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[Artigo] Trinta Anos de Reino do Amanhã: Precisamos de Outra Profecia

Em 1996 eu tinha uma rotina sagrada: passar quase todo dia na banca de revistas na porta da escola, só para ver se tinha chegado alguma novidade. Foi lá, folheando um número da Wizard, que eu e a turma de nerds da sala descobrimos que a DC estava prestes a publicar algo diferente de tudo que já tínhamos visto — uma minissérie pintada a guache, com um Superman grisalho e uma promessa que parecia grande demais para ser verdade. Lembro do dia exato em que a última edição chegou na banca. Comprei sem nem contar o troco direito, ansioso para saber como terminava aquela pancadaria entre Superman e o Capitão Marvel — e não me venham com “Shazam”, que para mim o nome do herói sempre foi Capitão Marvel.

Trinta anos depois, Reino do Amanhã continua sendo, para mim, o maior acontecimento que testemunhei nos quadrinhos. E hoje, relendo aquela história, tenho a incômoda sensação de que precisamos dela de novo.

O quadrinho que nasceu para conter uma enchente

Mark Waid e Alex Ross não escreveram Reino do Amanhã no vácuo. O início dos anos 1990 tinha inundado as bancas com uma geração de heróis definidos por músculos, dentes cerrados e bandoleiras de armas — a onda que a Image Comics ajudou a popularizar, com anti-heróis que resolviam tudo na base da violência, sem culpa, sem remorso e, principalmente, sem responsabilidade por quem ficava no meio do fogo cruzado. Justiça tinha virado sinônimo de força bruta, e o público parecia aplaudir.

Reino do Amanhã pegou essa lógica e levou às últimas consequências dentro da própria ficção. Magog e a nova geração de “heróis” matam o Coringa depois de um massacre no Planeta Diário — e o público os absolve num julgamento popular. Diante disso, Superman, enojado com o que a humanidade tinha se tornado, simplesmente se retira. Não é um vilão externo que afasta o maior herói do mundo: é a própria sociedade, aplaudindo quem age sem princípios.

Um símbolo que precisa significar alguma coisa

O que torna a minissérie inesquecível não é só a crítica ao excesso dos anos 90 — é a reafirmação de que o símbolo no peito de Superman precisa significar algo além de poder. Quando ele finalmente volta, dez anos depois, para conter a nova geração de meta-humanos descontrolados, o conflito real não é de força: é de valores. A Mulher-Maravilha o empurra para um caminho mais autoritário; Batman lidera uma resistência que desconfia de qualquer solução coletivizada, mesmo vinda de aliados. Superman está preso entre duas tentações — a rendição e o autoritarismo — e o que salva a história de virar só mais uma fábula sobre poder é a insistência de Waid em tratar heroísmo como escolha moral, não como capacidade de vencer uma briga.

Foi exatamente essa cena, aliás, que eu esperava ansiosamente naquela banca em 1996: o confronto entre Superman e Capitão Marvel, manipulado por Lex Luthor para golpear justamente o único herói capaz de igualá-lo em poder. Não é uma luta de vilão contra mocinho. É a tragédia de dois homens bons manipulados pelo pior tipo de vilão: aquele que nunca precisa sujar as próprias mãos.

A inversão que estamos vivendo agora

É por isso que a releitura, em 2026, dói mais do que nostalgia. Se Reino do Amanhã nasceu para responder a uma geração de heróis violentos e sem escrúpulos, o que vemos hoje é quase o oposto — e não menos perigoso. Trocamos o herói brutal pelo herói paralisado: inseguro, cheio de falhas, incapaz de proteger quem quer que seja porque está ocupado processando o próprio trauma. E trocamos o vilão sem remorso pelo vilão vítima, cujas atrocidades são explicadas — e frequentemente desculpadas — por uma infância difícil ou um abuso sofrido.

O resultado é uma narrativa que evapora a responsabilidade pessoal de todo mundo. O herói não é herói porque “ninguém é perfeito”; o vilão não é vilão porque “a sociedade o fez assim”; e, no meio do caminho, a vítima muitas vezes acaba sendo culpada por não ter compreendido o algoz o suficiente. Não é complexidade moral — é a ausência dela, maquiada de sofisticação.

Reino do Amanhã funcionou porque nunca confundiu as duas coisas. Magog tinha trauma, tinha justificativa, tinha até razão em alguns pontos — e ainda assim a história não hesitava em dizer que ele estava errado, e que a redenção dele passava por reconhecer isso, não por ser compreendido. Superman cometia erros de julgamento, mas nunca deixava de ser, em essência, um herói. É essa distinção — entre ter falhas e ser definido por elas — que os quadrinhos de hoje parecem ter esquecido.

O que ainda podemos aprender com 1996

Talvez não precisemos literalmente de outra minissérie apocalíptica com o Espectro guiando um pastor por visões do futuro. Mas precisamos, com urgência, do espírito que animou aquela história: a convicção de que o leitor não quer só poder na tela — quer inspiração. Quer heróis que sejam bússola, não espelho da própria confusão moral do mundo. Trinta anos depois, Alex Ross e Mark Waid ainda têm mais a nos ensinar sobre o que significa ser herói do que boa parte do que sai nas prateleiras hoje.

Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.

Se você também comprou aquela edição na banca da esquina em 96, sabe do que estou falando — e se não comprou, ainda dá tempo de descobrir por que essa história continua incomodando trinta anos depois. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.

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