
Editora: Panini Comics Lançamento no Brasil: outubro de 2024 Publicação original: histórias de 2000 e 2001, mais Lex Luthor: Biografia Não Autorizada (1989) Categoria: Quadrinhos / HQs
Introdução
Poucas ideias na história do Superman são tão provocadoras quanto a de Lex Luthor eleito presidente dos Estados Unidos. O vilão que sempre se apresentou como benfeitor de Metrópolis troca o conselho da LexCorp pelo Salão Oval, e o Homem de Aço precisa descobrir como enfrentar um inimigo que agora tem a legitimidade das urnas a seu favor. Para completar, alguns heróis chegam a apoiar a candidatura do vilão — o que espelha perfeitamente a nossa realidade.
O encadernado da linha Grandes Eventos DC reúne a campanha eleitoral, a vitória de Luthor e sua chegada à Casa Branca. O arco completo, porém, é muito maior e se estende até a derrocada do vilão, de modo que a edição pode frustrar quem esperava encontrar tudo aqui. Mas há um prêmio de consolação no final que compensa, e muito, essa ausência.
Sinopse
Apesar da fortuna, da influência empresarial e da posição de destaque em Metrópolis, Lex Luthor vive à sombra do Superman. O herói é admirado pelo público, onipresente nos meios de comunicação e transformado em símbolo cultural americano. Para Luthor, que se considera um homem extraordinário, essa popularidade é uma afronta: um alienígena recebe a admiração que ele acredita merecer. A gota d’água é ver o Superman associado à Casa Branca e à ideia de servir ao país.
Luthor decide, então, disputar a Presidência — um cargo que lhe daria poder político muito superior ao que já exerce como empresário e uma posição que o Superman, por sua própria natureza, jamais poderia reivindicar. Enquanto a campanha avança, o Homem de Aço precisa lidar com as ameaças habituais, com amigos que se aliam ao candidato e com a pergunta que atravessa todo o volume: como se opor a um homem em quem não confia sem trair os próprios princípios?

Análise
A campanha: Lex contra a sombra do Superman
A motivação de Luthor é o ponto mais interessante do início da coletânea. Em uma sequência de situações cotidianas, ele esbarra repetidamente na imagem do Superman: notícias, produtos, propaganda — até em uma lanchonete os itens associados ao herói têm mais destaque do que os ligados ao empresário. A candidatura tem uma dimensão pública, vendida como projeto de liderança nacional, e outra pessoal, alimentada pela inveja.
Essa abordagem difere radicalmente da vista na espetacular série animada Liga da Justiça Sem Limites. No arco principal da segunda temporada, Lex descarta totalmente a possibilidade de se candidatar, afirmando que precisaria abrir mão de muito poder para isso. As duas abordagens funcionam muito bem dentro de suas propostas, embora eu tenha minhas ressalvas quanto à versão em quadrinhos — e chego lá mais adiante.
Anunciada a candidatura, a campanha passa a funcionar como uma linha narrativa que atravessa as aventuras do herói, sem interromper as demais tramas. Lex é sequestrado pelo Adversário, e o Superman precisa salvar justamente o homem que mais gostaria de ver longe do poder. Em paralelo, Rose Forrest, a vigilante Thorn, enfrenta criminosos interessados em expandir seus negócios em Metrópolis, enquanto o Prankster cultiva a inesperada intenção de se casar com ela. E olha só: eu não me lembrava dessa personagem nos quadrinhos! Uma versão dela apareceu na segunda temporada de Batman: Caped Crusader, e eu realmente achava que ela tinha sido criada lá. Até um leitor com quase 40 anos de quadrinhos nas costas e conhecimento enciclopédico erra de vez em quando!
A escolha do companheiro de chapa traz o conflito para o lado pessoal de Clark: Pete Ross, amigo de infância em Smallville e marido de Lana Lang. Pete não é um político qualquer que se associou a Luthor; é alguém que Clark conhece desde a juventude, e isso cria um choque entre a avaliação que ele faz de Lex e as pessoas que agora estão diretamente ligadas ao projeto do empresário.

Superman entre a justiça e a antipatia
O conflito entre Lex e Aquaman em torno de Atlântida — que culmina numa inundação provocada por Tempest e enfrentada pelo Superman com a ajuda da Justiça Jovem (Robin, Superboy, Impulso e Moça-Maravilha, entre outros) — evidencia a principal dificuldade que o herói enfrentará com Luthor no poder: distinguir a defesa legítima da ordem e da justiça da oposição motivada por antipatia pessoal. O Superman não pode tratar toda decisão de Luthor como criminosa. Precisa avaliar cada situação e agir de acordo com as circunstâncias, mesmo quando isso significa defender alguém em quem não confia. A solução diplomática alcançada entre Lex e Aquaman encerra a crise, mas deixa claro que a ascensão do vilão segue cercada de ressentimentos.
Na véspera da eleição, Luthor sofre uma tentativa de assassinato que, surpreendentemente, não foi armada por ele mesmo — e o próprio vilão reconhece que o atentado o ajudou tanto que até parece ter sido. Lex vence, e a edição explora a vitória por vários ângulos: uma reportagem conduzida por Cat Grant que funciona como peça de propaganda, mostrando Lex como ele deseja ser visto; Batman confrontando o presidente eleito para exigir a devolução do anel de kryptonita, numa conversa em que a mudança na relação de forças fica evidente; e a frustração da equipe do Planeta Diário e do próprio Superman, que sabe que a eleição foi legítima e que não pode simplesmente ignorar a decisão dos eleitores.
As histórias seguintes mantêm o tema por caminhos variados. A celebração da vitória é interrompida por Lunatick, a criatura de estimação de Luna, alimentada pela energia da Zona Fantasma. Liri Lee mostra ao Superman um futuro sombrio que poderia resultar de sua inação diante da Presidência de Luthor, com a Liga da Justiça, Lois, Jimmy, Perry, John Henry Irons e outros aliados vivendo num mundo sem esperança. E, já no clima natalino, o herói entrega presentes aos colegas da Liga — Batman, Aquaman, Flash, Lanterna Verde, Caçador de Marte e Mulher-Maravilha — e aproveita para sondar o que cada um pensa da eleição. O tom é mais leve, mas a preocupação política permanece no centro.

O problema da edição: um arco em pedaços
Aqui entram minhas ressalvas. Embora o encadernado se chame Presidente Lex, o arco não está completo: mostra apenas a campanha e um pouco além da posse, deixando de fora todo o mandato — que, eu sei, é extenso demais e exigiria um omnibus para ser publicado integralmente. A sensação de ler uma história incompleta é agravada pela sensação de que as histórias reunidas não são sequenciais. Originalmente publicadas nos vários títulos mensais do Superman, cada uma seguia uma linha própria, dentro da mesma temática, mas em contextos diferentes. Reuni-las no mesmo volume, sem as pontes que existiam entre um título e outro, talvez não tenha sido a melhor decisão. O resultado é uma leitura fragmentada, quase uma coleção de episódios soltos em torno de um mesmo tema. Mas…

Lex Luthor: Biografia Não Autorizada — o verdadeiro tesouro do volume
A última história da coletânea se afasta da campanha para investigar o passado de Lex Luthor, e é aqui que a edição se justifica. Peter Sands é um jornalista em decadência, com dificuldades financeiras e problemas pessoais. Diante da oportunidade de escrever uma nova biografia, ele mente dizendo que já trabalhava numa história não autorizada de Luthor e enxerga no projeto uma chance de salvar a carreira.
Sands parte da biografia oficial — o gênio que construiu um império e patrocina iniciativas de interesse público — e começa a puxar os fios das inconsistências. Entrevista uma antiga professora, pessoas que conheceram a família e os primeiros empreendimentos do jovem Lex, e descobre uma origem muito mais sombria: uma infância pobre, uma inteligência excepcional combinada com crueldade, comportamentos manipuladores e violentos desde cedo. A morte dos pais de Luthor, oficialmente um acidente de carro, ganha outra cor quando o jornalista examina o seguro de vida e a herança que financiaram o início da ascensão do rapaz. A conclusão é perturbadora: Lex preparou o caminho para a morte dos próprios pais.
Quanto mais Sands se aproxima da verdade, mais perigosa fica sua situação. As fontes têm medo de falar, as ameaças começam a chegar, e o jornalista procura Clark Kent para compartilhar o que descobriu. Sands é assassinado, e Clark acaba preso, acusado do crime. Ironicamente, quem o tira da cadeia é o próprio Luthor, que envia sua advogada com provas — evidentemente forjadas — do envolvimento de outro criminoso. Assim que soube da investigação, Lex passou a manipular a situação a seu favor: sequestrou o repórter, extraiu dele tudo o que havia descoberto e ordenou sua morte.
A participação do Superman é quase nula, sem nenhum demérito para a história. Envolvido inadvertidamente na investigação, o herói tenta ajudar, mas não consegue explicar como Clark sabe o que sabe. O foco está onde deveria estar: no retrato de um homem cujo poder foi construído sobre manipulação e violência, e não sobre talento empresarial.
Embora curta — apenas 48 páginas —, é uma história profunda e séria, seguramente não só uma das melhores do Superman, mas uma das melhores dos quadrinhos de super-heróis, e um exemplo perfeito da diversidade de histórias que podem ser contadas com esses personagens. Guardadas as devidas proporções (tirando o Superman, as duas não têm absolutamente nada em comum), ela me faz lembrar de Identidade Secreta: ambas estão entre as melhores histórias do Superman sem ser, necessariamente, histórias do Superman.
Conclusão
Superman: Presidente Lex é uma edição de duas partes muito desiguais. A parte que dá nome ao volume tem uma premissa excelente e bons momentos — a motivação mesquinha de Luthor, o dilema do Superman diante de um presidente eleito, a escolha de Pete Ross —, mas sofre com a fragmentação herdada dos títulos mensais e com a ausência do restante do arco. Já Biografia Não Autorizada é um clássico que, sozinho, vale o preço do encadernado.
Recomendado para quem acompanha o Superman da virada do milênio e, principalmente, para quem nunca leu a biografia de Lex. Quem procura a saga presidencial completa vai precisar esperar por outra edição.
Presidente Lex: 6/10 Lex Luthor: Biografia Não Autorizada: 10/10
Nota do Vini: 8/10 😊
Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.
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