
Série: Star City Plataforma: Apple TV+ Gênero: Drama histórico / Ficção científica Ano: 2026 Spin-off de: For All Mankind
Introdução
Quando For All Mankind estreou na Apple TV+, sua proposta era audaciosa: e se a União Soviética tivesse chegado à Lua primeiro? A série reescreveu a história da corrida espacial com maestria, mas sempre com os olhos voltados para o lado americano da disputa. Star City chega para preencher a lacuna — e faz isso com uma competência que, em vários momentos, supera o material de origem.
A série se passa em Zvyozdny Gorodok, a “Cidade das Estrelas” real, complexo fechado nos arredores de Moscou onde viviam e treinavam os cosmonautas soviéticos. Mais do que um spin-off, Star City é quase um gênero diferente: menos corrida espacial, mais drama humano sobre o custo de tentar fazer algo grandioso dentro de uma máquina que não se importa com grandeza, apenas com controle.

Sinopse
A série acompanha, em paralelo, diversas histórias entrelaçadas dentro e ao redor do programa espacial soviético: Irina Morozova, jovem analista de vigilância cuja trajetória rumo à agente da KGB que conhecemos em For All Mankind é contada aqui passo a passo; Anastasia Belikova, a primeira mulher a pousar na Lua, que descobre que sua conquista histórica a transformou em propriedade do Estado; o Projetista Chefe, engenheiro visionário que tenta conduzir uma missão secreta a Vênus sob o nariz dos burocratas; e Valya e Tanya Mironov, cujo casamento é destruído quando Valya é chantageado a se tornar espião americano.
Ao fundo, constante e sufocante, a paranoia soviética: escutas em todos os lares, testes de lealdade disfarçados de acasos, vidas inteiras subordinadas à narrativa que o regime precisa contar.

Análise
A paranoia como personagem
Star City entende algo que muitas séries sobre o período perdem: o totalitarismo não é apenas cruel, é banal. A crueldade não vem de vilões com discursos grandiosos, mas de procedimentos. Uma oficial que manda uma mulher se vestir às três da manhã sem explicar o motivo. Um crachá que precisa ser apresentado ao sair do complexo no fim do expediente. Analistas que escutam, em tempo real, as brigas domésticas de pessoas que poderiam ser suas amigas.
Essa banalidade é o coração da série. A cena que resume tudo vem do episódio 6, quando Sasha Polivanov, segurando a mão de Chadha enquanto ela percebe ter sido manipulada, diz simplesmente: “não é culpa sua, é assim que eles agem — colocam uns contra os outros.” Não há discurso, não há manifesto. Apenas o diagnóstico claro de uma engrenagem que não precisa de vilões para funcionar, apenas de pessoas em posições impossíveis.
Personagens que crescem ao contrário
O arco mais poderoso da temporada é o de Irina Morozova — e sua força vem de ser um crescimento às avessas. Conhecemos sua versão futura em For All Mankind: fria, calculista, implacável. Star City nos mostra a mulher antes da armadura. A Irina desta temporada ainda sente remorso. Ainda hesita. Ainda vai até a casa de Tanya Mironov com um passe forjado porque não consegue ser completamente o que o sistema quer que ela seja.
E então a vemos, episódio a episódio, ceder. Não de uma vez. Não dramaticamente. Em pequenos passos, cada um deles justificado, cada um deles razoável nas circunstâncias — até que ela já não é mais a jovem analista que se recusou a atirar no primeiro episódio.
Anastasia Belikova é o outro grande arco trágico. Ela alcançou o impossível e perdeu tudo com isso: sua liberdade, sua identidade, sua vida como a conhecia. A série tem a inteligência de mostrar que o regime não precisava puni-la — bastava usá-la. E quando ela, já resignada, começa a se apaixonar pelo marido que lhe foi imposto, a série torciona a faca: o regime lhe deu algo real, e ela sabe que isso também não lhe pertence.

A missão Venera: ficção e história
A missão secreta a Vênus é o fio condutor da segunda metade da temporada, e é onde Star City faz sua jogada mais ousada. Na história real, as sondas soviéticas Venera foram as primeiras a pousar em Vênus — e os dados que transmitiram antes de serem destruídas pela pressão e temperatura do planeta são, até hoje, os únicos que temos da superfície venusiana. A série se apropria desse fato e o transforma em drama humano: Valya Mironov, espião involuntário e marido traído, encontra uma saída desesperada ao embarcar na missão — e acaba sendo o único a realmente pousar em Vênus, por alguns segundos, antes de a batisfera ser esmagada.
É uma morte sem testemunhas, sem registro oficial, sem reconhecimento. Perfeita para uma série sobre pessoas apagadas pela história que seus próprios países escrevem.
Os americanos não são os mocinhos
Star City tem o cuidado de não transformar a Guerra Fria em parábola simples. A espiã americana que recruta Valya o faz com promessas que não pretende cumprir, colocando a vida de ambos em risco sem remorso. Tanya, em Paris, vive sob vigilância constante de Celine — libertada de um sistema opressor para ser monitorada por outro. A série não equipara os dois lados moralmente, mas recusa-se a deixar qualquer um sair limpo.
A única reclamação
A série é filmada e falada inteiramente em inglês. Em 2010, essa seria uma decisão comercial compreensível. Em 2025, depois que Squid Game e La Casa de Papel normalizaram definitivamente a experiência de assistir em outro idioma, soa como conservadorismo desnecessário de estúdio. Uma dublagem em russo disponível como opção — algo que a Apple poderia perfeitamente bancar — teria elevado ainda mais a imersão numa série que, em tudo o mais, não poupa esforços para ser autêntica.

Conclusão
Star City é uma série sobre o custo de sonhar dentro de um sistema que não tolera sonhos que não sirvam ao Estado. É sobre pessoas que tentam explorar o universo e são usadas, vigiadas, sacrificadas e apagadas por um governo que só se interessa pelo espaço enquanto ele for uma vitrine. É, também, sobre como sistemas assim não precisam de monstros — precisam apenas de procedimentos, e de gente suficientemente assustada para segui-los.
Para quem assiste For All Mankind, é imperdível: a série acrescenta uma dimensão inteira à história que já conhecemos, e entrega alguns dos melhores personagens do universo. Para quem não conhece a série de origem, Star City funciona perfeitamente por conta própria — basta estar disposto a assistir a algo que não oferece heróis nem vilões nítidos, apenas seres humanos tentando sobreviver a uma máquina maior do que qualquer um deles.
Nota do Vini: 9,5/10 🤩
Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br
Essa temporada prova que às vezes o lado de trás da história é mais interessante do que a fachada. Se quiser continuar essa conversa, nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog — e não se esqueça: se você leu até aqui sem pular nenhum parágrafo, tecnicamente você já está qualificado para analista de vigilância soviético. Use esse poder com responsabilidade.
