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[Conto] Redenção – Ato 4

🎶 Para ler ouvindo: Batman: The Dark Knight Returns (Original Motion Picture Soundtrack)
Recomendação etária: 16 anos

Índice: Ato 1 | Ato 2 | Ato 3 | Ato 4

Ato 4 — O Fim e o Começo

A loja estava fechada quando Calvin chegou.

Não era tarde — o sol ainda não havia desaparecido completamente atrás dos prédios — mas Maren havia aprendido, nos anos desde a guerra, que fechar cedo era uma forma de sobreviver. Não fisicamente. Era outra coisa, mais difícil de nomear: a sobrevivência de quem ainda acredita em algo num mundo que desaprendeu a acreditar, e que precisa de tempo sozinho para continuar acreditando.

Ele bateu na porta assim mesmo.

Ela demorou. Ele esperou, sem impaciência, com aquela capacidade específica de ficar parado que havia aprendido nos anos entre os universos — o silêncio de quem já ficou parado por tanto tempo, em lugares tão piores do que uma calçada de Novarca, que esperar deixou de ser um esforço e virou apenas um estado.

A porta abriu.

Maren olhou para ele por um momento. Depois se afastou para deixá-lo entrar, sem perguntar nada, como se houvesse algo na expressão dele que dispensava perguntas.

— Preciso contar — disse Calvin.

— Eu sei — respondeu ela. — Entre.


Ela fez chá.

Não perguntou se ele queria — simplesmente foi até a pequena cozinha nos fundos e voltou com duas xícaras, colocou uma na frente dele e ficou do outro lado do balcão com a outra entre as mãos, olhando para ele com aquela expressão que ele havia aprendido a reconhecer como o jeito dela de dizer pode começar.

Calvin olhou para a xícara por um momento.

— Depois da guerra — disse —, eu não fui embora logo.

— Eu sei. Você ficou aqui.

— Fiquei vendo o que havia feito. — Pausa. — Há uma coisa que acontece quando você tem a visão que eu tenho e não consegue fechar os olhos. Você vê tudo. Não tem como não ver.

Maren não disse nada. Apenas segurou a xícara.

— Depois de algum tempo, fui até o governo. O que restava dele. — Calvin ergueu os olhos para ela. — Me entreguei.

A expressão de Maren não mudou, mas algo nos olhos mudou — não surpresa, algo mais próximo de confirmação. Como se uma peça que ela havia mantido reservada finalmente encontrasse o lugar certo.

— Eles não sabiam o que fazer comigo — continuou ele. — Não havia lei para aquilo, não havia precedente, não havia cela capaz de me conter se eu decidisse sair. Mas fiquei. — Uma pausa longa. — Precisava ficar. Era a única coisa que eu sabia fazer que tinha algum sentido.

— Quanto tempo?

— Dez anos. — Ele quase sorriu, mas não chegou lá. — Eles mantiveram segredo. Faz sentido — saber que eu estava vivo, que o monstro estava apenas preso, a pedido próprio, teria gerado pânico. Ou esperança do tipo errado. Então ninguém sabia. Era só eu, quatro paredes, e um capelão que aparecia às terças-feiras.


Maren pousou a xícara no balcão.

— Um capelão.

— Ele se chamava Thomas. — Calvin olhou para as mãos. — Não tinha medo de mim. Isso me intrigava mais do que qualquer outra coisa naquela prisão. Todo mundo tinha medo de mim — os guardas, os administradores, até os outros prisioneiros, que nunca me viram mas sabiam que eu estava lá. O Thomas entrava na cela toda terça-feira com uma Bíblia embaixo do braço e uma expressão de quem vinha visitar um velho conhecido.

— O que ele dizia?

— No começo, nada de útil. Ou nada que eu estivesse disposto a ouvir. — Calvin envolveu a xícara com as mãos, como se procurasse o calor dela. — Mas ele tinha uma qualidade que eu aprendi a respeitar: não tentava me convencer de nada. Só conversava. Fazia perguntas. Ouvia as respostas.

— E um dia você começou a responder de verdade.

— Um dia ele me perguntou se eu havia tido uma família. — Calvin ficou em silêncio por um momento. — No meu universo, antes de tudo, eu tive pais adotivos. Não eram como eu — eram humanos comuns, sem nada de especial além do fato de terem me escolhido quando ninguém mais queria. Eles me levavam para a escola dominical aos domingos. Eu ia sem reclamar porque gostava do lanche.

Maren deixou escapar algo que quase foi um sorriso.

— E dos hinos — acrescentou Calvin, mais baixo. — Gostava dos hinos. Não entendia metade das palavras, mas havia algo na música que ficava. Como uma semente que alguém planta em terra dura sem avisar.

Ele ficou em silêncio. Lá fora, a rua de Novarca fazia seus ruídos de sempre — passos, vozes distantes, o rangido intermitente de algo que precisava de conserto e que o Conselho de Reconstrução havia classificado como prioridade baixa.

— Na prisão, o Thomas cantarolava às vezes enquanto conversava. Sem perceber, acho. E um dia eu reconheci. Era um hino que eu havia ouvido quando criança. — Calvin fechou os olhos por um instante. — As ondas atendem ao meu mandar: sossegai. Seja o encapelado mar, a ira dos homens, o gênio do mal — tais águas não podem a nau tragar, que leva o Senhor, Rei do céu e mar.

O silêncio que se seguiu era diferente dos outros silêncios daquela noite. Era o tipo que acontece depois que palavras muito antigas pousam num lugar que estava esperando por elas sem saber.

O gênio do mal — disse Calvin, abrindo os olhos. — Eu era o gênio do mal. Literalmente. E o hino dizia que as águas não podiam tragar a nau que leva o Senhor.

— E isso te perturbou.

— Me perturbou por semanas. — Ele olhou para Maren. — Então perguntei ao Thomas: se esse Deus é soberano, se as ondas atendem ao seu mandar, por que Ele me deixou fazer o que fiz? Por que não me deteve? — Pausa. — Por que Ele criou o mal?

Maren envolveu a própria xícara com as mãos, espelhando sem perceber o gesto dele.

— O que o Thomas respondeu?

— Ele ficou em silêncio por um tempo longo. Depois disse: Ele não criou o mal. Criou seres com liberdade real. E liberdade real inclui a possibilidade de destruição real. — Calvin olhou para as mãos. — Disse que o mal que eu havia feito era meu. Que a soberania de Deus não elimina a responsabilidade de cada um — ela a absorve, sem cancelá-la.

— Mas você não se conformou com isso.

— Perguntei: então Ele quis que eu destruísse esse mundo? Se é soberano, se as ondas atendem ao seu mandar, onde estava o seu mandar quando as cidades estavam caindo?

Maren não respondeu imediatamente. Era o tipo de pergunta que merecia silêncio antes de qualquer palavra.

— O que ele disse? — perguntou ela por fim.

— Disse que Deus estava em cada herói que ficou de pé na minha frente. — Calvin levantou os olhos lentamente. — Que Ele mandou. Em cada um deles. E que eu não quis ouvir.

O silêncio voltou, mas com um peso diferente agora — não o peso do vazio, mas o peso de algo que acaba de se encaixar no lugar e que não vai sair mais.

— A Áurea — disse Maren, quase para si mesma.

— O Soldado de Ferro. O Mola. — Calvin fez uma pausa. — O Solum.

Que mundo? Você o destruiu.

— Eram as ondas. — Sua voz saiu mais baixa do que pretendia. — E eu não ouvi.


Ficaram em silêncio por um tempo.

Maren levantou, foi até a prateleira dos fundos, e voltou sem trazer nada. Apenas ficou de pé do outro lado do balcão, olhando para ele com aquela expressão que ele já havia aprendido a ler — não julgamento, não pena, algo que ficava entre as duas coisas e não era nenhuma delas.

— Você acha — disse ela por fim, com a voz de quem vai dizer algo difícil e escolheu não adiar mais — que Deus pode te perdoar? Depois de tudo o que você fez? As mortes, a destruição…

Calvin não respondeu imediatamente. Era a pergunta que ele havia carregado por dez anos numa cela, e por mais alguns vagando por um mundo que ele havia quebrado.

— Conforme tudo que aprendi quando criança — disse por fim —, por incrível que pareça… sim. — Uma pausa. — Mas eu não consigo me perdoar. A dor pelo que fiz me consome. Sinto que preciso, de alguma forma, compensar. Mas como isso seria possível? O que eu fiz foi grande demais. Terrível demais.

Maren ficou olhando para ele por um longo momento.

— Talvez você nunca consiga compensar — disse ela. — Aliás, provavelmente não. — Pausa. — Mas o mundo ainda precisa de heróis. Agora mais do que nunca.

Calvin franziu o cenho levemente.

— Do que você está falando?

— Você sabe do que estou falando.

— Você acha que eu deveria simplesmente assumir o lugar dele? — A voz de Calvin subiu meio tom, o primeiro sinal em toda aquela conversa de algo que não era contenção. — Como se nada tivesse acontecido? Isso é loucura, Maren.

— Não o lugar dele — disse ela, com uma calma que não era indiferença, era certeza. — O seu lugar.

Calvin ficou em silêncio.

— Seus pais adotivos — continuou Maren. — Eles devem ter te criado da mesma forma que os pais dele, certo?

— Sim. — A voz voltou ao tom baixo de antes. — Suponho que sim. Eles me ensinaram a ser gentil. A ajudar as pessoas sempre que elas precisassem. Que Deus tinha me colocado no mundo para guiar a humanidade pelo exemplo, não pela força. — Ele olhou para as mãos — aquelas mãos lisas, sem cicatrizes, capazes de erguer vigas e partir mundos com a mesma facilidade indiferente. — Mas eu sempre achei que fosse meu direito de nascença dominar.

Maren não disse nada por um momento. Quando falou, a voz era simples, direta, sem ornamento.

— Então está na hora de ouvi-los. — Ela o olhou nos olhos. — Seja o herói que eles o criaram para ser.


Calvin não respondeu.

Levantou, foi até a porta, e saiu sem dizer nada. Maren ficou parada atrás do balcão, com as duas xícaras vazias entre as mãos, ouvindo os passos dele se afastarem pela rua de Novarca até não ouvir mais nada.

Não sabia se havia plantado uma semente ou apenas perturbado terra dura.

Sabia apenas que havia dito a verdade, e que a verdade era o único presente que ainda tinha para dar.


Uma semana se passou.

Novarca fez o que Novarca havia aprendido a fazer — sobreviveu, resmungou, reconstruiu mais um pouco, e fingiu que o céu cinzento era apenas o céu e não uma lembrança permanente do que havia acontecido ali.

Maren abriu e fechou a loja. Serviu chá que ninguém pediu. Organizou prateleiras que já estavam organizadas.

Esperou.


Não era incomum, naquele período, que grupos de jovens com poderes cruzassem caminhos em Novarca. A cidade havia se tornado uma espécie de ponto de convergência — talvez pela história que carregava, talvez por algo mais difícil de explicar, o tipo de coisa que acontece com lugares onde poder suficiente foi liberado para deixar uma marca permanente no ar.

Os Despertos haviam chegado primeiro.

Ninguém sabia exatamente como os poderes começaram a aparecer — uma geração inteira de jovens nascidos durante ou logo após a Guerra dos Céus, como se o trauma do mundo houvesse deixado algo diferente na matéria de que eram feitos. O que os unia não era apenas o poder, mas a consciência de que o poder precisava de direção. Eles haviam encontrado o Professor, e o Professor havia encontrado o Clarão — um jovem de olhos que enxergavam além do visível, que havia reunido o grupo com a mesma convicção calma de quem sabe que está fazendo o que precisa ser feito.

Os Novos Deuses vieram depois, e por um caminho diferente.

Eram os que haviam ficado para trás — os sidekicks, os parceiros, os aprendizes que haviam perdido seus mentores na guerra e precisado crescer mais rápido do que qualquer jovem deveria crescer. O que os movia não era convicção calma. Era luto transformado em propósito, o que é uma forma de força diferente de qualquer outra, mais quente e mais perigosa.

À frente deles vinha o Pena Vermelha.

Ele não tinha poderes — nunca havia tido. O que tinha era treinamento, disciplina, e uma autoridade conquistada na única moeda que os outros aceitavam: ele havia estado lá. Havia visto o Asas de Couro morrer. Havia continuado assim mesmo, porque a alternativa era parar, e parar não era algo que o Pena Vermelha sabia fazer.

Os dois grupos se encontraram numa avenida larga do centro de Novarca, e o encontro não foi amigável.

Não havia um motivo único — havia acúmulo. Territórios sobrepostos, filosofias incompatíveis, o tipo de tensão que se constrói entre jovens poderosos que ainda não aprenderam que poder sem sabedoria é apenas destruição com intenções melhores. Uma palavra errada, um gesto mal interpretado, e em segundos havia energia voando em todas as direções, crateras se abrindo no asfalto já rachado de Novarca, as pessoas nos arredores correndo para qualquer lugar que ficasse longe daquilo.

O Clarão tentava conter os seus. O Pena Vermelha tentava conter os dele. Nenhum dos dois conseguia mais do que segurar uma maré com as mãos.

E então o céu fez um som.

Não era trovão — era diferente, mais grave, mais intencional, o tipo de som que o ar faz quando algo de muito pesado passa por ele em velocidade que não é natural. As pessoas que ainda estavam na rua pararam e olharam para cima.

Os dois grupos pararam.

O Clarão parou.

O Pena Vermelha parou.

Algo vinha do céu.


O impacto foi exato.

Não no meio dos dois grupos — entre eles. No único ponto da avenida que criava uma fronteira clara, como se quem vinha de cima houvesse calculado a geometria do conflito antes de chegar a ele e escolhido o único lugar que significava nenhum lado.

A onda de pressão empurrou todos para trás — não com violência suficiente para machucar, mas com força suficiente para dizer parem. A poeira vermelha de Novarca subiu em nuvem densa, e por alguns segundos não havia nada além daquela nuvem e do silêncio súbito que a guerra de crianças poderosas havia deixado para trás.

A poeira baixou.

Ele estava de pé no centro da cratera rasa que havia criado, um joelho ainda dobrado, uma mão espalmada no asfalto, a cabeça levemente inclinada para baixo — o momento exato antes de se erguer completamente, quando a chegada ainda estava se decidindo em levantada.

O uniforme era azul profundo com detalhes dourados — não o ouro chamativo de quem quer ser visto, mas o ouro de quem não precisa pedir para ser notado. No peito, dentro de um círculo que lembrava um sol, um S vermelho-escuro que ninguém ali havia visto antes e que ao mesmo tempo parecia familiar de uma forma que nenhum deles conseguiria explicar.

Ele se ergueu.

Era alto, mais alto do que parecia à distância, com aquela postura que não era arrogância — era simplesmente a postura de um ser que havia aprendido, da forma mais difícil possível, o que significa estar de pé.

O Clarão foi o primeiro a falar, a voz misturando cautela e algo que não queria ser esperança mas era.

— Quem é você?

Ele os olhou — primeiro os Despertos, depois os Novos Deuses, e por último o Pena Vermelha, que não havia recuado um centímetro e que o encarava com os olhos de quem já viu o pior que o mundo tem a oferecer e sobreviveu para desconfiar do resto.

O canto da boca se moveu.

Não era um sorriso completo — era o começo de um, a promessa de que sorrisos ainda eram possíveis num mundo que havia esquecido como fazê-los. Era o sorriso de alguém que carregava tudo que havia carregado e ainda assim havia escolhido estar ali, naquela avenida, naquele momento, entre aquelas pessoas.

Foi o Pena Vermelha quem falou primeiro.

A voz saiu diferente do que ele pretendia — não a voz de comando que havia construído ao longo de anos de luto transformado em propósito, mas algo mais antigo, mais frágil, a voz de quem está vendo algo que havia desistido de ver.

— So… Solum…? — Ele engoliu em seco. — Eu… nós… pensávamos que você estava morto.

O homem de uniforme azul e dourado o olhou. Não havia pressa na resposta — havia o peso cuidadoso de alguém escolhendo as palavras certas para uma verdade que não cabia em palavras simples.

— Eu estava — disse ele. — De certa forma. Estava perdido, mas fui achado. — Uma pausa. — Depois conversamos. Agora temos muito trabalho a fazer.

O meio sorriso voltou.

— Vamos?


Fim

Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.

E assim termina Redenção — mas para Novarca, é só o começo. Se essa história tocou você de alguma forma, compartilhe. As histórias que precisam ser lembradas dependem de quem as carrega adiante — assim como a Maren sempre soube. Nos encontre no X em @salajusticablog, no Instagram e Facebook em @saladejusticablog.

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