Há uma cena, em um episódio da segunda temporada de Dark Matter (Apple TV+), que eu sei que foi escrita para ser sedutora. Jason Dessen e Daniela vivem, com o filho Charlie, num mundo alternativo que os dois descrevem como perfeito: não houve as duas Guerras Mundiais, não houve Guerra Fria, e o desenvolvimento tecnológico seguiu um ritmo tão mais lento que em 2026 esse mundo mal está lançando seu primeiro computador pessoal, com uma base tecnológica equivalente à dos anos 1970 do nosso mundo real. Sem internet, sem celular, as pessoas se olham nos olhos, conversam de verdade, vivem — segundo Jason e Daniela — melhor.
É uma leitura comum, e eu entendo o apelo emocional dela. Mas é também, na minha opinião, uma leitura preguiçosa, porque trata a corrida tecnológica do século XX como se ela tivesse produzido basicamente uma coisa — computadores — quando na verdade produziu uma reconfiguração completa da capacidade humana de manter gente viva. Tirar a Guerra Fria da equação não tira um smartphone da mão de um adolescente entediado. Tira, silenciosamente, uma fatia enorme da população mundial que hoje simplesmente existe porque sobreviveu à infância, a uma cirurgia, a uma safra ruim ou a uma epidemia. Vamos fazer essa conta.
O Que a Corrida Armamentista Realmente Comprou
Quando pensamos em “tecnologia da Guerra Fria”, o reflexo automático é o computador, o satélite, o míssil. Mas o efeito mais profundo da competição entre blocos não foi armamentista — foi biológico e agrícola, e ele começou muito antes de qualquer microchip.
A Revolução Verde — o pacote de sementes de alto rendimento, fertilizantes sintéticos em escala industrial e mecanização agrícola que multiplicou a produtividade de lavouras inteiras entre os anos 1950 e 1970 — não foi financiada por acaso. Foi financiada, em grande parte pela Fundação Rockefeller e depois por agências governamentais americanas, como resposta direta ao medo de que a fome no mundo em desenvolvimento empurrasse populações inteiras para o comunismo. Sem essa pressão geopolítica específica, não há razão estrutural para que o mesmo investimento aconteça no mesmo ritmo — e sem ele, a curva de produtividade agrícola que sustentou o crescimento populacional real do século XX simplesmente não existe da mesma forma.
Vale registrar, com o orgulho que a informação merece, que boa parte desse capítulo teve protagonismo brasileiro. A Embrapa, criada em 1973, desenvolveu justamente nesse período as técnicas de correção de solo — calagem, adubação fosfatada, cultivares tropicais adaptadas — que transformaram o Cerrado, até então considerado impróprio para agricultura por sua acidez e toxidez de alumínio, numa das fronteiras agrícolas mais produtivas do planeta. Sem o mesmo pacote de ciência agronômica global germinando naquele período, não é só o mundo que perde a Revolução Verde: o Brasil perde justamente a tecnologia que o transformaria, décadas depois, em potência agrícola mundial.
O mesmo vale para a medicina. A produção industrial de penicilina em larga escala foi um subproduto direto do esforço de guerra — antes da Segunda Guerra, era um composto de laboratório interessante, mas inviável em quantidade; a guerra transformou sua fabricação em prioridade nacional, e o que sobrou desse aparato industrial abasteceu hospitais civis pelas décadas seguintes. A erradicação global da varíola, coordenada pela Organização Mundial da Saúde entre 1967 e 1980, foi um dos raríssimos projetos em que Estados Unidos e União Soviética cooperaram ativamente — motivados, em boa parte, por prestígio geopolítico dentro da própria Guerra Fria. E a meteorologia por satélite, que hoje permite prever uma seca ou um furacão com semanas de antecedência e mobilizar ajuda humanitária antes da catástrofe, é herança direta da corrida espacial.
Num mundo sem essas pressões, a matemática aplicada, a bioquímica, a logística e a agropecuária não desaparecem — mas avançam num ritmo muito mais lento, orgânico, sem o acelerador artificial que duas superpotências competindo por prestígio civilizatório proporcionaram. E é exatamente esse acelerador, não o computador pessoal, que explica a maior parte da diferença entre o mundo de Jason e Daniela e o nosso.

A Conta Demográfica Que Ninguém no Episódio Faz
Aqui está o ponto que, na minha opinião, o roteiro simplesmente não enfrenta: que tipo de população esse mundo realmente teria em 2026?
A tentação é supor que, sem os avanços culturais que historicamente acompanharam a queda da taxa de natalidade — urbanização acelerada, escolarização feminina em massa, a pílula anticoncepcional (lançada em 1960 no mundo real, junto com décadas de mudança de costumes) —, esse mundo teria uma natalidade um pouco mais alta que a nossa. Isso é razoável: sem esses fatores específicos, famílias maiores continuam sendo a norma social por mais tempo.
Mas o outro lado da equação pesa muito mais. Sem antibióticos de amplo espectro produzidos em escala industrial, sem campanhas de vacinação coordenadas internacionalmente, sem a Revolução Verde sustentando a produtividade agrícola per capita, a mortalidade nesse mundo não seria menor que a nossa — seria muito maior. Estamos falando de mortalidade infantil em níveis que o mundo real já superou há décadas, de doenças infecciosas voltando a ser a principal causa de morte, de fome localizada recorrente mesmo sem guerra alguma.
O resultado líquido dessas duas forças não é um mundo superpovoado, sufocado por gente demais e recursos de menos. É o oposto: um mundo estruturalmente mais vazio e mais frágil que o nosso, porque a mortalidade elevada corrói o excedente de nascimentos antes que ele se converta em crescimento populacional real. É, essencialmente, uma sociedade presa num regime demográfico pré-transição — o tipo de equilíbrio populacional que o mundo real já havia superado por volta de 1950, só que esticado por mais 76 anos. Expectativa de vida na faixa dos 45 aos 55 anos, não dos 75 aos 85. Mortalidade infantil de um em cada cinco ou seis nascimentos, não de poucos em mil. Esse é o preço real, silencioso, que nenhum personagem menciona quando elogia a paz desse mundo.
Dois Mundos Possíveis Para 2026
Vale a pena imaginar como essa trajetória poderia se desdobrar de duas formas bem diferentes até chegar em 2026.
No cenário mais otimista, a ausência das duas Guerras Mundiais preserva gerações inteiras de cientistas, engenheiros e recursos que, no mundo real, foram consumidos em destruição. O avanço é mais lento — sem o acelerador da competição entre blocos —, mas também mais constante, sem os hiatos catastróficos que duas guerras mundiais impuseram à pesquisa civil. Saneamento básico e a compreensão da teoria dos germes, conhecimento que já existia desde o final do século XIX, continuam se espalhando de forma orgânica pelas cidades em crescimento. Instituições internacionais de cooperação crescem aos poucos, sem precisar nascer das cinzas de um conflito global, talvez parecidas com uma Liga das Nações que nunca colapsou. Nesse cenário, a população mundial em 2026 provavelmente estaria entre 6 e 7 bilhões de pessoas — menor que a nossa, mas crescendo de forma estável, com uma mortalidade alta em relação aos padrões atuais, porém em queda lenta e constante.
No cenário pessimista, a mesma ausência de coordenação internacional em larga escala — a Organização Mundial da Saúde real nasceu, não por coincidência, em 1948, do rescaldo institucional da Segunda Guerra — significa que epidemias não encontram resposta rápida. Surtos em escala comparável à gripe espanhola de 1918 se repetem periodicamente ao longo do século, sem uma plataforma de vacinação capaz de conter a propagação global. A fome permanece cíclica e localizada, porque a produtividade agrícola por hectare nunca deu o salto que a Revolução Verde real proporcionou. E os impérios coloniais europeus — cujo colapso histórico foi, em grande parte, consequência direta do esgotamento econômico e militar causado pela Segunda Guerra — permanecem intactos por muito mais tempo, continuando a extrair recursos e mão de obra da África e da Ásia sem o contrapeso da descolonização real. Nesse cenário, a população mundial oscila entre 4 e 5 bilhões de pessoas, presa em ciclos quase malthusianos de crescimento e colapso, geração após geração.
Nenhum dos dois cenários é a utopia pacífica que Jason e Daniela descrevem. Um é mais estável e ainda assim mais pobre e mais mortal que o nosso mundo; o outro é abertamente catastrófico. Em nenhum dos dois a ausência de smartphones é o traço definidor da experiência humana.
O Que Jason e Daniela Não Estão Vendo
Há também uma cegueira mais sutil nessa fantasia, e ela tem a ver com quem, exatamente, está satisfeito com esse mundo “perfeito”.
Boa parte do avanço em direitos civis e direitos das mulheres no mundo real não aconteceu apesar das guerras — aconteceu, em parte, por causa delas. Foi a mobilização industrial da Segunda Guerra que levou milhões de mulheres americanas e europeias para fábricas e postos de trabalho antes reservados a homens, criando um precedente social que não voltou atrás por completo depois. Foi a integração racial nas forças armadas dos Estados Unidos, décadas antes da integração civil, que abriu uma das primeiras brechas visíveis contra a segregação institucionalizada. Sem essas rupturas específicas, é bem mais provável que as estruturas sociais de 2026 nesse mundo alternativo sejam mais rígidas, não mais humanas — que a série, convenientemente, não mostrou.
E há a questão colonial, que o episódio simplesmente não menciona. A descolonização real da África e de boa parte da Ásia, ao longo das décadas de 1950 a 1970, foi impulsionada em grande medida pelo esgotamento das potências europeias no pós-guerra — Grã-Bretanha e França simplesmente não tinham mais recursos nem legitimidade para sustentar seus impérios. Sem esse esgotamento, é razoável supor que domínios coloniais inteiros permaneceriam sob controle europeu por muito mais tempo, com tudo que isso implica em termos de exploração econômica, repressão política e mortalidade evitável em populações que nunca aparecem na tela quando Jason fala sobre como o mundo dele é mais pacífico. “Paz” para quem, exatamente?

A Hipocrisia Seletiva da Nostalgia
Mas o argumento que mais me incomoda nessa fantasia é o mais pessoal, e é também o mais fácil de verificar sem precisar de nenhuma estatística de demografia histórica.
Minha filha está morando na Bélgica. Todos os dias — todos, sem exagero — eu e minha esposa conversamos com ela por videochamada. Vemos o rosto dela, ouvimos a voz dela em tempo real, atravessando um oceano inteiro, por um custo que é, na prática, quase zero: diluído dentro da mesma conta de internet que já pagaríamos de qualquer forma. Nos anos 1970 reais, uma ligação internacional daquela distância era um evento. Precisava ser agendada, era cronometrada no relógio pelo custo por minuto, reservada para emergências, aniversários, poucas datas especiais no ano. No mundo “perfeito” de Jason e Daniela, com sua tecnologia equivalente aos anos 1970, essa seria exatamente a realidade de qualquer família separada por um oceano: silêncio na maior parte do tempo, interrompido por poucas ligações caríssimas.
As pessoas que romantizam “conversar olho no olho, sem tela” quase sempre esquecem convenientemente que a tela, nesse caso específico, não substitui o contato humano — ela é o que sobra quando o abraço físico não é possível. Um mundo sem internet não devolve às famílias separadas por distância mais interação pessoal. Devolve menos. A nostalgia tecnofóbica costuma ser seletiva assim: fácil de defender em abstrato, bem mais difícil de defender quando colocada ao lado de uma videochamada real com alguém que você ama e não pode abraçar hoje.
A tecnologia não criou o imediatismo humano — ela só deu a ele fibra óptica e alto-falante. Um comentário na escola dominical, dias atrás, resumiu esse ponto melhor do que qualquer estatística deste texto: Jó esperou dez anos para recuperar tudo o que havia perdido. Dez anos. Quantos de nós, hoje, teriam paciência para esperar tanto? A resposta honesta é: praticamente ninguém. Mas essa impaciência não nasceu com o smartphone — ela é parte da nossa natureza caída, a mesma que Jó enfrentou milênios antes de qualquer cabo atravessar o oceano. O que mudou não foi o caráter humano; foi a escala. A internet, como qualquer tecnologia, não inventa vícios nem virtudes — apenas acelera e amplia o que já estava lá. Fomos nós que criamos essa velocidade toda, de propósito, porque queríamos viver mais rápido; não foi ela que nos impôs isso.
Jason e Daniela erram não apenas por subestimarem o custo histórico de abrir mão dessa tecnologia — os números acima já mostram isso. Erram por um motivo mais básico: acreditam que trocar o smartphone por silêncio devolveria à humanidade uma inocência que ela nunca teve. Podemos, e devemos, usar essa velocidade e esse alcance para o bem em vez do mal — é um chamado real, não um detalhe piedoso ao final de um texto. Mas a culpa pelos males do mundo moderno não está no cabo de fibra óptica. Está em nós, como sempre esteve.
Vinícius Aragão Costa escreve sobre ficção científica e história alternativa em saladejustica.com.br
E você, ficaria satisfeito vivendo no mundo “perfeito” do Jason e da Daniela — sem internet, mas também sem metade das pessoas que você ama vivas hoje? Deixa sua opinião nos comentários, especialmente se discordar de mim (prometo não ficar ofendido… muito). Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.
