
Criação: Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King Produção executiva: James Gunn, Peter Safran, Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King Ano: 2026 Onde assistir: HBO Max (mas não recomendo!) Categoria: Séries Elenco principal: Kyle Chandler (Hal Jordan), Aaron Pierre (John Stewart), Kelly Macdonald (Kerry Kane), Garret Dillahunt (William Macon), Poorna Jagannathan (Zoe), Ulrich Thomsen (Sinestro) e Nathan Fillion (Guy Gardner)
Introdução
O juramento dos Lanternas Verdes promete que nenhum mal escapará à sua visão. Pena que, em Lanterns, quase nenhum herói tenha escapado à tesoura dos roteiristas.
A série chegou cercada de expectativa. Era a primeira grande aposta televisiva do novo universo DC de James Gunn e Peter Safran, exibida no horário nobre de domingo da HBO, com orçamento de cinema, elenco de primeira linha e dois dos maiores nomes da Tropa dos Lanternas Verdes como protagonistas. Fui assistir como fã de quadrinhos, esperando ver o anel brilhar. Encontrei uma série policial mal escrita que, de vez em quando, lembra que tem um anel de poder no enredo.
Sinopse
Em 1996, o pequeno John Stewart admira Hal Jordan, o Lanterna Verde da Terra. Vinte anos depois, os Guardiões do Universo escolhem John como aprendiz de Hal, mas o veterano está longe de ser o mentor que o rapaz imaginava. Os dois acabam em Rushville, uma cidadezinha do Nebraska, investigando um massacre que tem tudo para envolver alienígenas. Dez anos mais tarde, John volta à mesma cidade para descobrir quem matou Hal Jordan, e a temporada passa a alternar entre as duas investigações, separadas por uma década e ligadas pelo mesmo segredo.

Análise
O que funciona
Comecemos pelo que merece elogio, porque há o que elogiar. A produção é impecável, o elenco é excelente e os efeitos visuais têm padrão de cinema. E há momentos que fazem o fã de quadrinhos sorrir: a bateria do anel escondida na tradicional dimensão compacta, a visita de Hal a Sinestro na prisão, o “bat-sinal” do Lanterna Verde para chamar Guy Gardner (a melhor sacada da série) e o “buraco portátil” que parece saído direto de um desenho da Acme. Nathan Fillion, aliás, está ótimo como Guy, e teria sido um Hal Jordan perfeito dez anos atrás.
O grande achado da temporada é o “Halograma”, a cópia holográfica de Hal armazenada no anel. Desconfiado de todos, inclusive de John, ele rende os melhores diálogos da série e seu momento emocional mais honesto: John desabafando sobre anos de maus-tratos e recusando o pedido de desculpas de uma cópia, quando queria tê-lo ouvido do Hal verdadeiro. Também vale destacar a bifurcação na estrada do último episódio, uma metáfora visual simples e elegante para a escolha que um dos personagens precisa fazer.
Uma série COM super-heróis, não DE super-heróis
O problema de fundo aparece já no piloto. O anel quase não é usado: Hal o emprega para criar pequenos construtos e até uma nota falsa de dólar. A carga que acaba no pior momento vira uma muleta recorrente para manter o herói fora de cena. O que sobra é uma investigação policial no Nebraska, temperada com uma conspiração alienígena que a série parece querer transformar em metáfora sobre imigração ilegal.
Mais grave do que a falta de ação, porém, é a falta de heróis. Hal é egoísta, grosseiro e negligente com o próprio aprendiz. Sinestro o convence a enganar John para não ser substituído, enquanto a Guardiã orienta John a simplesmente tomar o anel do mentor. No quinto episódio, os dois disputam o posto no braço enquanto a cidade é destruída ao redor. Quem espera ver alguém superando o medo por altruísmo, que é a essência do Lanterna Verde, não encontra ninguém. É uma série de vilões disputando poder, no estilo de Família Soprano ou Pinguim, só que se passando por super-heróis.
O terceiro episódio, dedicado à origem de John, agrava o quadro. A trama reescreve a história do personagem a partir de uma visão de mundo em que os negros americanos vivem em medo constante, e a escolha de Hal pelo anel é atribuída a um privilégio de quem é branco, não a qualquer mérito. É uma leitura ideológica que me soa deslocada da realidade e que, de quebra, esvazia os dois protagonistas ao mesmo tempo. A série também descarta a profissão de John nos quadrinhos, onde ele é arquiteto, e o transforma em estudante de artes, ofício que pertence a outro Lanterna, Kyle Rayner. Entre uma mudança e outra, a essência do personagem ficou pelo caminho.

O último ato desaba
A segunda metade da temporada chega a dar sinais de melhora. O sexto episódio apresenta um Hal envelhecido e em busca de reparação, e o sétimo intriga com o Halograma, o portal para o planeta devastado de Antaan e o reencontro com Sinestro. O oitavo, porém, é onde a casa cai. A solução do mistério depende de uma longa cadeia de acontecimentos que a série apenas informa em diálogos, sem jamais mostrar, e é aí que as inconsistências se acumulam.
A natureza dos Caçadores Cósmicos. Durante a temporada, Zoe é apresentada como alguém incapaz de escapar da própria programação. Ela ama Rushville, tem vínculos afetivos e uma história naquele lugar, e mesmo assim, no momento decisivo, a programação vence e ela participa da destruição da cidade. Essa é a regra que a série repete episódio após episódio. No final, Noah, também um Caçador, vira exceção simplesmente porque foi criado por uma mãe humana. Não é impossível dentro da história, mas é uma mudança enorme de regra: o que era uma característica fundamental da espécie passa a ser uma questão de natureza versus criação, e a série trata a virada como se nada tivesse mudado.
A origem de Noah. Ao longo da temporada, Kerry fala de um “milagre” que Zoe lhe concedeu. Só no último episódio descobrimos que o milagre foi uma gravidez inexplicável, provocada pela tecnologia de regeneração de Zoe. Não há nenhuma preparação para a ideia de que uma máquina de reconstruir tecidos possa gerar um ser humano. O próprio showrunner admitiu que a explicação nasceu de uma zona cinzenta da tecnologia e que boa parte da lógica ficou apenas na sala de roteiristas. Ficam as perguntas: como Zoe descobriu que a tecnologia poderia gerar uma pessoa? Como sabia que essa pessoa seria um Caçador? A resposta da produção, fora da tela, é que tudo foi acidental e que Zoe teria tentado repetir o processo depois. Nada disso aparece na série.
Noah e Sinestro. A série nos pede para acreditar que um adolescente aparentemente comum descobriu onde Sinestro estava preso, chegou a uma prisão espacial, passou pelas defesas dos Lanternas, libertou um dos criminosos mais perigosos do universo, levou-o para outro planeta e o convenceu a construir uma lanterna. O portal de Zoe só levava ao planeta devastado; como Noah chegou à prisão? Não sabemos. E por que Sinestro, um mestre da manipulação, obedeceria a um garoto? Porque o roteiro precisava de alguém que soubesse construir a lanterna. A presença do vilão é interessante, mas a logística é conveniente demais. Para piorar, a tal lanterna contaminada pelo medo ignora toda a mitologia que os quadrinhos já construíram sobre o tema, e o maior inimigo de Hal Jordan termina abandonado num planeta inóspito, implorando para não ser deixado para trás. O Sinestro dos quadrinhos teria construído a lanterna, eliminado o garoto e voltado a aterrorizar o universo.
A morte de Hal. O problema não é Kerry ter atirado, e sim a forma como isso acontece. Hal descobre a verdade sobre Noah, mas não ameaça matá-lo nem entregá-lo às autoridades. Pelo contrário: propõe fugirem juntos para um lugar seguro, e diz que os ama. Kerry sabe disso, e mesmo assim dispara. A motivação, o medo de perder o filho, é compreensível, mas a passagem de “precisamos resolver isso” para “vou matar o homem que amo” é abrupta demais. Lembra o episódio do Bob Esponja em que ele encontra o cinto com raio encolhedor do Homem Sereia e sai encolhendo a Fenda do Biquíni inteira por acidente. Só que não estamos falando de Bob Esponja, homessa! Pior: a xerife racional, determinada e controlada que acompanhamos a temporada inteira simplesmente não combina com essa reação. O roteiro precisava construir o acúmulo psicológico que a levaria àquele extremo, mas reservou toda a justificativa para a própria cena do crime. O resultado é uma personagem que reage de um jeito diferente a cada episódio.
A decisão final de John. John escolhe não resolver o problema de Noah, e sim confiar nele. Poderia ser uma escolha moral interessante, se a própria série não tivesse acabado de nos contar que o rapaz tem pensamentos recorrentes sobre obter poder e destruir o mundo, que libertou Sinestro, que mandou construir uma lanterna e que ele mesmo acredita que talvez precise ser morto. Ainda assim, John conclui que a criação materna vai vencer a programação. É uma aposta com a vida de milhões de pessoas, e a série a apresenta como prova de maturidade moral.
O Lanterna sem Tropa. Por fim, John anuncia a Guy Gardner que vai proteger a Terra por conta própria, como uma espécie de “contratado independente”, sem Guardiões e sem Tropa. A série passou oito episódios estabelecendo uma organização cósmica, com hierarquia, procedimentos e anéis controlados pelos Guardiões. No final, basta ter um carregador alternativo e lembrar aos Guardiões que foi ele quem matou a Caçadora. Chantagear os Guardiões do Universo com uma lanterna improvisada, porque isso certamente vai dar super certo.

Um drama policial vestido de Lanterna Verde
Há, por fim, uma inconsistência estrutural. A temporada se apresenta como uma história policial realista, mas sua solução depende de uma quantidade cada vez maior de elementos cósmicos que a própria série manteve em segundo plano: começa com um assassinato no Nebraska e termina com conspiração de Caçadores, planeta alienígena, portal interplanetário, prisão espacial, lanterna falsificada, híbrido de humano e Caçador, gravidez provocada por tecnologia alienígena e um Lanterna dissidente da Tropa. O problema não é a escala, afinal Lanterna Verde é exatamente isso. O problema é apresentar tudo como se fossem pequenas extensões naturais de um drama policial do interior. Não por acaso, o três episódios finais da temporada parecem três histórias diferentes costuradas às pressas, como se o roteiro tivesse sido ajustado conforme a reação do público.
O resultado é curioso. John não termina como o policial espacial que recebe um anel e passa a combater supervilões. Termina rejeitando os Guardiões, reescrevendo o juramento, aceitando o medo em vez de vencê-lo e decidindo sozinho quem merece ser salvo. Isso poderia render um bom drama sobre autonomia em outra série; parece até enredo de policial dos anos 1980, o agente da lei que se revolta contra o sistema e decide fazer justiça com as próprias mãos. Mas, para quem esperava uma história de Lanterna Verde, o universo de super-heróis acaba sendo menos o assunto da série do que uma ferramenta para contar outra história.
A produção declarou que queria construir uma nova interpretação de heroísmo, coragem e medo. Na prática, desconstruiu tudo o que o Lanterna Verde representa: Hal é um herói fracassado, se é que chega a ser herói; a Tropa é burocrática; os Guardiões são corruptos; Sinestro tem razão em alguns pontos; um Caçador pode ser moralmente melhor que um humano; o anel pode ser improvisado e o juramento, reescrito; e o protagonista termina rejeitando a própria organização que deveria defini-lo. Minha impressão, como fã de quadrinhos, é que a série quis deliberadamente desagradar o público tradicional para tentar conquistar outro. Afastou o primeiro, e não parece ter conquistado o segundo.
A temporada, episódio a episódio
| Ep. | Título | Nota |
|---|---|---|
| 1 | Pilot | 5 |
| 2 | Trust Fall | 7 |
| 3 | OutKast | 3 |
| 4 | The Weenie | 2 |
| 5 | Lights Out | 2 |
| 6 | Bad Optic | 4 |
| 7 | The Jordan Boys’ Legacy | 4 |
| 8 | Dirt and Stars | 1 |
A curva diz muito: uma estreia morna, um pico promissor no segundo episódio e uma queda constante até o fundo do poço no final, justamente quando a série precisava amarrar tudo.

Conclusão
Lanterns é uma série bem produzida e bem atuada que raramente se interessa em ser uma série de Lanterna Verde. Tem bons momentos, o Halograma é uma ideia genuinamente boa e John Stewart como protagonista tinha tudo para render. Mas, ao desconstruir Hal, os Guardiões, a Tropa e o próprio conceito de herói, a série tira o chão de quem foi assistir esperando um Lanterna. E, no fim, o roteiro não sustenta nem o próprio mistério.
Recomendo apenas para quem gosta de dramas policiais de cidade pequena e não se importa de ter o universo DC como pano de fundo. Quem busca os Lanternas dos quadrinhos vai se decepcionar, como eu me decepcionei.
Nota do Vini: 3,5/10 😐
Vinícius Aragão Costa escreve sobre super-heróis, séries e cultura geek em saladejustica.com.br
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