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[Resenha] X-Men ’97 — 2ª Temporada

Título original: X-Men ’97 — Temporada 2
Categoria: Séries / Animação
Ano: 2026
Episódios: 9

Introdução

Fechar uma temporada de X-Men sempre me deixa com aquela sensação estranha e familiar: a de saber que, no fim, tudo vai desandar de novo, porque é assim que os X-Men funcionam desde 1963. Paz conquistada a duras penas, destruída no episódio seguinte por um novo vilão, um novo preconceito, uma nova tragédia. Quantas vezes a Mansão Xavier já foi destruída mesmo? É frustrante e, ao mesmo tempo, é exatamente por isso que a fórmula nunca cansa: ela reflete algo real sobre uma luta que nunca termina de verdade.

A segunda temporada de X-Men ’97 entendeu isso perfeitamente. Peguei confiança nela já nos primeiros minutos do episódio 1, quando um dos personagens, ainda no ano de 3000 a.C., solta a frase que resume o espírito de tudo que a série está tentando fazer: “Precisamos levar os X-Men de volta aos anos 90.” Nove episódios depois, posso dizer com segurança: eles levaram.

Sinopse

A temporada retoma os X-Men logo após os eventos traumáticos do final da primeira leva de episódios, com o grupo fragmentado entre o presente, um futuro sombrio e um passado ainda mais distante. Enquanto tentam se reencontrar, a equipe lida com o vácuo de poder deixado por sua ausência, com o surgimento de facções rivais disputando o espaço de liderança mutante, e com a ascensão silenciosa de uma ameaça que estava lá desde o início, esperando o momento certo. No meio disso, velhas feridas — perdas, traições, laços familiares complicados — voltam à tona, e cada X-Man precisa decidir, mais uma vez, o que está disposto a sacrificar pela causa.

Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

Análise

A estrutura serializada, e por que ela funcionou

Diferente de outras fases da franquia que tentam equilibrar episódios autocontidos com uma mitologia maior, essa temporada apostou pesado no plot serializado, e a aposta valeu a pena. Cada episódio empurrou a bola pra frente: a revelação de Rama Tut como Kang, a fundação da Corporação X, a ressurreição de Gambit, o cisma entre X-Factor e X-Force, tudo isso se encaixou no final sem parecer forçado. É raro uma temporada de nove episódios conseguir amarrar tantas pontas soltas com essa fluidez — e olha que ainda sobrou espaço pra plantar sementes pra próxima temporada, como o “sacrifício” ambíguo do Noturno e a dúvida deixada em aberto sobre Val Cooper.

Os melhores episódios

Se eu tivesse que apontar o topo da temporada, ficaria com um pódio de três: o episódio 3 (“En Sabah Nur, ex-escravo, versus faraó Rama Tut — que na verdade é Kang, o Conquistador”), pela forma elegante como entregou uma das maiores reviravoltas da mitologia Marvel sem precisar de exposição alguma; o episódio 7 (“Terra Estranha, Coração Selvagem”), pelo julgamento improvisado do Creed e pela coragem de tocar em temas políticos sensíveis sem cair em maniqueísmo fácil; e o episódio 9, o final, que fechou o arco com sacrifício, reviravolta e um vilão finalmente contido — mesmo sem ter a mesma densidade dramática dos dois anteriores.

No outro extremo, o episódio 6 (“Perigo.exe”) foi, de longe, o mais fraco. A Sala de Perigo se revoltando contra seus criadores é um tema batido, e aqui ele foi tratado quase que ipsis litteris ao clichê, sem nenhuma reinvenção. A estética herdada da fase Grant Morrison — uniformes incluídos — também não ajudou; é uma fase dos quadrinhos que particularmente nunca me conquistou, e isso pesou na avaliação.

Noturno: o X-Man da temporada

Se tivesse que escolher um personagem pra representar essas nove semanas, seria fácil: foi a temporada do Noturno. E olha que não é fanatismo cego — ele é meu X-Man favorito desde sempre, mas a série deu motivos concretos pra isso ficar ainda mais evidente. Foram pelo menos quatro episódios em que ele carregou as melhores cenas de ação sozinho, teleportando entre inimigos, duelando de espada contra outro teleportador (o Exodus, no episódio 7), lutando, dominado pelo Apocalipse, contra praticamente toda a equipe X ao mesmo tempo (episódio 8) — e em nenhum momento isso pareceu repetitivo, porque cada uma dessas cenas vinha acompanhada de caracterização.

O ápice, claro, foi o julgamento improvisado do Creed na Terra Selvagem: paciência, inteligência tática, ausência total de preconceito e um discurso de defesa que humanizou o ódio do vilão sem jamais justificar seus crimes. É o tipo de cena que só funciona porque o personagem já tem lastro construído — e o fato de ele ser abertamente cristão só reforça por que ele sempre foi, pra mim, o coração moral do grupo.

E então veio o final. O sacrifício do Noturno no santuário da Nave, tomando o lugar de Vampira, fechou a temporada da forma mais justa possível para o personagem: um gesto silencioso, sem grandes discursos, coerente com tudo que ele representou ao longo dos nove episódios. Suspeito — e espero — que ele volte na próxima temporada; o próprio desfecho deixou isso em aberto, já que em nenhum momento foi mostrado que ele de fato morreu. Não teria o mesmo peso dramático da morte do Gambit na primeira temporada (ele é, afinal, um personagem menos popular no grande público), mas dentro da lógica interna dessa temporada, funcionou muito bem.

Outros destaques de elenco

Jubileu teve um arco de reabilitação interessante — depois de anos sendo tratada como personagem decorativo nos quadrinhos e adaptações, a série insistiu, ao longo da temporada, em mostrar que ela não é inútil. Às vezes exagerou na mão (a fuga da prisão do episódio 2 é fisicamente difícil de engolir), mas o saldo é positivo: ela também se consolidou como a bússola moral da X-Force, puxando Mancha Solar junto com ela quando o Cable cruzou a linha.

Colossus ganhou um arco de luto bem construído — a morte da irmã em Genosha o empurrando para os Acólitos foi crível, e seu retorno aos X-Men no final não pareceu abrupto.

Wolverine, por outro lado, teve um arco quase silencioso. A recuperação do adamantium — um dos grandes traumas da primeira temporada — foi resolvida en passant já no episódio 5, sem o peso dramático que o momento poderia ter tido, e o personagem seguiu como um coadjuvante discreto pelo resto da temporada. Não é necessariamente um defeito: dá espaço pra outros membros do elenco brilharem (o próprio Noturno é a prova disso), mas chama atenção que o X-Man mais icônico da franquia tenha ficado tão em segundo plano justamente na temporada em que seu próprio trauma foi resolvido.

Val Cooper fecha a temporada com uma dúvida plantada pro próximo capítulo: a cena pós-créditos revela que ela foi trocada pela Mística disfarçada, num momento em que assistia às notícias sobre a eleição de Graydon Creed à presidência — uma informação de contexto, sem qualquer indício de que a própria Cooper (ou a impostora) tenha tido participação nesse resultado eleitoral. Fica em aberto, isso sim, uma dúvida mais interessante: a troca aconteceu ali, naquele exato momento, ou a Mística já estava infiltrada havia mais tempo, disfarçada de Val Cooper ao longo de boa parte da temporada? É o tipo de ambiguidade que só a próxima temporada vai resolver.

E claro, Kang/Rama Tut foi a grande surpresa estrutural da temporada — plantado desde o episódio 3, pagou o investimento ao aparecer disfarçado de vilão paralelo ao Apocalipse, reforçando que a série está pensando em arcos de longo prazo.

Um detalhe pequeno, mas que merece registro: a temporada faz um retcon discreto e insere Polaris na formação original dos X-Men, ao lado de Ciclope, Jean, Fera, Homem de Gelo e Anjo — grupo que, nos quadrinhos, sempre teve a Jean como única mulher. É uma mudança claramente pensada para aumentar a representatividade feminina naquele momento fundacional da equipe, e funciona muito bem, porque foi feita com inteligência: usar uma personagem já consagrada, mas não popular o suficiente para gerar atrito ou soar como imposição, é o jeito certo de fazer esse tipo de ajuste. Prova, de quebra, que o problema nunca foi diversidade em si — nenhum nerd conservador de verdade tem implicância com isso. O problema é quando a mudança destrói a essência do personagem do nada, como fizeram nos quadrinhos ao “descobrir” a orientação sexual do Homem de Gelo sem qualquer construção narrativa anterior. Aqui, mais uma vez, a série mostrou que sabe a diferença entre evoluir e desfigurar.

Pontos positivos

  • Plot serializado bem amarrado, sem pontas soltas relevantes
  • Fidelidade consistente à essência dos personagens, mesmo quando a superfície muda (o próprio Apocalipse é um bom exemplo: vilão por escolha, não por circunstância)
  • O retcon que incluiu Polaris na formação original dos X-Men — representatividade bem-feita, sem sacrificar a essência de ninguém
  • Coragem de tratar temas políticos sensíveis sem virar panfleto
  • Cenas de ação de altíssimo nível, com destaque recorrente pro Noturno
  • Easter eggs profundos que recompensam quem acompanha os quadrinhos há décadas, sem depender deles pra funcionar

Pontos negativos

  • O episódio 6 destoou do nível geral, recorrendo a um clichê batido sem reinvenção
  • Algumas conveniências de roteiro pontuais (os dispositivos de viagem no tempo do episódio 4, o Bishop retornando sozinho)
  • As habilidades de luta da Jubileu, em certos momentos, ultrapassaram o limite do crível dentro da própria continuidade da personagem
  • Um trauma tão relevante quanto a perda do adamantium do Wolverine foi resolvido rápido demais, deixando o personagem em segundo plano pelo resto da temporada

Conclusão

Fechada essa segunda temporada, fica cada vez mais difícil discordar de uma coisa: X-Men ’97 é, hoje, sem sombra de dúvida, o melhor material de X-Men disponível — superior, inclusive, ao que os quadrinhos atuais têm entregado. A série conseguiu o que muita gente achava impossível: recuperar o espírito dos anos 90 sem cair em nostalgia vazia, entregando personagens complexos, arcos bem estruturados e um respeito evidente pelo material de origem. Resta a pergunta que fecho esse texto fazendo, sem resposta ainda: será que o futuro dos X-Men no MCU vai chegar perto disso?

Notas por episódio

EpisódioNota
18,0
27,5
39,0
47,0
57,0
65,5
79,0
86,0
99,0

Nota do Vini: 7,6/10 😊


Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.

E aí, você também acha que essa foi a temporada do Noturno, ou tem outro X-Man que roubou a cena pra você? Não guarda essa opinião pra Sala de Perigo — solta ela nos comentários!

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