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[Artigo] Batman: Cavaleiro Branco — Quando o progressismo tentou derrotar o Batman, e perdeu

Existe um experimento mental muito popular entre certos críticos de quadrinhos: e se o herói fosse, na verdade, o vilão? E se a violência que ele representa fosse mais perigosa do que os crimes que ele combate? E se o Coringa — sim, o Coringa — fosse o verdadeiro herói de Gotham City?

Batman: Cavaleiro Branco, a minissérie de oito números escrita e desenhada por Sean Murphy entre 2017 e 2018, é exatamente esse experimento. E o resultado é uma história tecnicamente bem executada, visualmente impressionante e, no plano das ideias, fundamentalmente equivocada — sobre o Batman, sobre Gotham e sobre como o crime funciona no mundo real.

A DC a tratou como um grande sucesso. O mercado, com o tempo, deu seu veredicto.

A tese

A premissa é simples e ousada: o Coringa é curado de sua loucura, assume o nome de Jack Napier e passa a agir como político e ativista. Ele não é mais um criminoso — ele é um reformador. Um homem que denuncia a brutalidade policial, defende as comunidades marginalizadas de Gotham e aponta o Batman como o verdadeiro responsável pela violência na cidade.

O Batman, por sua vez, é retratado como uma força descontrolada, obsessiva e potencialmente mais perigosa do que qualquer vilão que já enfrentou. Ele destrói propriedade pública, ignora ordens legítimas, e sua existência justifica — segundo a lógica da história — a própria escalada do crime.

A tese central de Cavaleiro Branco é clara e não requer muito esforço para identificar: a violência dos criminosos é uma resposta à violência do sistema. Os heróis — e por extensão, a polícia — não são a solução; são o problema. Jack Napier não é mau. Ele apenas vendia itens que deveriam ser legalizados, e quando alguém como o Batman insistiu em tratá-lo como inimigo, a consequência inevitável foi o caos.

Qualquer semelhança com o discurso político real não é coincidência.

O que as histórias verdadeiramente boas do Batman ensinam

O problema com essa tese não é apenas político. É narrativo. Ela contradiz o que décadas de histórias realmente boas do Batman demonstraram com consistência.

Batman: Hush, de Jeph Loeb e Jim Lee, lançado na série regular a partir de 2002, não precisou inverter a moral do universo para se tornar uma das histórias mais vendidas da história do personagem. O primeiro capítulo, o Batman #608, vendeu mais de 139.000 cópias — o triplo do que a série registrava no número imediatamente anterior. A razão é simples: Loeb tratou Batman como Batman. Um herói. Alguém que o leitor quer ver vencer.

Batman: Three Jokers, lançado em 2020 também pelo selo Black Label, foi ainda mais longe: o primeiro número moveu mais de 300.000 cópias e liderou o mercado americano em unidades e receita naquele mês. Não há inversão de papéis. Não há denúncia do herói. Há Batman enfrentando uma ameaça existencial, e o público respondeu em massa.

A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland, publicada originalmente em 1988, vendeu bem o suficiente para liderar seu mês de lançamento na Capital City Distribution — com preço de capa significativamente mais alto que a média. Mais de três décadas depois, continuava entre os vinte livros de quadrinhos mais vendidos em livrarias norte-americanas, impulsionado cada vez que o Coringa voltava à cultura popular. Isso é o que se chama de legado real.

E há Batman: O Longo Dia das Bruxas, de Loeb e Tim Sale, talvez o melhor exemplo do que uma minissérie do Batman pode e deve ser. Publicada entre outubro de 1996 e outubro de 1997, em treze números mensais, a série custava $2,95 por edição — mais caro do que a série regular, em um mercado onde X-Men e Spawn dominavam as prateleiras com edições a $1,95. Mesmo assim, os dados do Comichron mostram que o quarto número, em janeiro de 1997, moveu cerca de 52.000 cópias e ocupava a 47ª posição entre todos os quadrinhos vendidos naquele mês — um resultado sólido para uma minissérie paga premium em um mercado inflado pela bolha especulativa. Décadas mais tarde, O Longo Dia das Bruxas inspirou diretamente a trilogia de Christopher Nolan e o filme The Batman de 2022, com edições especiais sendo lançadas junto com a estreia do filme. Não existem edições especiais de aniversário para histórias que o público esqueceu.

Em O Longo Dia das Bruxas, Batman é Batman. O crime existe porque criminosos escolhem o crime. Os vilões têm motivações próprias, não reduzíveis à brutalidade do herói. E a moral do universo está intacta.

O veredicto do mercado

Batman: Cavaleiro Branco #1 estreou em outubro de 2017 com cerca de 86.000 cópias vendidas — um número razoável para o mercado da época, impulsionado pelo hype em torno da premissa e do talento visual de Murphy. O segundo número já registrava queda de quase 20%, para cerca de 69.000 cópias. O terceiro estabilizou levemente, mas a trajetória descendente estava estabelecida.

A DC, porém, enxergou potencial suficiente para transformar Cavaleiro Branco em uma franquia. O que se seguiu foi uma proliferação de continuações e spin-offs que, ao longo de seis anos, foi mapeando com precisão o desinteresse do público:

Batman: Curse of the White Knight (2019–2020), a sequência direta escrita e desenhada pelo próprio Murphy, teve oito números. Batman: White Knight Presents Von Freeze (2019), uma história de apoio de número único. Batman: White Knight Presents: Harley Quinn (2020–2021), seis números escritos por Katana Collins — esposa de Murphy — sem a participação do criador original na arte. Batman: Beyond the White Knight (2022–2023), oito números. Batman: White Knight Presents: Red Hood (2022), dois números. Batman: White Knight Presents: Generation Joker (2023), seis números.

São mais de trinta números distribuídos ao longo de seis anos, além de histórias de apoio e edições especiais. O Beyond the White Knight chegou a ocupar uma posição média de ranking 31 na primeira metade de 2022 — um número que soa respeitável até que se considere que a série regular do Batman operava então entre 83.000 e 118.000 cópias por mês, e que Batman: Fear State Alpha, no mesmo período, chegou perto de 100.000 cópias.

Os últimos spin-offs da franquia — Red Hood com apenas dois números, Generation Joker praticamente ausente da cobertura especializada — contam o restante da história sem precisar de números. Quando uma editora lança um spin-off de dois números, não é expansão de universo. É descontinuação disfarçada de conclusão.

Por que o Batman funciona

A pergunta que Cavaleiro Branco nunca responde satisfatoriamente é a mais básica: se o Batman é o problema, por que Gotham precisa do Batman?

A resposta que as melhores histórias do personagem oferecem é direta: porque o crime em Gotham não é um efeito colateral da brutalidade policial. É um produto deliberado de pessoas que escolheram o crime como forma de vida e de poder. O Coringa não é violento porque o Batman o persegue. O Coringa é violento porque a violência é o produto que ele vende — a moeda de troca de seu domínio sobre o caos.

Batman é a resposta. Não a causa.

Essa distinção importa porque ela é verdadeira — não apenas ficcionalmente, mas como retrato do que a criminalidade organizada realmente é. As histórias do Batman que duram décadas, que geram adaptações, que são reimpresas em edições especiais e estudadas por roteiristas de cinema, são as que respeitam essa lógica. São as que tratam o herói como herói e o vilão como vilão, sem precisar inverter os papéis para parecerem inteligentes.

Cavaleiro Branco é uma história bem desenhada com uma tese ruim. A DC apostou nessa tese durante seis anos. O mercado discordou com educação, número a número, até que não houvesse mais motivo para continuar.

O Batman não perdeu. Ele simplesmente continuou sendo o Batman.


Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.

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