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[Resenha] O Detetive Parker Pyne – Agatha Christie

Título original: Parker Pyne Investigates (1934)
Autora: Agatha Christie
Editora: L&PM
Categoria: Livros — contos policiais
Conteúdo: 14 contos


Introdução

Depois de duas leituras de subtexto denso — o filosófico e exigente Hereges de Duna e o misterioso (não resisti!) A Ilha Misteriosa —, caiu em minhas mãos algo bem mais leve: O Detetive Parker Pyne, de Agatha Christie. A Rainha do Crime está entre as minhas autoras prediletas, e justamente por isso me custa admitir que este é um de seus livros que considero bem abaixo da média.

É apenas a segunda vez que isso me acontece com ela. A primeira foi uma coletânea de contos de mistérios sobrenaturais, com uma temática próxima ao espiritismo de Allan Kardec. Ali, sem preconceito algum, o problema foi simplesmente o tema, que não me agrada como entretenimento. Aqui a questão é outra: a escrita me pareceu pouco inspirada, um tanto preguiçosa, ouso dizer.

Sinopse

Parker Pyne não se considera um detetive. Ele se apresenta como um especialista em felicidade e anuncia seus serviços nos jornais com uma frase provocativa: “Você é feliz? Se não for, consulte o sr. Parker Pyne.” Durante 35 anos, foi funcionário público, compilando estatísticas numa repartição do governo. Aposentado, decidiu aplicar essa experiência na compreensão dos problemas humanos — e, de quebra, ganhar algum dinheiro com isso. Segundo ele, existem cinco grandes categorias de infelicidade e, uma vez diagnosticada a causa, a cura é garantida, como num tratamento médico: se o mal tiver remédio, o cliente sai curado.

A origem do personagem é curiosa e está contada no prefácio da própria autora. Christie teve a ideia ao ouvir, num restaurante, um homem que falava animadamente a um amigo sobre estatística. Ela tomou emprestados o tema da conversa e a aparência física do desconhecido, e assim nasceu Parker Pyne.

A edição nacional da L&PM reúne os doze contos publicados originalmente em Parker Pyne Investigates, de 1934, mais dois publicados posteriormente, dispostos em ordem cronológica. As histórias acompanham duas fases da vida do personagem. Na primeira, vemos o sr. Pyne em seu escritório londrino, atendendo clientes infelizes. Na segunda, acompanhamos uma tumultuada temporada de viagens — do Expresso do Oriente ao Nilo, de Bagdá a Delfos —, em que ele é forçado, mais de uma vez, a agir como o detetive que insiste não ser.

Os casos

Primeira parte — o escritório

  1. O caso da esposa de meia-idade — Maria Packington vê o marido, enfim bem-sucedido, dedicar mais atenção à jovem secretária do que a ela.
  2. O caso do soldado descontente — Um major recém-aposentado depois de anos na África Oriental definha de tédio na pacata vida inglesa.
  3. O caso da senhora angustiada — Uma jovem endividada pelo jogo quer devolver, sem ser descoberta, o anel de diamantes que trocou por uma imitação.
  4. O caso do marido descontente — Um marido tem seis meses para reconquistar a esposa entediada antes que ela peça o divórcio.
  5. O caso do funcionário do escritório — Um pacato funcionário de meia-idade quer viver, ao menos uma vez, uma aventura de verdade.
  6. O caso da mulher rica — Uma viúva milionária percebe que a fortuna não lhe trouxe a felicidade que tinha na vida simples.

Segunda parte — as viagens

  1. Você tem tudo o que quer? — No Expresso do Oriente, uma jovem esposa se inquieta com uma mensagem enigmática deixada pelo marido.
  2. O portão de Bagdá — Numa travessia de ônibus pelo deserto, entre Damasco e Bagdá, um dos passageiros aparece morto.
  3. A casa de Shiraz — Uma inglesa vive reclusa na Pérsia, e por trás de seu isolamento há uma tragédia antiga.
  4. A pérola de grande valor — Uma pérola desaparece durante uma excursão a Petra, e a suspeita recai sobre um ex-ladrão regenerado.
  5. Morte no Nilo — A bordo de um barco no Nilo, uma rica passageira suspeita que o marido a esteja envenenando. (Não confundir com o romance homônimo protagonizado por Hercule Poirot.)
  6. O oráculo de Delfos — Viajando incógnito, Pyne descobre que alguém está usando o seu nome.
  7. Problemas em Pollensa Bay — Em Maiorca, uma mãe quer impedir o filho de se casar com a moça que ela desaprova.
  8. O mistério da regata — Uma aposta de mágica faz um diamante valiosíssimo desaparecer — de verdade.
Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

Análise

O especialista que fabrica a verdade

O traço mais característico de Parker Pyne é sua disposição para manipular as circunstâncias em vez de simplesmente observar os acontecimentos. Ele monta encenações elaboradas, induz pessoas a acreditar em situações fictícias e provoca reações emocionais para trazer à tona desejos e intenções ocultos. Já no primeiro conto, o método fica claro: a sra. Packington acredita que o problema é apenas o marido, mas Pyne percebe que o casal se distanciou dos dois lados — e organiza tudo para que ambos descubram isso por conta própria.

Essa abordagem lembra a dos protagonistas de Lie to Me e The Mentalist: todos combinam observação aguçada, dedução e conhecimento da psicologia humana para compreender as motivações alheias. Mas Pyne vai além de interpretar comportamentos e identificar mentiras. Em vez de apenas descobrir a verdade, ele cria as condições para que ela venha à tona, numa estratégia que transforma a própria investigação em uma espécie de teatro.

Sua capacidade de observação o aproxima de Sherlock Holmes — basta um olhar sobre as roupas, a postura e a linguagem corporal de um cliente para que ele deduza quase toda a sua vida. A diferença está na maneira como cada um lida com o próprio intelecto. Holmes aprecia reconstruir seu raciocínio diante da plateia, demonstrando como detalhes aparentemente insignificantes conduzem à solução. Pyne parece ter pouca paciência para esse tipo de exposição: interessa-lhe mais chegar à resposta e colocá-la em prática do que exibir o percurso mental que o levou até ela. Para Holmes, a explicação é uma demonstração de brilhantismo; para Pyne, o raciocínio é uma ferramenta pragmática, subordinada à resolução do problema. E há outra diferença fundamental: em vez de grandes crimes, Pyne se interessa pelos dramas comuns da vida cotidiana.

O elenco de apoio — e duas estreias ilustres

Para executar seus planos, Pyne conta com colaboradores especializados em disfarces, sedução e interpretação de papéis. O elegante Claude Luttrell é o mais interessante deles, e revela o lado um tanto perverso do patrão: Claude costumava aplicar golpes em senhoras ricas, e Pyne dá a entender que pode revelar suas indiscrições passadas, o que torna sua colaboração menos voluntária do que parece. Não por acaso, o próprio Claude demonstra certo remorso pela natureza profissional de sua participação no primeiro caso. Completa o time a sedutora Madeleine de Sara, peça-chave em vários dos planos.

Mas os nomes que mais chamam a atenção do leitor veterano de Christie são outros dois. O primeiro é Felicity Lemon, que começou sua trajetória literária como secretária de Parker Pyne antes de se tornar famosa — já como Miss Lemon — ao lado de Hercule Poirot.

O segundo é Ariadne Oliver, escritora de mistérios de sucesso e criadora do detetive finlandês Sven Hjerson. Oliver funciona como um alter ego literário de Agatha Christie, permitindo que a autora comente, de dentro da própria ficção, os clichês, as convenções e até os absurdos do gênero policial. Assim como Christie, ela precisa lidar com as expectativas do público, com as peculiaridades do mercado editorial e com um personagem cuja popularidade parece escapar ao controle de sua criadora. Na equipe de Pyne, há ainda uma camada deliciosa: é ela quem escreve os roteiros das aventuras encenadas para os clientes — a romancista policial literalmente inventando as ficções que o “detetive” põe em cena.

Trata-se de um exercício de metalinguagem muito anterior ao sucesso do recurso nos filmes do Deadpool ou nos quadrinhos da Mulher-Hulk de John Byrne. Ao contrário desses exemplos, porém, Oliver não rompe a quarta parede nem se dirige ao leitor reconhecendo estar dentro de uma obra de ficção. O recurso de Christie é mais sutil: ela introduz na narrativa uma escritora que lhe permite refletir sobre o próprio ato de escrever histórias policiais — algo que ganharia contornos ainda mais nítidos nas aparições posteriores da personagem ao lado de Poirot.

Duas metades distintas

Os seis primeiros contos seguem uma estrutura bastante repetitiva, como nas séries de TV citadas acima: Pyne recebe um cliente, identifica a origem da infelicidade e monta uma situação para resolver o problema. Os planos vão do singelo ao mirabolante — o de O caso da mulher rica é de longe o mais complexo, e seu resultado leva meses para se cristalizar.

Há, contudo, uma exceção importante. Em O caso do marido descontente, os sentimentos dos envolvidos fogem ao roteiro, e a encenação sai completamente do controle. É a única vez em que um plano de Pyne fracassa, e isso é bem-vindo: mostra que, apesar da garantia de sucesso estampada no anúncio, o especialista em felicidade não é infalível.

Na segunda metade, as férias de Pyne mudam o registro da coletânea. Longe do escritório, ele se vê diante de roubos, fraudes e até assassinatos, e acaba agindo como um detetive convencional. Apenas em Problemas em Pollensa Bay o método original reaparece por inteiro — um conflito humano, não um crime, resolvido com a ajuda de Madeleine de Sara.

A ideia contra a execução

É aqui que mora minha principal crítica. Embora seja uma leitura agradável, o livro não tem a genialidade das obras mais famosas da autora. Pyne é um personagem interessante, mas não é tão complexo e tridimensional quanto Hercule Poirot ou Miss Marple, ficando mais próximo do Superintendente Battle: alguém que chega e resolve a questão, sem que precisemos nos aprofundar em sua personalidade e em suas motivações.

As histórias são curtas e rápidas e, embora bem escritas, passam a sensação de ser resumidas, como se tivesse faltado espaço para um desenvolvimento melhor. Os casos foram concebidos como contos, muitos deles publicados originalmente em revistas. Alguns têm fôlego para desenvolver personagens e reviravoltas; outros funcionam quase como pequenos exercícios de engenhosidade. Como o mecanismo se repete, Christie frequentemente salta direto para o conflito e para a solução, sem desenvolver as etapas intermediárias.

Nota-se que o interesse está na ideia, não necessariamente no desenvolvimento. Em vários contos, a graça reside apenas no plano engenhoso de Pyne, o que deixa a impressão de que a autora apresentou uma boa premissa e encerrou a história antes de explorar todas as suas possibilidades. No fim das contas, gostei mais da ideia de Parker Pyne — especialmente de seus métodos psicológicos — do que da execução de boa parte das histórias. Uma premissa interessante nem sempre resulta em uma narrativa satisfatória.


Pontos positivos

  • Premissa original: um “detetive” que investiga a infelicidade, e não crimes
  • Os métodos psicológicos de Pyne e suas encenações engenhosas
  • As estreias de Miss Lemon e Ariadne Oliver, com o sutil exercício de metalinguagem proporcionado pela segunda
  • Um plano fracassado, que impede o protagonista de soar infalível
  • Leitura leve, rápida e agradável, com a elegância habitual da autora

Pontos negativos

  • Contos curtos demais, com sensação de resumo
  • Estrutura repetitiva nos primeiros casos
  • Protagonista pouco desenvolvido, sem a profundidade de Poirot ou de Miss Marple
  • Escrita menos inspirada do que nas obras mais célebres de Christie

Conclusão

O Detetive Parker Pyne é uma leitura leve e agradável, ideal para um intervalo entre obras mais densas, mas está longe de representar o melhor de Agatha Christie. A premissa do especialista em felicidade é ótima, e os métodos do personagem renderiam muito mais do que contos tão breves conseguem oferecer. Recomendo o livro principalmente aos fãs da autora que desejam completar a coleção e aos curiosos pela origem de Miss Lemon e Ariadne Oliver. Para quem nunca leu a Rainha do Crime, porém, a porta de entrada ideal continua sendo Poirot ou Miss Marple.

E você, conhece o sr. Parker Pyne? Acha que ele merecia um romance só seu, com espaço para mostrar do que seus métodos são capazes?

Nota do Vini: 6/10 🙂


Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.

E se você pudesse encomendar um caso ao sr. Parker Pyne, qual seria a sua queixa? Conte nos comentários — prometemos não cobrar adiantado. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.

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