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[Resenha] Star Trek: Strange New Worlds — 4ª Temporada

Ficção Científica | Série | Paramount+ | 2026 | 10 episódios

Introdução

Toda temporada de Strange New Worlds carrega o mesmo desafio: ser fiel ao espírito episódico da Série Clássica sem parecer datada, e ao mesmo tempo conduzir personagens já conhecidos rumo ao destino que sabemos que os aguarda. Depois de uma terceira temporada mais serializada — e, na minha opinião, a mais fraca da série até aqui —, a quarta temporada resolveu corrigir o rumo com uma decisão simples e corajosa: voltar ao formato “aventura da semana”, com um gênero diferente a cada episódio. O resultado é uma temporada irregular, mas ousada, que acerta muito mais do que erra, e que devolve à série a sensação de descoberta que a tornou especial desde o início.

Sinopse (sem spoilers)

A Enterprise, sob o comando do capitão Christopher Pike (Anson Mount), enfrenta dez missões completamente distintas entre si: um paradoxo temporal que a leva 65 milhões de anos ao passado, uma nave fantasma repleta de alucinações, uma escala de “férias” que sai do controle, um planeta-espelho em preto e branco sob ocupação Klingon, um acidente de teletransporte com consequências inusitadas, uma corrente de dobra que ameaça destruir a nave, uma realidade alterada em forma de novela dramática, um dilema moral em torno de um almirante obcecado por vingança, o retorno a um reino de conto de fadas, e um encontro entre duas versões da mesma tripulante separadas pelo tempo. No caminho, os laços entre a tripulação se aprofundam, e alguns deles começam, finalmente, a se parecer com os personagens que conheceremos em Star Trek: A Série Clássica.

Cuidado: alerta de spoiler!
Cuidado: alerta de spoiler!

De volta ao espírito episódico

O maior acerto estrutural da temporada foi abandonar a serialização mais pesada que marcou a temporada anterior e retomar o formato de “mistério ou monstro da semana” que define a vocação de Star Trek. Isso ficou evidente já no primeiro episódio, “Valles Marineris”, quando um resgate na fronteira com o espaço Klingon se transforma em uma viagem de 65 milhões de anos ao passado, revelando marcianos genuínos em guerra com invasores insetoides — e explicando, de quebra, a extinção dos dinossauros, a origem do cinturão de asteroides e o destino de Marte. É o tipo de história autocontida, ambiciosa e cheia de ideias que só Star Trek consegue costurar com naturalidade, e um lembrete de que as duas primeiras temporadas da série foram tão bem-sucedidas justamente por esse motivo.

Ousadia de gêneros: acertos e tropeços

A produção não se contentou em apenas voltar ao episódico — quis experimentar. Tivemos um episódio de terror (“The Griffin Incident”), um de comédia satírica sobre férias desinibidas (“Human Best Friend”), um noir de espionagem em preto e branco (“A Case of Chiaroscuro”), uma comédia non sense com a tripulação transformada em bonecos de fantoche (“Level-Five Transporter Accident”), um thriller de sobrevivência tenso (“Off-Hour”), uma soap opera dramática orquestrada por um visitante extradimensional (“Like Chronitons Through the Hourglass”), um dilema moral clássico (“Orders of Magnitude”), um retorno a um reino de conto de fadas (“Once La’An a Time”) e, para fechar, uma história de paradoxo temporal envolvendo duas versões da mesma personagem (“Tomorrow’s Enterprise”).

Nem tudo funcionou. “The Griffin Incident” foi o episódio mais fraco da temporada: previsível desde o início, sem nenhuma revelação ou consequência real ao final — um episódio de terror que lembrou, e não para o bem, um capítulo mal resolvido de Scooby-Doo. “Human Best Friend” teve boas piadas, mas tropeçou ao normalizar a embriaguez recreativa como forma de “férias”, algo que não é saudável para ninguém, muito menos numa série acompanhada por adolescentes. Já “A Case of Chiaroscuro”, “Level-Five Transporter Accident” e “Off-Hour” formaram uma sequência de altíssimo nível, mostrando que a variação de tom, quando bem executada, é uma das grandes forças da série.

Rumo à Série Clássica: o arco dos personagens

Um dos fios condutores mais interessantes da temporada foi observar personagens conhecidos se aproximando das versões que conheceremos em TOS. Em “Level-Five Transporter Accident”, Spock (Ethan Peck) decide, em uma cena explícita, abrir mão de suas emoções humanas — o primeiro passo rumo ao vulcano contido e mal-humorado que os fãs de longa data amam. A cena de despedida do episódio ainda reserva uma homenagem e tanto: quando os órions ameaçam jogar o “Pike fantoche” no espaço, o roteiro repete a fala icônica de A Ira de Khan — “a necessidade de muitos sobrepõe a necessidade de um” —, mas com os papéis invertidos: Pike no lugar do Spock que se sacrifica, e Spock no lugar do Kirk relutante, com a cena interrompida antes de se completar.

Em “Off-Hour”, é a vez de Scotty (Martin Quinn) começar a trilhar o caminho até o “milagreiro” da engenharia que ele se tornará, superando uma crise de fé em si mesmo com a ajuda da mentora Pelia (Carol Kane). Já em “Like Chronitons Through the Hourglass”, outra homenagem ao legado da série: para o transplante de coração de Spock, La’An resgata da cadeia um suposto doador compatível que se revela um gêmeo malvado dele — a primeira aparição em tela de Sybok, o irmão mais velho de Spock, revelado ao final como uma construção da “novela” orquestrada pelo visitante extradimensional Trelane, e não o Sybok real da mitologia de Star Trek, cuja história continua em aberto.

Já em “Once La’An a Time”, La’An Noonien-Singh (Christina Chong) enfrenta, através de um retorno ao reino de conto de fadas de Elysium, os dois lados de sua própria herança — ainda que sua recuperação emocional tenha soado rápida e forçada demais para o sofrimento acumulado ao longo da temporada.

Nem todos os arcos convenceram igualmente. A versão de Scotty apresentada por Strange New Worlds é insegura e cômica a ponto de, por vezes, parecer um personagem completamente diferente do engenheiro confiante que conhecemos. A série ainda tem uma temporada inteira para completar essa transição — mas também precisa, nesse mesmo espaço de tempo, apresentar Leonard McCoy e Sulu, o que pode deixar pouco tempo para amarrar tudo.

O grande ausente: o capitão Pike

Se há um ponto que realmente pesa contra esta temporada, é o tratamento dado ao capitão Pike. A decisão de desenvolver os demais personagens — muitos deles com bons resultados, como visto acima — acabou custando caro justamente ao melhor personagem, e ao melhor ator, da série. Houve episódios em que Pike teve pouquíssimas falas, relegado a um papel quase decorativo em sua própria nave. É um desequilíbrio que não pode se repetir na última temporada, especialmente com a passagem de comando para Kirk se aproximando no horizonte — como a própria temporada já deixou entrever.

Rumo ao futuro

O episódio final, “Tomorrow’s Enterprise”, trouxe uma profecia e tanto: em apenas um ano, James T. Kirk (Paul Wesley) já estará no comando da Enterprise, com Uhura (Celia Rose Gooding), Scotty e outros tripulantes ocupando posições cada vez mais próximas daquelas que terão em TOS. Isso levanta uma pergunta inevitável: será que a quinta e última temporada — confirmada com apenas 6 episódios, uma pena para quem esperava um fechamento mais longo — terminará justamente com essa passagem de comando? Ou o roteiro reserva a surpresa de antecipar esse momento? Resta acompanhar.

Pontos positivos

  • Retorno bem-vindo ao formato episódico, mais fiel à vocação e ao espírito da série
  • Ousadia real na variação de gêneros, acertando mais do que errando
  • Desenvolvimento consistente de personagens rumo às suas versões de TOS, com destaque para o arco de Spock
  • Sequência de episódios 4 a 6 entre o melhor que a série já produziu
  • Participação especial de peso, como a do veterano Joe Morton em “Orders of Magnitude”

Pontos negativos

  • O capitão Pike foi relegado a coadjuvante ao longo de boa parte da temporada, um desequilíbrio que prejudica o melhor personagem da série
  • “The Griffin Incident” não se sustenta como episódio de terror, sem revelação ou consequência ao final
  • “Human Best Friend” acerta no humor, mas erra ao romantizar a embriaguez recreativa
  • A recuperação emocional de La’An em “Once La’An a Time” soa rápida e pouco trabalhada
  • A trilha sonora e os enquadramentos retrô que remetiam a TOS, marcantes na primeira temporada, praticamente desapareceram

Conclusão

Star Trek: Strange New Worlds encerra sua quarta temporada mais forte do que começou a anterior: mais corajosa, mais variada, e mais disposta a arriscar. Os tropeços existem, e alguns pesam — sobretudo o apagamento quase total do capitão que dá o tom moral da série —, mas a disposição de experimentar gêneros diferentes a cada semana, aliada ao amadurecimento gradual de personagens como Spock e Scotty rumo às suas versões clássicas, mantém viva a promessa que fez desta série a mais fiel herdeira do espírito original de Star Trek. Com a quinta e última temporada já confirmada — ainda que reduzida a apenas 6 episódios —, e o horizonte da ascensão de Kirk ao comando cada vez mais próximo, resta perguntar: será essa a temporada em que finalmente veremos a Enterprise assumir de vez a configuração clássica que todos aguardamos? Ou a série ainda vai nos surpreender pelo caminho?

Notas por episódio

Ep.TítuloNota
1Valles Marineris9,0
2The Griffin Incident5,0
3Human Best Friend4,0
4A Case of Chiaroscuro8,0
5Level-Five Transporter Accident9,0
6Off-Hour9,0
7Like Chronitons Through the Hourglass8,0
8Orders of Magnitude7,0
9Once La’An a Time7,0
10Tomorrow’s Enterprise8,0

Nota final da temporada (média aritmética): 7,4/10 😊


Vinícius Aragão Costa escreve sobre séries, quadrinhos e cultura geek em saladejustica.com.br.

E você, o que achou da 4ª temporada de Strange New Worlds? Concorda que o capitão Pike mereceria mais destaque, ou prefere ver a série investindo no desenvolvimento do restante da tripulação? Comente aqui embaixo!

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Que venha a última temporada. Até lá… PISA FUNDO!

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