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[Resenha] Mestres do Universo (2026)

Direção: Travis Knight | Estúdio: Amazon MGM Studios | Ano: 2026 | Categoria: Filme


Por que este filme importa

Quarenta anos depois do desenho animado que marcou uma geração inteira, He-Man finalmente ganhou a adaptação live-action que sempre mereceu — ou quase isso. Mestres do Universo (2026) chega com orçamento generoso, um elenco competente e, aparentemente, respeito genuíno pelo material original. Na quinta-feira de estreia, o cinema estava lotado. O público estava ansioso. E, em boa parte do tempo, o filme entregou. O problema é o que ele fez com o que havia de mais essencial no personagem.


Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

Sinopse

O jovem príncipe Adam tem cerca de dez anos quando as forças do Esqueleto atacam o palácio de Etérnia. Seu pai, o rei Randor, fica para trás enfrentando o vilão enquanto a rainha Marlena leva o filho até o Castelo de Greyskull. A Feiticeira abre um portal para a Terra e entrega ao menino a Espada do Poder — mas no trajeto, Adam a perde.

Anos depois, ele finalmente recupera a espada e, pela primeira vez, grita as palavras que o público esperava desde o primeiro trailer: “Eu tenho a força!” A transformação em He-Man acontece, e o cinema vai abaixo em aplausos. Mas a vitória é breve: numa sequência de reveses, Adam perde a espada novamente, é capturado e precisa reencontrar aliados inesperados — entre eles os heróis que admirava na infância — para enfrentar o Esqueleto uma última vez.


O que funciona — e funciona muito bem

Vamos começar pelo que é inegável: visualmente, o filme é uma conquista. Etérnia está linda, com uma atenção aos detalhes que vai até as árvores de folhas vermelhas, igualzinhas às do desenho animado dos anos 1980. O CGI é de alto nível, e o Esqueleto em particular é um acerto absoluto — fiel ao visual clássico, ao mesmo tempo assustador e ridículo, exatamente como no original. Há uma piada com ele que é antológica: confrontado com a exigência de encará-lo nos olhos, ele responde que não tem cara, e que também não quer. O cinema veio abaixo.

A solução encontrada para os nomes dos heróis — Fisto, Aríete e Mekaneck — é elegante: na narrativa do filme, são apelidos infantilizados que o Adam inventou na infância e que, de tanto serem usados, viraram os nomes oficiais. Funciona. É o tipo de adaptação que respeita a inteligência do público sem ignorar que um adulto de 2026 pode achar estranho que guerreiros adultos se chamem assim sem motivo.

A Feiticeira e o rei Randor estão bem caracterizados. Idris Elba como Mentor tem presença de sobra. Camila Mendes como Teela cumpre bem o seu papel. As trocas de etnia e o gênero do Roboto — sim, robô tem gênero? — são mudanças que não comprometem nada de relevante.

Até aqui, o filme facilmente vale uma nota 9.


Onde o filme derrapa — e derrapa feio

O problema central de Mestres do Universo não está nos efeitos visuais nem no elenco. Está numa escolha de roteiro que revela uma incompreensão fundamental do personagem principal.

Na animação clássica, o príncipe Adam fingia ser covarde. Era uma máscara deliberada, no melhor estilo Clark Kent — o alter ego fraco e desinteressado existia para proteger a identidade do homem mais forte do universo. No filme de 2026, Adam é covarde de verdade. Quando criança, recusa o treinamento por medo. Adulto, hesita em assumir a Espada do Poder não por estratégia, mas por insegurança genuína. Quando finalmente se transforma em He-Man pela primeira vez e derrota facilmente o Mandíbula, o resultado é perturbador: parece um valentão batendo num adversário menor, não um herói defendendo os indefesos.

Boa parte do humor do filme se constrói sobre essa covardia. Ri-se do Adam, não com ele. Um herói precisa ser herói — e aqui o filme falha em seu dever mais básico.

A consequência direta é o desperdício do Mentor. Sem um herói para orientar, o personagem — traumatizado pela derrota para o Mandíbula — abandona seu papel e vira um companheiro de angústia, alguém para sentar ao lado do Adam e compartilhar inseguranças. Coube à Teela assumir a função de mentora. Não ficou terrível, mas ficou com aquele gosto de “espera, o Mentor não deveria ser o mentor?”

A rainha Marlena completa o quadro de desperdícios. No desenho, ela era uma astronauta que havia explorado o universo, acabado em Etérnia por acidente e se tornado rainha sem abrir mão da sua competência. Em um episódio memorável, ela assume o comando de uma nave e lidera a defesa do castelo, deixando o próprio He-Man de queixo caído. No filme, ela tem essencialmente duas cenas: uma despedida quando Adam é criança e um reencontro quando ele é adulto. Uma personagem feminina forte, com décadas de história, reduzida a pano de fundo.

Essas escolhas custam caro. A nota desta metade do filme não passa de 3.


Conclusão

Mestres do Universo (2026) é um filme que se divide em dois. A primeira metade — visual, atmosfera, vilão, humor situacional — entrega quase tudo o que um fã poderia querer. A segunda metade revela que os roteiristas não entenderam o que faz He-Man ser He-Man.

Adaptar uma obra para outro contexto histórico é legítimo e necessário. Mas adaptação bem-feita preserva a essência enquanto ajusta a superfície. O que o filme faz com o Adam não é adaptação — é substituição. Troca um herói que escondia sua força por um rapaz que precisava encontrá-la. É uma história diferente, com um personagem diferente, usando o mesmo nome e o mesmo visual.

O resultado final é um filme que provoca sentimentos conflitantes: empolgação genuína nos momentos em que acerta, e frustração igualmente genuína quando desperdiça o que tinha de melhor.

Recomendado para: Fãs nostálgicos que querem ver Etérnia na tela grande e estão dispostos a relevar as liberdades tomadas com os personagens. Crianças que não conhecem o original provavelmente vão adorar sem reservas.

Nota do Vini: 6,0/10 🙂


Vinícius Aragão Costa escreve sobre cultura geek, ficção científica e quadrinhos em saladejustica.com.br. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.

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