🎶 Para ler ouvindo: Batman: The Dark Knight Returns (Original Motion Picture Soundtrack)
Recomendação etária: 16 anos
Ato 2 — A Peregrinação
A cidade que havia sido Porto Alegre não tinha mais nome oficial.
O Conselho de Reconstrução a chamava de Setor Sul — uma designação administrativa, funcional, deliberadamente vazia de qualquer coisa que pudesse ser lembrada com afeto. Mas as pessoas que ainda viviam entre suas ruínas continuavam chamando pelo nome antigo, em voz baixa, como se o nome fosse uma forma de resistência que não custava nada e valia tudo.
Calvin chegou a pé, pela estrada que havia sido uma rodovia federal.
Não havia mais sinalização. Havia marcas no asfalto — não de desgaste, mas de algo que havia passado por ali com força suficiente para derreter o concreto em pontos específicos, deixando crateras rasas que a chuva havia transformado em pequenos lagos cor de ferrugem. Ele conhecia aquelas marcas. Havia feito algumas delas.
Parou na beira de uma das crateras e ficou olhando para o reflexo no fundo — o céu cinza, sua própria silhueta invertida, o nada ao redor.
A batalha havia acontecido aqui. Não exatamente aqui — a alguns quilômetros, onde os prédios ainda estavam de pé, ou o que restava deles. Mas aqui era onde havia começado, e começos importavam de formas que ele estava aprendendo a reconhecer com atraso.
Seguiu em frente.
Fragmentos
A Áurea foi a primeira dos três que reservei para mim.
Encontrei-a no sul do continente, numa cidade portuária que ela protegia havia mais de uma década. As pessoas de lá a conheciam pelo nome — não pelo nome de guerra, pelo nome de verdade. Isso me dizia algo sobre ela que eu não queria considerar na época.
Ela soube que eu estava chegando antes de eu chegar. Não sei como — talvez tivesse sentidos ampliados como eu, talvez alguém a tivesse avisado, talvez simplesmente soubesse da forma que os guerreiros experientes sabem quando a guerra finalmente bate à porta.
Quando pousou na minha frente, no meio da avenida principal, estava sozinha. Sem evacuar a cidade, sem chamar reforços, sem estratégia aparente. Apenas ela, entre mim e as pessoas que estavam nas janelas olhando.
Entendi depois. A estratégia era ela mesma. Era ficar ali, entre mim e os outros, e fazer de si mesma o maior obstáculo possível pelo maior tempo possível.
Não foi uma batalha rápida.
Calvin chegou ao que havia sido o centro da cidade no início da tarde.
O esqueleto de um prédio alto projetava sombra longa sobre a praça. Metade da estrutura havia desaparecido — não desabado, desaparecido, como se algo de muito grande tivesse simplesmente passado por ela sem se importar com o que havia no caminho. As pessoas que reconstruíam nas bordas da praça haviam aprendido a não olhar para aquela sombra. Algumas delas, as mais velhas, faziam um gesto discreto ao passar — não exatamente religioso, não exatamente superstição. Algo entre os dois.
Um velho sentado numa cadeira de rodas na entrada de uma loja improvisada olhou para Calvin quando ele parou na praça.
— Você é novo aqui — disse o velho. Não era acusação, apenas observação.
— Estou passando — respondeu Calvin.
— Todo mundo que para nessa praça está passando — disse o velho. — Mas a maioria para por um motivo.
Calvin olhou para o prédio partido.
— O que aconteceu aqui?
O velho ficou em silêncio por um momento. Havia o tipo de silêncio que precede histórias que as pessoas contaram tantas vezes que as palavras ficaram gastas, e o tipo que precede histórias que as pessoas nunca conseguiram contar direito. Este era o segundo tipo.
— Ela ficou na frente dele por quase um dia inteiro — disse o velho por fim. — Áurea. — Ele pronunciou o nome com o cuidado de quem pronuncia uma palavra sagrada. — Salvou muita gente, naquele dia. Não sei onde ela arranjou força para tanto. Mas ficou.
Calvin não disse nada.
— No final, quando ela não conseguia mais se levantar, ele foi embora. — O velho apontou para o prédio partido. — Passou por esse prédio sem olhar para ele. Só passou. — Pausa. — Ela morreu aqui na praça. Sozinha, porque todo mundo tinha fugido, menos eu.
Ele bateu na lateral da cadeira de rodas, como que sublinhando sua fala. Olhou para Calvin com olhos que haviam visto coisas demais para ainda se surpreenderem com muito.
— Você a conheceu?
— Não — disse Calvin. — Mas ouvi falar.
Fragmentos
Juntos, eles me deram mais trabalho do que separados.
O Soldado de Ferro chegou no segundo dia, a armadura reluzindo no sol da manhã. Por um momento os três ficamos parados. Ele olhou para ela. Ela olhou para ele. Alguma coisa passou entre os dois — não palavras, não sinais, apenas o entendimento silencioso de dois seres que sabem que estão no mesmo lado e que o lado deles está perdendo.
Então viraram para mim, juntos, e recomeçou.
Não era apenas força somada — era coordenação. Ela atacava de frente, ele flanqueava. Quando eu me voltava para um, o outro aproveitava o ângulo. A armadura do Soldado de Ferro tinha sistemas que eu não havia antecipado — não a arma que o Asas de Couro havia construído, mas outras coisas, menores, projetadas com o conhecimento específico de quem havia estudado seres como eu por anos.
Levei dano. Não o suficiente para me deter, mas o suficiente para me irritar.
Foi então que usei o prédio.
Não precisava. Havia outras formas de mudar o curso do combate. Mas eles estavam me testando, e eu queria encerrar aquilo. Peguei o edifício pelo meio — doze andares de concreto e aço — e o arremessei na direção deles.
Eles desviaram. É claro que desviaram — eram o que eram.
Mas havia pessoas lá dentro.
O Soldado de Ferro havia caído a duzentos quilômetros dali.
Calvin fez o caminho a pé, pela mesma lógica que o havia feito percorrer o trecho anterior sem usar os poderes que poderia ter usado. Havia algo que ele ainda não sabia nomear que insistia em que ele andasse. Que sentisse o peso de cada quilômetro. Que chegasse cansado.
Era uma forma estranha de penitência, e ele sabia que não era suficiente. Mas era o que tinha.
O lugar onde o Soldado de Ferro havia caído era diferente da praça da Áurea. Não havia prédios partidos, não havia crateras no asfalto. Havia uma planície aberta — havia sido um parque, talvez, ou um campo de algum tipo — e no centro dela, um círculo de terra queimada de uns vinte metros de diâmetro, como se algo de muito quente houvesse pousado ali e ficado por tempo suficiente para deixar marca.
Não havia monumento. Não havia placa. Mas havia flores — flores frescas, colocadas ali naquele dia ou no anterior, no centro do círculo queimado. Alguém vinha aqui regularmente. Alguém lembrava.
Calvin ficou parado na borda do círculo por um longo tempo.
Fragmentos
O Mola apareceu quando o prédio caiu.
Não para lutar — ele sabia, assim como eu sabia, que não havia nada que ele pudesse fazer contra mim. Apareceu pelos escombros, os braços se estendendo em direções impossíveis, alcançando as pessoas que ainda estavam vivas sob as vigas, puxando-as para fora uma por uma.
Enquanto eu continuava com os outros dois.
A Áurea caiu primeiro — de exaustão, não de um golpe único. Havia chegado ao limite do que um corpo pode fazer, mesmo um corpo como o dela, e simplesmente parou de funcionar. O Soldado de Ferro durou mais, a armadura compensando o que o homem dentro dela já não conseguia. Quando a IA que vivia ali dentro finalmente calou, foi com uma palavra dirigida não a mim, mas a ela — que já não ouvia.
Olhei para o Mola.
Ele havia formado um abrigo com o próprio corpo, os braços esticados em múltiplas direções sustentando vigas que o peso estava curvando lentamente. Havia talvez vinte pessoas sob aquela proteção improvisada — idosos, crianças, alguns feridos que não conseguiam se mover. Ele tremia com o esforço. O sangue escorria de um corte na testa, pingando no concreto abaixo.
Me aproximei.
Ele me olhou por cima dos escombros que sustentava. Não pediu nada. Não disse nada. Apenas me olhou com aquela expressão que eu não conseguia classificar — não era desafio, não era súplica. Era algo mais simples e mais perturbador: ele simplesmente continuava fazendo o que estava fazendo, independentemente de eu estar ali.
Usei a visão de calor.
Não demorou.
Quando terminou, os braços do Mola afrouxaram lentamente, as vigas cederam, e o que havia sido um abrigo tornou-se apenas escombros sobre mais escombros. Ele ficou de joelhos entre as ruínas, olhando para o que eu havia feito, e por um momento não havia nenhum som além do assentar do concreto.
Fui até ele. Segurei-o pelo pescoço e o ergui, e os braços — aqueles braços que haviam alcançado tão longe, que haviam sustentado tanto — penderam flácidos ao lado do corpo.
— Por que você se importa — perguntei — com seres inferiores?
Ele me olhou. Cuspiu sangue. E disse, com a voz de quem não tem mais nada a perder além de uma última verdade:
— Porque quem tem o poder de ajudar tem o dever de ajudar.
Quebrei o pescoço dele.
E segui em frente.
O terceiro lugar não era uma praça nem uma planície.
Era uma rua comum — ou havia sido. Agora era uma cicatriz no tecido da cidade, um bloco inteiro que havia desabado sobre si mesmo e sido parcialmente removido nos anos seguintes, deixando um vazio entre os prédios vizinhos como um dente arrancado.
As marcas nas paredes dos prédios sobreviventes contavam parte da história — arranhões profundos no concreto, em alturas impossíveis para qualquer ser humano. E numa das paredes, quase apagada pelo tempo e pela umidade, uma pichação que alguém havia feito e que o Conselho não havia conseguido remover completamente:
MOLA ESTEVE AQUI.
Abaixo, em letras menores, acrescentadas depois por outra mão:
ELE SALVOU MINHA MÃE.
E abaixo dessa, em outra letra ainda:
E MEU FILHO.
Calvin leu as três linhas três vezes.
Havia uma sensação que ele não conseguia identificar com precisão — não era culpa, porque culpa ele já conhecia, havia aprendido a reconhecer sua textura específica nos meses de vagar entre os escombros. Era outra coisa. Menor. Mais localizada.
Era a diferença entre saber que havia feito algo terrível e entender, finalmente, o que havia feito.
O Mola não estava lutando contra ele. O Mola nunca havia lutado contra ele. O Mola havia passado aquele dia inteiro fazendo uma coisa completamente diferente, com os recursos que tinha, sem parar para calcular se valia a pena ou se havia alguma chance de sucesso.
E ele havia matado as pessoas que o Mola salvou.
Não por estratégia. Não por necessidade. Porque estavam lá, porque podia, porque naquele momento a vida delas não pesava mais do que qualquer outro obstáculo que havia encontrado pelo caminho.
Quem tem o poder de ajudar tem o dever de ajudar.
Calvin olhou para as próprias mãos — lisas, sem cicatrizes, capazes de erguer vigas e partir pescoços com a mesma facilidade indiferente.
Tinha o poder. Sempre teve.
Havia usado para construir uma guerra, recrutar exércitos, devastar cidades, matar seres que tentavam proteger outros seres — e matar os outros seres também, os que não tinham nenhum poder além de existir no lugar errado na hora errada. Havia usado para provar um ponto que, no final, não havia ponto nenhum.
Havia um homem que havia esticado os braços até o limite do impossível para segurar uma viga sobre pessoas que não o conheciam. Havia feito isso sabendo que Calvin estava lá. Sabendo o que Calvin havia feito com os outros. Sabendo que não havia nenhuma chance de que aquilo terminasse de outra forma que não terminasse.
E havia feito assim mesmo.
Calvin ficou olhando para a pichação na parede por mais um tempo. Depois se virou e seguiu pela rua vazia, na direção em que o caminho levava.
Não havia chegado a nenhuma conclusão. Não havia tomado nenhuma decisão.
Mas havia algo que havia estacionado dentro dele, quieto e pesado, que ele sabia que não ia embora.
Fim do Ato 2
Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.
Há uma diferença entre saber que você fez algo terrível e entender, finalmente, o que você fez. Calvin está aprendendo essa diferença a pé, quilômetro a quilômetro, parada a parada. O Ato 2 de Redenção já está no ar — e o Mola vai fazer você sentir aquela diferença também. Compartilhe com alguém que precisa ler isso. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.
