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[Conto] Redenção – Ato 3

🎶 Para ler ouvindo: Batman: The Dark Knight Returns (Original Motion Picture Soundtrack)
Recomendação etária: 16 anos

Índice: Ato 1 | Ato 2 | Ato 3 | Ato 4 (15/8)

Ato 3 — O Asas de Couro


Não fui atrás dele.

Foi a única vez, em toda a guerra, que isso aconteceu. Eu tinha terminado com o Soldado de Ferro, com a Áurea, com o Mola, e seguia para o próximo ponto do meu próprio plano — outro continente, outro grupo de heróis esperando o que pensavam ser inevitável. Atravessava uma extensão de terra que não tinha nome em nenhum mapa que me importasse: rocha vermelha, vento seco, nenhuma cidade a centenas de quilômetros em qualquer direção. Eu nem sequer estava prestando atenção. Era só caminho.

Foi por isso, eu entendi depois, que ele escolheu aquele lugar.

O Asas de Couro não tinha poderes. Não tinha super força, não tinha velocidade, não tinha nada que o colocasse no mesmo patamar dos outros que eu havia enfrentado. O que ele tinha era paciência, e inteligência, e a disposição de esperar o momento em que eu estivesse em algum lugar onde ninguém além de nós dois pudesse se machucar.

Ele não me atacou numa cidade. Ele me esperou no deserto.

Ouvi primeiro o som — um rugido grave, mecânico, que crescia atrás de mim como uma tempestade que decidiu ter motor. Virei a tempo de ver aquilo descendo do céu: uma coisa do tamanho de um prédio pequeno, todo metal escuro e ângulos agressivos, pousando com o peso e a precisão calculada de uma nave projetada para não errar. O impacto no chão levantou uma nuvem de poeira que demorou a assentar.

Quando assentou, eu já sabia o que estava vendo.

Reconheci os traços antes mesmo de processar o que significavam. Os ombros largos, as juntas reforçadas, o brilho azulado nos núcleos de energia distribuídos pelo corpo da máquina — era a mesma linguagem de design da armadura do Soldado de Ferro, mas distorcida, ampliada, militarizada até o ponto de irreconhecível. Onde a armadura dele havia sido feita para proteger um homem, aquilo havia sido feito para derrubar um deus.

A ironia não me escapou. Ele havia estudado meu trabalho — ou os destroços que deixei dele — e usado contra mim.

— Você devia ter ficado longe — eu disse.

A voz que respondeu veio de um alto-falante na armadura, distorcida, mas firme.

— Você devia ter parado.

E avançou.


Os primeiros golpes que troquei com ele foram diferentes de tudo que eu havia sentido até ali.

Não porque doessem mais — embora doessem, mais do que eu esperava de uma máquina pilotada por um homem comum. Era a precisão. Cada soco vinha calculado, cada movimento parecia ter sido ensaiado contra um adversário exatamente como eu, como se ele tivesse passado anos imaginando aquele confronto específico e construído cada peça daquela armadura em resposta a uma pergunta: o que eu faria se tivesse que lutar contra um deus?

Trocamos golpes que abriam crateras na rocha vermelha. Cada impacto gerava uma onda de choque visível, um anel de poeira e pedra se expandindo a partir do ponto de contato, derrubando as poucas formações rochosas que existiam naquele lugar como se fossem castelos de areia.

A armadura absorvia o que eu mandava. Não sem dano — eu via os painéis se deformando, as juntas começando a falhar em pontos específicos — mas absorvia. E eu, através do metal, sentia algo que me intrigava: o homem lá dentro sentia cada golpe. Suavizado, distribuído, amortecido por um sistema que claramente havia sido desenhado para isso. Mas sentia. Eu podia perceber pela forma como os movimentos dele ficavam, a cada round, um pouco mais lentos. Um pouco mais doloridos.

Ele deveria ter desistido. Qualquer ser racional teria desistido.

Não desistiu.

E foi nesse ponto que percebi algo que me incomodou mais do que qualquer golpe: aquela armadura, se eu a subestimasse, poderia me derrotar. Não pela força — eu tinha mais força. Mas pela engenhosidade. Cada sistema que falhava parecia ter um sistema de backup. Cada brecha que eu abria já tinha sido prevista e contida.

Comecei a lutar com mais cuidado.

Foi exatamente o que ele esperava que eu fizesse.


A brecha que ele estava esperando chegou quando eu menos esperava.

Um dos meus golpes acertou um ponto da armadura que eu não havia visado de propósito — um painel no peito, próximo ao centro, que se abriu com um estalo metálico e expôs algo por baixo. Não tive tempo de entender o que era antes de ele aproveitar a abertura que minha própria força havia criado.

Um compartimento na armadura se ejetou.

Era pequeno, do tamanho de um rifle, com um brilho que eu reconheci tarde demais como o mesmo brilho violáceo da arma que o Asas de Couro do meu universo havia usado contra mim, há tanto tempo, num mundo que eu já não conseguia mais acreditar que existira.

Ele só tinha uma carga. Eu vi isso no jeito como ele segurou a arma — não como alguém que tinha margem para erros, mas como alguém jogando a única peça que tinha no único momento em que ela poderia funcionar.

Não recuei.

Avancei, como sempre avançava, como tinha avançado contra a Áurea e o Soldado de Ferro e o Mola e todos os outros antes deles, com a certeza absoluta de que nada que viesse na minha direção importava o suficiente para me deter.

Ele disparou.

E pela primeira vez em toda a guerra, eu senti algo que não conseguia nomear: o poder simplesmente saindo de mim, como areia escorrendo entre dedos que eu não sabia que estavam abertos. As pernas falharam antes que eu entendesse o que estava acontecendo. Caí com um impacto que, em qualquer outro dia, teria sido insignificante, e que naquele dia foi como cair de muito alto sobre rocha dura, porque eu já não tinha nada para amortecer a queda.


Vi a armadura se abrir através de uma visão que já não era a mesma — embaçada, lenta, mortal.

Ele saiu de dentro dela com dificuldade visível. A armadura ficou parada atrás dele, imóvel, como um gigante que tinha acabado de adormecer no meio da própria função. O homem que emergiu era menor do que eu esperava — não fisicamente pequeno, mas reduzido pelo esforço, encurvado, um braço claramente fraturado pendendo ao lado do corpo.

Caminhou até mim assim mesmo. Cada passo parecia custar algo que ele não tinha mais para dar.

Quando chegou perto, parou. Olhou para mim, caído na rocha vermelha, sem poder, sem nada além de um corpo que de repente pesava como qualquer outro corpo.

Puxou algo do cinto — uma lâmina pequena, em forma de morcego, afiada o suficiente para refletir o pouco de luz que havia naquele lugar abandonado pelo mundo.

Ergueu o braço.

E parou.

Eu vi o momento exato em que parou — vi nos olhos dele, através do capuz rasgado, algo que reconheci antes de entender por quê. Ele estava olhando para o meu rosto, e por um instante — só um instante, mas instantes foram tudo que eu precisava — ele não estava vendo o que eu tinha feito. Estava vendo alguém que ele havia conhecido. Um amigo. Talvez o próprio Solum do universo dele, ou algo perigosamente parecido o suficiente para fazer a mão hesitar.

Foi só isso. Uma hesitação.

Mas naquele instante eu já estava recuperando o que a arma havia roubado — não tudo, não de uma vez, mas o suficiente. Senti a força voltando aos braços, às pernas, ao núcleo de mim mesmo que aquela radiação havia silenciado por segundos demasiado longos para ele e demasiado curtos para mim.

Levantei.

Chutei antes que ele pudesse recuar a lâmina. O impacto o lançou por uma distância que eu nem me dei ao trabalho de calcular — ele desapareceu na poeira vermelha como um projétil, e eu já estava me movendo atrás dele, em velocidade que ainda não era a minha velocidade de costume, mas que era mais do que suficiente.

Encontrei-o caído, tentando se arrastar, o braço fraturado deixando um rastro irregular na terra.

— Você deveria estar do meu lado — eu disse, parando sobre ele. — Juntos, seríamos invencíveis. O universo nos temeria.

Ele ergueu os olhos para mim. Não havia mais nada de hesitação ali. Havia apenas o ódio cansado de quem sabia que tinha falhado.

— Mas você é fraco — continuei — e por isso não conseguiu terminar o trabalho.

Atravessei o peito dele com a mão.


Fiquei ali por mais tempo do que deveria, olhando para o corpo, para a armadura imóvel ao longe, para o deserto vermelho que ninguém além de nós dois jamais saberia que tinha sido um campo de batalha.

Não senti nada na hora. Não senti orgulho, não senti satisfação, não senti nem mesmo o alívio de ter sobrevivido à única luta que realmente me ameaçara.

Só anos depois, vagando entre os escombros de um mundo que eu mesmo tinha deixado sem ninguém, entendi o que aquela hesitação significava.

Ele tinha visto o rosto de um amigo no rosto de um monstro.

E eu tinha matado o amigo dele uma segunda vez, só para provar que ainda podia.


Fim do Ato 3

Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.

Você chegou até aqui e ainda não sabe tudo. O Ato 4 chega no próximo sábado — e Novarca nunca mais vai ser a mesma. Enquanto isso, debata, questione e compartilhe: a história merece ser lida em voz alta. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.

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