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[Resenha] Homem-Aranha: Um Novo Dia

Título: Homem-Aranha: Um Novo Dia Direção: Destin Daniel Cretton Ano: 2026 Categoria: Filmes

Introdução

Depois do nível altíssimo estabelecido pelo filme dos três Aranhas, a régua para qualquer continuação estava lá em cima. “Um Novo Dia” não só alcança essa régua como, ouso dizer, a supera: é o melhor filme desta versão do personagem até aqui.

Sinopse

Peter Parker (Tom Holland) já não vive mais como Peter Parker. O Aranha é um herói estabelecido em Nova Iorque, reconhecido inclusive pelas autoridades, trabalhando ao lado da detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas). Quando uma força desconhecida começa a atacar instalações do Controle de Danos — órgão federal responsável por limpar os estragos das batalhas entre heróis e vilões —, o Aranha entra na investigação, cruzando caminho com um Justiceiro (Jon Bernthal) inicialmente hostil. À medida que a trama avança, o herói precisa lidar tanto com a ameaça externa quanto com sua própria mutação aracnídea, cada vez mais difícil de conter — sem contar as próprias tensões pessoais com MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon), que já não se lembram de quem ele é.

Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

Análise

O grande trunfo do filme é o equilíbrio entre ação e caracterização. As cenas de combate — com destaque absoluto para o confronto contra o Hulk (Mark Ruffalo) — têm um nível de coreografia e impacto visual raramente visto em adaptações do personagem. Mas o que realmente elevou minha experiência foram os momentos de “não ação”: o Aranha conversando com pessoas, entrando em prédios pela porta, sentando em cadeiras como qualquer um. São pequenos gestos que humanizam o herói sem depender do Peter Parker civil, e as cenas com a detetive DeWolff em particular têm uma química ótima.

A revelação de que a vilã por trás dos ataques é >> Jean Grey (Sadie Sink) << (selecione o trecho entre >> << para ver quem é), ainda em estágio inicial de seus poderes telepáticos, dá à trama um viés trágico bem-vindo: ela não é uma antagonista no sentido tradicional, mas uma vítima manipulada pelo verdadeiro arquiteto do caos — William “Bill” Metzger, o chefe do Controle de Danos, vivido por um ótimo Tramell Tillman. A descoberta de que sua irmã, Sarah, morreu em experimentos dentro do próprio cofre da agência é o gatilho perfeito para o despertar total dos poderes da telepata — e para o clímax do filme.

Do ponto de vista de fidelidade ao material original, este é provavelmente o ponto mais forte da produção. Várias cenas de ação pareciam ter saído direto de uma prancha do Alex Ross — aquela textura pictórica, quase pintada a óleo, que ele consagrou em trabalhos como “Marvels”. O uniforme do Aranha, aliás, lembra muito o que o próprio Ross pintou naquela minissérie: tecido real, dobras visíveis no movimento, contornos do rosto do Peter marcados sob a máscara. É, sem exagero, o melhor uniforme de super-herói em live action desde o do Christopher Reeve como Superman — e o próprio Ross, com seu realismo pictórico aplicado a trajes coloridos e fiéis aos quadrinhos, já provou décadas atrás que essa fórmula funciona. O filme só confirma na tela o que ele demonstrou no papel.

Vale um comentário sobre a detetive DeWolff, vivida por uma atriz negra na adaptação, diferente da personagem branca dos quadrinhos. Tenho uma régua pessoal para esse tipo de troca: ela funciona quando o intérprete engrandece o papel — caso do Idris Elba como Heimdall — e quando a essência do personagem permanece intacta, como aqui. O problema aparece quando a troca vem acompanhada de uma reformulação da própria identidade do personagem, como a Gaal Dornick da série de TV Fundação: no livro, um homem com participação breve mas relevante; na adaptação, uma mulher negra praticamente imortal que assume o papel de protagonista, desviando toda a arquitetura narrativa dos romances de Asimov — “sabor Fundação”, como gosto de chamar. Aqui não: a Marvel trocou só a etnia, manteve a essência da personagem, e ainda entregou uma atriz cativante no papel. Ponto para o filme.

Fica no ar, ainda, uma expectativa para quem conhece as HQs: nos quadrinhos, é justamente o caso da morte de Jean DeWolff que arruína a carreira do jornalista Eddie Brock — ele aponta o suspeito errado, é demitido do Clarim Diário, e é essa humilhação que o deixa vulnerável o suficiente para se unir ao simbionte e se tornar o Venom. O filme não confirma nada nesse sentido, mas a simples presença da DeWolff já é o tipo de semente que os fãs mais atentos vão associar à chegada do vilão — e que a Marvel talvez esteja plantando de propósito.

A resolução entre o Aranha e o Justiceiro, que evolui de rivalidade tática para amizade genuína no hospital, também acerta o tom: cada um mantém sua identidade e seus métodos, mas encontram respeito mútuo sem que nenhum dos dois precise abandonar quem é.

Se há um ponto fraco, é justamente o que ficou de fora: a ausência do Clarim Diário e da dinâmica com J. Jonah Jameson. É um elemento tão central à mitologia do personagem que sua falta se sente, mesmo num filme já bastante completo.

Conclusão

“Um Novo Dia” prova algo que devia ser óbvio, mas que o gênero insiste em esquecer: um filme de herói funciona quando o herói é, de fato, um herói — com evolução real, escolhas que importam e fidelidade ao que sempre fez o personagem funcionar. Recomendo sem ressalvas para fãs do Aranha e para quem simplesmente quer ver um filme de super-herói bem-feito.

Nota do Vini: 9,5/10 🤩

Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br. Se você também trocou o inibidor de DNA pelo controle remoto da TV para maratonar o Aranha, sabe que valeu a pena.

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