth) que veio depois conseguiu resolver — pelo menos em parte — é outra discussão.

A revelação dos verdadeiros vilões — Alexander Luthor Jr. e o Superboy Primordial — é outro acerto. Ela não apenas explica os mistérios acumulados ao longo da história como conecta organicamente toda uma série de eventos anteriores que prepararam o terreno: Identity Crisis, o Countdown to Infinite Crisis, as minisséries The OMAC Project, Villains United, Day of Vengeance e Rann-Thanagar War. É o tipo de revelação que recompensa o leitor atento sem punir quem chegou sem esse contexto.

A ironia de Alexander Luthor Jr. é particularmente bem construída: ele vem da Terra-3, a Terra onde heróis e vilões trocam de lugar — onde o Luthor era o único ser bom. É quase poético que o “herói” da Terra do mal se torne o grande vilão da Terra do bem. Geoff Johns não desperdiça essa premissa.

A arte merece menção à parte. Phil Jimenez, George Pérez, Ivan Reis e Jerry Ordway entregam um trabalho de alto nível ao longo de toda a história, mas as capas de George Pérez merecem destaque especial — são um espetáculo à parte, especialmente para quem tenta identificar cada personagem representado. E identificar personagens obscuros, convenhamos, é um esporte nobre.

O que destoa

Há um elemento que me incomodou na primeira leitura e voltou a me incomodar agora: o Superman da Terra-2 “invadindo” a realidade da Terra-1 literalmente socando o universo. Eu entendo o apelo visual — é um Superman, ele soca coisas, é o que ele faz. Mas do ponto de vista narrativo, a solução parece preguiçosa. Uma fenda dimensional acidental, um eco residual da Crise anterior, qualquer coisa com um mínimo de lógica interna teria funcionado melhor. No universo de um evento que trata o multiverso com alguma seriedade, esse momento destoa.

É um tropeço pequeno numa história grande — mas é o tipo de coisa que não sai da cabeça.


Conclusão

A DC já fez vários reboots ao longo de sua história. Alguns funcionam, muitos não, e quase todos afastam os personagens da essência que os tornou icônicos. O padrão é quase previsível: algum evento ou reboot futuro acaba precisando restaurar o que o anterior descartou. E nós, leitores, ficamos nos perguntando para que serviu a mudança.

A resposta honesta é que as mudanças raramente atraem novos leitores. O que sempre atraiu novos leitores — e reteve os antigos — foram boas histórias. Comecei a ler DC depois da Crise original, sem ter vivido o início de nenhuma nova era, e me apaixonei assim mesmo. Não foi o reboot que me fisgou: foi a qualidade do que estava sendo contado.

Crise Infinita entende isso. É uma história que reconhece os excessos sombrios da era que a precedeu e usa esse reconhecimento como combustível narrativo — sem moralismo, sem discurso, apenas mostrando as consequências. E no final, com os heróis agindo como heróis, com sacrifícios reais e esperança genuína, ela entrega o que o leitor de quadrinhos de super-heróis foi buscar.

A arte de Phil Jimenez, George Pérez, Ivan Reis e Jerry Ordway merece registro final. Apesar dos vários artistas, a história mantém consistência visual impressionante — e as capas de Pérez são um espetáculo à parte. É uma arte clássica, que evoca a da Crise original sem ser uma cópia, do tipo que raramente se vê hoje, numa época em que traços caricatos e estilizados parecem ser a preferência editorial dominante. Quem tiver o prazer de tentar identificar cada personagem nas capas vai entender o que estou dizendo.

Que venha a Aurora DC — e que dessa vez eles não se desviem da essência. A história prova que, quando fazem certo, é muito bom.


Nota do Vini: 9/10 😄

Esta resenha é da edição Grandes Eventos DC: Crise Infinita, publicada pela Panini Comics em agosto de 2024.

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Vinícius Aragão Costa escreve sobre quadrinhos, ficção científica e cultura geek em saladejustica.com.br

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