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[Resenha] Marvel/DC: Spider-Man/Superman #1 (2026) — Quando o Aranha e o Homem de Aço colocam o papo em dia

Título: Marvel/DC: Spider-Man/Superman (2026) Número: #1 (versão Marvel) Publicação: Marvel Comics / DC Comics (crossover) Categoria: Quadrinhos / HQ — Crossover


Introdução

Crossovers entre Marvel e DC são raros o suficiente para justificar celebração — e raros o bastante para que a decepção doa mais quando não funcionam. A edição #1 do lado Marvel do encontro entre o Homem-Aranha e o Superman chega carregando o peso de duas mitologias, dois universos e décadas de especulação dos fãs sobre o que aconteceria se os maiores heróis de cada editora dividissem o mesmo painel. O resultado é irregular — mas guarda, em seu terço final, um dos momentos mais genuinamente emotivos que o crossover inter-editorial já produziu.


Sinopse

Novamente, a história supõe que ambos vivem no mesmo universo, como nos crossovers anteriores. A edição começa pelo meio da ação: Peter Parker e Clark Kent estão presos sob escombros, com o Superman enfraquecido. Antes que o Homem de Aço possa se recuperar, uma bomba-abóbora de kriptonita — marca registrada do Duende Verde — é lançada contra eles. Cabe ao Homem-Aranha, em uma demonstração de força e determinação digna do personagem, libertar ambos. Do lado de fora, uma coalizão de vilões que envergonharia qualquer lista de convocação da Liga da Justiça aguarda: Venom, Apocalypse, Rhino, Electro, Parasita, Doutor Octopus, Brainiac, Amazo, Exterminador e Kraven, unidos sob o comando de Lex Luthor e do Duende Verde. Os heróis vencem. O como fica em segundo plano — e intencionalmente.

O que a história realmente quer contar acontece depois da batalha: Clark Kent encontra Peter Parker no túmulo do Tio Ben. O que se segue é uma conversa sobre pais adotivos, responsabilidade, legado e o peso silencioso de ser quem eles são. A história termina com uma visita do Peter e da tia May à fazenda dos Kent — uma única página que vale pela ternura que concentra.

A edição também inclui mini-crossovers, com destaque para o encontro do Spider-Man Noir com o Superman da Era de Ouro em uma releitura da primeira aparição do Homem de Aço, com Luthor como antagonista e uma cena que recria a icônica capa de Amazing Fantasy #15 — desta vez com Clark e Lex no lugar de Peter e o ladrão. O desfecho, com o Jameson convidando Clark para trabalhar no Clarim por quase metade do salário do Planeta, é a piada mais certeira da edição.


Análise

É com alguma dor no coração que um DCnauta convicto precisa admitir: a Marvel fez o trabalho melhor aqui.

A primeira parte da história tem um problema estrutural evidente. Os roteiristas montam um exército de vilões que, no papel, seria capaz de desafiar os Vingadores e a Liga da Justiça simultaneamente — e então o descartam em questão de páginas, sem ao menos mostrar os confrontos. Há uma lógica narrativa nisso: o clímax real não é a batalha, é a conversa. Mas a transição é abrupta demais, e o leitor fica com a sensação de que a ameaça foi construída apenas para ser ignorada.

Dito isso, a primeira parte já é mais bem escrita do que o equivalente publicado pela DC — o que é um diagnóstico em si mesmo.

A metade final, porém, é onde a edição encontra sua voz. A cena no cemitério é rara porque trata os dois personagens como pessoas antes de tratá-los como ícones. Peter e Clark não estão comparando poderes nem competindo em sofrimento — estão reconhecendo um ao outro. Dois órfãos criados por pessoas que não precisavam amá-los, mas amaram. Dois homens que carregam esse amor como obrigação e como privilégio ao mesmo tempo. A cumplicidade que emerge dessa conversa tem a textura de uma amizade real, não de um encontro de celebridades em página dupla.

Vale destacar as contribuições dos responsáveis pela edição. Brad Meltzer, romancista que já deixou sua marca nos quadrinhos — Crise de Identidade não é um trabalho qualquer —, assina o roteiro com a mão firme de quem sabe construir diálogo. As escorregadas da primeira parte são reais, mas a conversa no cemitério tem a densidade e o ritmo de prosa literária, não de legenda de quadrinho. É claramente onde Meltzer estava com a cabeça quando sentou para escrever. No lápis, Pepe Larraz faz uma escolha que merece atenção: ao contrário da edição da DC, que optou por um traço mais clássico e reverente ao material de origem, Larraz não tenta emular nenhuma escola do passado. Seu traço é moderno, de linhas claras e cenas de ação bem definidas — e o domínio das expressões faciais, especialmente nas páginas do cemitério, é notável. Para mim, que não conhecia o trabalho dele, é uma descoberta que vale o preço da edição.

O mini-crossover com o Homem-Aranha Noir merece menção especial. A escolha de parear a versão noir do Aranha — moralmente mais ambígua, disposta a cruzar linhas que Peter normalmente não cruzaria — com o Superman da Era de Ouro cria um contraste interessante: o herói mais antigo, mais idealista, precisando convencer o mais cínico de que a justiça ainda vale a pena dentro das regras. A cena da capa relida é um aceno de amor à história dos quadrinhos que funciona tanto para quem conhece o material original quanto para quem está descobrindo agora.


Conclusão

Spider-Man/Superman #1 é uma edição desigual que acerta onde mais importa. A batalha é apressada, o exército de vilões é desperdiçado, e a estrutura da primeira metade parece existir apenas para justificar a chegada ao cemitério. Mas essa chegada — essa conversa entre dois homens que entendem o que é ser responsável por um mundo que nem sabe o seu nome verdadeiro — eleva a edição bem acima da média do gênero. Dá vontade de ler mais histórias assim: sem vilões, sem batalhas, apenas Peter e Clark colocando o papo em dia.

Para fãs dos dois personagens, é leitura obrigatória. Para quem conhece apenas um deles, é uma porta de entrada generosa para o outro.


Nota do Vini: 7,5/10 😊


Vinícius Aragão Costa escreve sobre quadrinhos, ficção científica e cultura geek em saladejustica.com.br

Se você sempre quis ver Peter Parker e Clark Kent tomando um café e reclamando da vida, essa edição é a mais perto que vamos chegar disso — e honestamente? Valeu a espera. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.

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