
Direção: Kitao Sakurai Elenco principal: Andrew Koji, Noah Centineo, Callina Liang, David Dastmalchian, Jason Momoa Produção: Legendary Pictures, Paramount Pictures e Capcom Ano: 2026 Categoria: Filmes
Introdução
Conheci Street Fighter II nas velhas locadoras de videogame, lá nos longínquos anos 1990. Muitas vezes, ao sair da escola (e que minha mãe não leia este texto!), juntávamos a turminha da rua — meu irmão, meia dúzia de vizinhos e eu — e partíamos para a locadora. O passe estudantil de todos virava uma ou duas horas de jogatina, no velho esquema “perdeu, passa o controle”. Eu jogava com o Blanka e tinha meus momentos. Derrotar um Ken ou um Ryu nas mãos de um jogador habilidoso não era tarefa fácil, mas, se a memória não está afetada pela falta de modéstia, eu vencia mais do que perdia.
Também jogávamos com os primos, às vezes na locadora, mas sobretudo nas casas abençoadas com um Super Nintendo. Lá em casa tínhamos um Master System, e, quando chegava a nossa vez de receber a turma, quem comandava era o California Games. Juntar a galera para trocar sopapos virtuais é, com certeza, uma das melhores memórias que guardo daqueles tempos.
Talvez por isso seja tão frustrante constatar que poucas franquias de videogame acumularam tantas tentativas fracassadas no cinema quanto Street Fighter. A adaptação de 1994, com Jean-Claude Van Damme e o saudoso Raul Julia, virou cult mais pelo exagero do que pelo mérito, e A Lenda de Chun-Li, de 2009, foi esquecida tão rápido quanto chegou aos cinemas. Mais de três décadas depois, a Legendary aposta numa nova versão, com supervisão da Capcom, elenco estrelado e a promessa de finalmente levar o espírito do jogo para a tela grande. A pergunta que todo fã que já passou o controle numa locadora carrega para a sala de cinema é simples: desta vez vai?
Sinopse
Em 1987, um jovem Ryu (Andrew Koji) vence o torneio World Warrior ao derrotar Sagat. A vitória, porém, desperta nele uma força obscura que ele não consegue controlar, e o lutador abandona as competições em busca de equilíbrio. Seis anos depois, em 1993, Ryu vive recluso, enquanto seu antigo parceiro de treino, Ken Masters (Noah Centineo), trilhou o caminho oposto: extrovertido e sedento por fama, segue carreira ao lado do amigo e empresário Dan Hibiki (Andrew Schulz). Ryu e Ken estão afastados há anos, separados por uma tragédia do passado e por ressentimentos nunca resolvidos.
É então que surge Chun-Li (Callina Liang), com um convite para uma nova edição do World Warrior, que reunirá alguns dos maiores lutadores do mundo. O convite, contudo, esconde interesses que vão muito além da disputa esportiva, e o torneio se revela apenas a fachada de uma conspiração arquitetada por M. Bison (David Dastmalchian).

Análise
O acerto mais inspirado: a animação
A melhor decisão criativa do filme aparece logo na primeira cena. Todos os flashbacks são apresentados em animação no estilo dos animes dos anos 1990, feita à mão, em vez de recorrer à maquiagem de rejuvenescimento ou a atores mais jovens. A escolha é elegante, resolve um problema técnico com charme e conversa diretamente com a memória afetiva de quem cresceu assistindo a Street Fighter II V nas manhãs do SBT. A sequência de abertura, com Ryu derrotando Sagat num golpe que funde Hadouken e Shoryuken, deixando a famosa cicatriz no peito do vilão, é espetacular. O segundo flashback, que mostra a morte do mestre de Ryu e Ken pelas mãos de Akuma (Joe “Roman Reigns” Anoa’i), carrega o peso emocional que sustenta toda a relação entre os protagonistas, já estremecida pela frustração de Ken por nunca ter conseguido aprender o Hadouken. Até a cena pós-créditos segue o formato, mostrando Bison, já fortalecido pelo Psycho Power, indo recrutar Sagat.
Um torneio que não acontece
O maior problema de Street Fighter está na própria premissa. O filme reúne Guile (Cody Rhodes), Dhalsim (Vidyut Jammwal), Balrog (Curtis “50 Cent” Jackson), E. Honda (Hirooki Goto) e Zangief (Olivier Richters) como convidados do World Warrior, apresenta Vega (Orville Peck), Cammy (Mel Jarnson) e Juli (Rayna Vallandingham) como soldados de Bison, com Vega disputando o torneio a serviço do vilão, e então simplesmente esquece o campeonato. O conflito central é inteiramente determinado pela conspiração do vilão, e o torneio vira pano de fundo. Guile luta contra Vega e perde, e nós nem vemos a luta! Depois do combate entre Ken e Dhalsim, a competição desaparece da tela, e o título acaba nas mãos de Joe (Alexander Volkanovski), personagem obscuro que só existiu na primeira versão do jogo, por W.O. Sua glória dura pouco: Akuma aparece e o elimina sem esforço. A referência é divertida para os fãs mais velhos, mas resume bem o descaso do roteiro com aquilo que deveria ser o coração da história.

Uma narrativa correndo atrás do caminhão
O enredo, em si, é bom. O triângulo formado por Ryu, Ken e Bison tem potencial dramático de sobra: Bison captura Ryu, força-o a lutar contra Blanka (Jason Momoa), que acaba ajudando o herói a fugir ao perceber que está sendo manipulado, e depois recaptura o protagonista para extrair parte de sua energia. Fortalecido, derrota com facilidade Chun-Li, que buscava vingar a morte do pai. Ryu, por sua vez, enfrenta Akuma, vence a um custo alto e é consumido pela escuridão, tornando-se o Evil Ryu, que apareceu nos jogos em 1996 como personagem secreto. É Ken quem o enfrenta e, à beira da derrota, finalmente consegue soltar o Hadouken. Ryu volta ao normal, mas fica desacordado, quase morto, e Ken o traz de volta cantando “What’s Up”, a música que o amigo usava para relaxar antes das lutas. É uma cena que poderia soar ridícula e, curiosamente, funciona.
O problema é como tudo isso é contado. A história é picotada, sem uma sequência reconhecível. As boas cenas se alternam e a narrativa tenta acompanhá-las como aquele famoso cachorrinho que caiu da mudança e sai correndo atrás do caminhão. O desfecho é abrupto: Bison encontra Akuma ainda vivo, captura-o para roubar também o seu poder, e o filme termina com Ryu, Ken, Dan e Chun-Li pegando carona com Guile e Dhalsim para iniciar uma nova perseguição. Não há resolução, apenas a promessa de uma continuação que ainda não está garantida.
Lutas boas, golpes escassos
As cenas de luta são o ponto alto do longa, e são muitas. O confronto entre Ryu e E. Honda na sauna, cenário clássico do lutador de sumô, e a luta entre Ken e Dhalsim no torneio são os destaques. O curioso é que os golpes especiais, a alma do jogo, aparecem pouco. Além do Hadouken e do Shoryuken de Ryu e Ken, vemos o Sonic Boom de Guile e o Hyakuretsu Harite e o Super Zutsuki de E. Honda. Blanka usa seus poderes elétricos, mas sem os golpes característicos. E Chun-Li merecia muito mais: ela distribui boas pancadas nos capangas, mas não executa nenhum dos golpes famosos que a consagraram.

Personagens fiéis, humor forçado
A caracterização é irrepreensível. Visual e comportamento dos personagens saem diretamente do jogo, e o fã reconhece cada um deles à primeira vista. O mesmo não se pode dizer do humor. A comédia física funciona, mas alguns personagens passam o filme inteiro soltando piadinhas forçadas, muitas vezes em momentos inapropriados, e o resultado é mais constrangedor do que engraçado.
Quanto a M. Bison, David Dastmalchian tem certa semelhança física com Raul Julia e claramente tenta imitar seus trejeitos. Falta-lhe, porém, o talento e a presença do ator porto-riquenho, e a homenagem fica no meio do caminho.
Pontos positivos
- Flashbacks em animação no estilo anime dos anos 1990, feita à mão
- Cenas de luta excelentes e numerosas
- Caracterização fiel dos personagens, no visual e no comportamento
- Bom aproveitamento de referências ao jogo, como Joe e o Evil Ryu
Pontos negativos
- O torneio praticamente não existe na tela
- Narrativa fragmentada e sem fluidez
- Poucos golpes especiais, sobretudo para Chun-Li
- Humor forçado em momentos inadequados
- M. Bison sem a força do original
- Final abrupto, dependente de uma continuação incerta

Conclusão
Street Fighter tem todos os ingredientes que os fãs pediram por décadas: personagens reconhecíveis, lutas bem coreografadas e um respeito evidente pelo material original. Falta-lhe, contudo, o que nenhum figurino resolve: um roteiro que saiba para onde está indo. É um filme divertido, que entrega exatamente o que promete no departamento da pancadaria, mas tropeça justamente no torneio que lhe dá nome e numa narrativa que nunca encontra o próprio ritmo. Quem for ao cinema em busca de diversão sai satisfeito; quem esperava a adaptação definitiva vai ter que esperar mais um round. No duelo com a versão de 1994, este vence, mas por pontos, numa decisão apertada dos juízes.
E você, já assistiu? Achou que o torneio fez falta, ou a conspiração de Bison bastou para segurar o filme? Conte nos comentários!
Nota do Vini: 6,5/10 😊
Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.
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