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[Resenha] Stuart Fails to Save the Universe – 1ª temporada

Categoria: Séries Criação: Chuck Lorre, Bill Prady e Zak Penn Ano: 2026 Plataforma: HBO Max Episódios: 10 Elenco principal: Kevin Sussman, Lauren Lapkus, Brian Posehn e John Ross Bowie


Introdução

Confesso que relutei em começar mais uma resenha, com tantos textos ainda em andamento por aqui. Mas precisei me render. The Big Bang Theory é, talvez, a série que mais parece ter sido feita sob medida para mim. Tenho praticamente a mesma idade dos personagens (exatamente a mesma do Sheldon, aliás), cresci consumindo a mesma cultura pop, sou fã das mesmas coisas, acompanho as mesmas séries obscuras de ficção científica e, embora não seja cientista, gosto de ciência tanto quanto eles. Quando o Sheldon comparou um possível relacionamento entre Penny e Leonard ao gato de Schrödinger, minha reação foi idêntica à do Leonard: entendi na hora.

Assim, um spin-off estrelado por Stuart Bloom, o dono da loja de quadrinhos mais melancólico de Pasadena, era para mim uma obrigação, e eu já estava predisposto a gostar. O que eu não esperava era ser surpreendido. Imaginei uma comédia com verniz de ficção científica, algo na linha da saudosa e natimorta Powerless, a sitcom ambientada no Universo DC que tinha uma ótima ideia e não teve tempo de desenvolvê-la. Encontrei, em vez disso, uma ficção científica de verdade, com perguntas existenciais que eu não imaginava ver discutidas sob as risadas de uma plateia.

Sinopse

Em um mundo devastado por incursões interdimensionais, Stuart (Kevin Sussman) sobrevive como pode em sua loja de quadrinhos, onde edições do Batman valem mais que comida enlatada e a vida humana vale bem pouco. Quando uma versão alternativa de si mesmo surge de uma fenda na realidade, Stuart descobre que o colapso foi causado por uma máquina criada por Leonard, Sheldon e Howard, e que cabe a ele consertar a situação. A mensagem chega truncada, as instruções são incompletas, e o candidato a herói é, bem, o Stuart.

Ao lado de Denise (Lauren Lapkus), do geólogo Bert (Brian Posehn) e do físico Barry Kripke (John Ross Bowie), Stuart parte em uma jornada por realidades cada vez mais absurdas, cada uma com versões alteradas de rostos conhecidos de The Big Bang Theory, em busca de uma forma de salvar um universo que parece determinado a não ser salvo.

Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

Análise

O herói que involuiu

Stuart é um caso curioso na história das sitcoms. Enquanto quase todo personagem recorrente amadurece ao longo das temporadas, Stuart fez o caminho inverso: tornou-se mais retraído, mais inseguro e mais solitário a cada aparição. Colocá-lo como protagonista, e ainda por cima como responsável por salvar o universo, é uma ideia genial justamente por isso. Ele não foi escolhido por ser especial; foi empurrado para o papel apesar de não ser. E Kevin Sussman prova, desde o primeiro episódio, que Stuart sustenta uma série inteira. Quem duvidava pode ficar tranquilo.

O elenco de apoio funciona como engrenagem bem ajustada. Bert é o coração do grupo: ingênuo, gentil e sempre disposto a ajudar, seja como mago poderosíssimo, seja como noivo improvisado de uma comunidade na floresta. Kripke é o oposto exato, um vírus narrativo que corrompe cada realidade que visita, abandona amigos na fogueira e atira pelas costas para não obedecer a ordens. E Denise, uma das raras representantes do público feminino nerd na ficção (e, confesso, na vida real também), dá ao grupo um senso de realidade e ao Stuart uma razão para continuar.

Há também um bonito arco de recompensa. Durante quase toda a temporada, Stuart é arrastado por mundos que não compreende, até cair dentro de um gibi. Ali, pela primeira vez, ele tem um superpoder: sabe tudo sobre quadrinhos. Tomo a liberdade de me incluir nesse grupo, e confesso que a euforia dele foi a minha.

Um multiverso feito de piadas

A estrutura se estabelece logo no segundo episódio: a turma cai em uma realidade alterada, se mete em confusão, encontra uma versão modificada de algum personagem da série original e foge no último segundo. Parece repetitivo no papel, mas na tela funciona, porque cada mundo é construído com lógica interna consistente e as piadas nascem dessa lógica. Um mundo governado por uma IA que aplica choques na nuca de quem se comporta mal; outro em que a magia é real e cientistas vão para a fogueira; um em que a humanidade descende dos bovinos e todos ruminam o episódio inteiro, a ponto de Stuart levar bonsais para casa como comida japonesa. É humor de worldbuilding no melhor sentido.

A comparação com Sliders é inevitável, mas há uma diferença interessante: lá, os personagens saltavam entre universos paralelos preexistentes; aqui, a máquina parece alterar a própria realidade. E a série se diverte com a própria premissa, resolvendo problemas cósmicos da forma mais barata possível, como encomendar uma máquina nova pela internet a partir de um anúncio na contracapa de um gibi.

As participações especiais completam a festa: Bernadette como demônio gigante e como professora de balé frustrada, Amy como psiquiatra, Penny como líder da resistência e como a temida “major Paredão”, além de coadjuvantes da série original como o capitão Williams e o reitor Siebert. E há o Gary, que aparece em quase todo episódio apenas para morrer de novo, a ponto de até o Bert comentar. É a piada recorrente mais eficiente da temporada.

Respeito aos quadrinhos

O nono episódio merece um bloco à parte, porque mostra algo cada vez mais raro: uma produção que entende e gosta de quadrinhos. O Flash que a turma encontra não é Barry Allen, mas Jay Garrick, o velocista da Era de Ouro, e a fidelidade é impressionante. O uniforme é exatamente o dos quadrinhos, colorido como deve ser, sem reinterpretações sombrias. Os trejeitos, o jeito de falar e, principalmente, a disposição para ajudar estão todos lá. A única adaptação, o divórcio de Joan e o casamento com Amy, foi feita a serviço do humor e costurada de forma orgânica na mitologia da série. Em uma cena, Jay chega a reproduzir uma pose idêntica a uma ilustração de Alex Ross, e o próprio artista publicou a comparação nas redes sociais chamando-a de homenagem.

Até a limitação de orçamento vira piada: em vez de uma sequência caríssima do Flash enfrentando Mr. Freeze, Stuart narra a luta escondido atrás de um carro. E quando a série erra a continuidade, colocando um vilão do Batman para perseguir o Flash, o próprio Stuart reclama que o inimigo gelado do velocista é o Capitão Frio. A metalinguagem protege o roteiro.

O único tropeço é a caracterização do Batman. Quando Stuart sugere pedir ajuda ao Morcego, Denise responde que ele é apenas um milionário babaca que não vai querer ajudar. Produção, por favor: ajudar é literalmente o que o Batman faz há quase noventa anos. Até poderia ser a fala de alguém que nunca leu um gibi dele (não da Denise!), mas soa mais como preconceito de quem não pesquisou o material.

E aqui fica o lamento: é uma pena que uma produção que trata os quadrinhos com tanto carinho não tenha orçamento nem oportunidade para fazer algo maior, enquanto filmes e séries de grande orçamento seguem nas mãos de produtores que claramente desprezam o material original e acham que precisam “corrigi-lo” (cof, cof, Lanterns, cof, cof).

Humor, ideias e alguns tropeços

Nem toda piada carrega apenas riso. O quinto episódio, ambientado em uma comunidade na floresta sem dinheiro, sem posse e sem monogamia, me lembrou, com as devidas ressalvas, a comunidade dos primeiros cristãos no livro de Atos, frequentemente usada como argumento de que o cristianismo apoiaria o comunismo. Assim como na narrativa bíblica, bastou que uma pessoa cedesse à própria natureza pecaminosa para que tudo desmoronasse. Ali, foi o Kripke, ensinando um egoísmo travestido de capitalismo, e em poucas cenas a comunidade inteira estava gritando “é meu!”. O roteiro, talvez sem querer, demonstra que esse modelo só funciona na ficção, e como piada.

O quarto episódio, por outro lado, é o mais fraco da temporada. A ideia era ambiciosa: um hospital psiquiátrico, uma vida perfeita de comercial de margarina dos anos 1950, um gibi com o título da própria série e uma passagem pela banheira de gosma de Matrix, em camadas sucessivas de realidade e delírio. Mas o episódio esbarra no politicamente correto. Quando Barry diz que gostaria de voltar a uma realidade em que fosse heterossexual, Denise o censura por homofobia, matando a piada, e ele ainda responde que aquilo não é uma escolha. Fica a pergunta que o roteiro não enfrenta: se ninguém pode escolher o que é, então ninguém pode escolher não ser violento, por exemplo? Eu acredito que podemos, sim. A série teria ganhado mais deixando o conflito em aberto do que corrigindo o personagem em cena.

Quando a sitcom vira ficção científica

É na construção da mitologia que a série realmente surpreende. O misterioso mensageiro que orienta Stuart desde o primeiro episódio se revela como o Stuart “primordial”. A máquina, descobrimos depois, viaja também no tempo, e os soldados que roubam o dispositivo de controle de uma equipe de cientistas são a própria turma, vista de outro ponto da linha temporal. Será que existem mesmo várias equipes de Stuarts, Denises, Berts e Kripkes tentando salvar o universo, cada uma com um Stuart que se acredita o escolhido? E se os cientistas também forem eles mesmos? São perguntas que só uma próxima temporada poderá responder.

O vilão, por sua vez, é o Adversary, uma nuvem escura e rodopiante revelada no último episódio como a consciência que desencadeou o Big Bang há cerca de 14 bilhões de anos e que, insatisfeita com o resultado, quer desfazer a própria criação. A fenda aberta quando Stuart quebrou a máquina de Sheldon e Leonard foi a brecha de que ela precisava.

Confesso que, como cristão, pensei em me ofender. A descrição lembra imediatamente Deus, mas um deus assim, com minúscula, que se arrepende da Criação em vez de se comprazer nela. As diferenças, porém, são tantas que não vale a pena. Existem cristãos que aceitam um universo de 14 bilhões de anos, com Deus dando o “start” no Big Bang e deixando tudo seguir sozinho. Não acredito que essa seja a interpretação correta do texto bíblico, nem das evidências científicas: creio, com muitos outros cristãos e cientistas, cristãos ou não, que uma inteligência criou o universo há pouco mais de seis mil anos, como ensina a cronologia bíblica. E, ao contrário do Adversary, o Deus das Escrituras não apenas criou como continua sustentando Sua obra e se agradou dela, ainda que tenha dado um soft reset no Dilúvio. A série é uma ficção despretensiosa, e o Adversary não é Deus. Fiquem em paz.

O que torna o final memorável, porém, é o que vem depois. Presos em um vazio fora da realidade, os personagens começam a ouvir risadas. Enquanto uma subtrama típica de sitcom se desenrola, com Stuart esquecendo o aniversário de Denise, eles percebem que estão em um cenário filmado diante de uma plateia. Stuart atravessa a névoa onde estaria a quarta parede, Denise vai atrás dele depois de uma declaração de amor, Bert e Kripke os seguem, e os quatro chegam a um estúdio real, onde assistem a Kevin Sussman, Lauren Lapkus, Brian Posehn e John Ross Bowie interpretando seus papéis. O episódio foi de fato gravado no Stage 25 da Warner Bros., o mesmo palco de The Big Bang Theory, com o mesmo responsável por aquecer a plateia da série original. E, para não deixar ninguém confortável, outdoors de Two and a Half Women e Young Leonard lembram que aquela também não é a nossa realidade.

É o tipo de virada que me lembrou o famoso episódio metalinguístico de Supernatural, mas levado mais longe. Se percepção é realidade, os personagens que “saíram” da série são pessoas reais agora? E para onde se vai depois disso? Por incrível que pareça, mesmo com todo o humor, a ficção científica de Stuart Fails to Save the Universe está no mesmo nível de Dark Matter, da Apple TV+, que trabalha a mesma temática de realidades paralelas, só que com drama, muito drama (e não é uma crítica, gosto bastante dela).

Os ausentes

Se algo me faltou nesta temporada, foram três coisas: Leonard, Sheldon e Howard. Os criadores da máquina que destruiu o multiverso são citados desde o primeiro episódio, mas nunca aparecem. A produção estaria poupando o trio para a próxima temporada? Ou os atores não quiseram voltar? A segunda hipótese me parece estranha. Jim Parsons participou ativamente de Young Sheldon, narrando os episódios e aparecendo em alguns, e Simon Helberg segue trabalhando normalmente. Apenas Johnny Galecki anda mais sumido. Minha aposta é que eles ainda vão aparecer, se não na próxima temporada, no final da série. A conferir.

Pontos positivos

  • Stuart como protagonista improvável funciona muito bem, e Kevin Sussman segura a série com folga
  • Bert e Kripke formam um contraponto de caráter divertido e consistente
  • Realidades com lógica interna bem construída, que geram humor inteligente
  • Participações do elenco de The Big Bang Theory em papéis completamente reconfigurados
  • Fidelidade e carinho com os quadrinhos, especialmente na representação de Jay Garrick
  • Mitologia que cresce de forma coerente, com viagens no tempo, equipes misteriosas e um vilão cósmico
  • Um final metalinguístico ousado, que transforma a comédia em ficção científica filosófica

Pontos negativos

  • Episódios de cerca de 20 minutos são curtos demais para explorar cada realidade
  • A caracterização equivocada do Batman no nono episódio
  • O quarto episódio, que troca a força dramática do conflito por uma correção politicamente correta
  • A ausência de Leonard, Sheldon e Howard, ainda que talvez proposital

Conclusão

Stuart Fails to Save the Universe tinha tudo para ser apenas um caça-níqueis nostálgico, sustentado por rostos conhecidos e piadas internas. Acabou se revelando uma das melhores surpresas do ano para quem gosta de ficção científica. A série respeita o público nerd sem bajulá-lo, trata os quadrinhos com reverência rara e, no último episódio, faz uma pergunta que muita produção de orçamento milionário não teria coragem de fazer: o que acontece quando o personagem descobre que é personagem?

Stuart ainda não salvou o universo. Mas, se a série mantiver o nível, talvez salve as sitcoms.

E você, já assistiu? Acha que a turma sempre foi ficção, ou acabou de se tornar real? E aposta que Leonard, Sheldon e Howard aparecem na próxima temporada?

Notas por episódio

Ep.TítuloNota
1Spoiler: Gary Dies10 🤩
2Spoiler: Zack’s in This One8 😊
3Spoiler: Bert Is Magic9 😄
4Spoiler: Stuart Makes a Wallet6 🙂
5Spoiler: Bert Gets Married8 😊
6Spoiler: Corn is Delicious8,5 😄
7Spoiler: Dexys Midnight Runners Get a Royalty Payment8 😊
8Spoiler: We’re as Confused as You Are8 😊
9Spoiler: We Couldn’t Get Green Lantern8,5 😄
10Spoiler: Filmed Before a Live Studio Audience9,5 🤩
Média da temporada8,35

Nota do Vini: 8,4/10 😄


Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.


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